terça-feira, 15 de setembro de 2026

A MORTE DE AGOSTINHO NETO: O QUE SABEMOS, O QUE FOI OCULTADO E O QUE CONTINUA POR ESCLARECER

Por Artur Graça Cussendala No dia 10 de Setembro de 1979, Angola perdeu António Agostinho Neto, primeiro Presidente da República Popular de Angola, médico, poeta, dirigente histórico do MPLA e uma das figuras políticas africanas mais importantes do século XX. Neto morreu em Moscovo, na União Soviética, aos 56 anos, exactamente uma semana antes de completar 57 anos. Durante décadas, a versão mais repetida em Angola foi simples: Agostinho Neto morreu em consequência de complicações de uma operação realizada em Moscovo para tratar um cancro. Mas o assunto merece uma análise mais cuidadosa. De que doença sofria realmente Neto? Que operação foi realizada? O que encontraram os médicos soviéticos? Qual foi exactamente a causa da morte? Houve autópsia? E, sobretudo, existe alguma evidência séria de que tenha sido assassinado? Estas perguntas não são novas. Algumas surgiram imediatamente depois da sua morte. Outras nasceram posteriormente, alimentadas pelo carácter inesperado do falecimento de um chefe de Estado relativamente jovem, pela importância política de Neto e pelo ambiente extremamente tenso em que Angola se encontrava em 1979. 1. O que aconteceu em Moscovo? Uma das fontes mais importantes para reconstruir os últimos dias de Neto é a imprensa internacional publicada imediatamente depois da sua morte. O Washington Post, na edição de 12 de Setembro de 1979, informou que Neto tinha sido submetido, em 8 de Setembro, a uma operação preliminar destinada a desobstruir o canal biliar. Segundo a mesma notícia, durante o procedimento os médicos descobriram que Neto sofria de um cancro inoperável do pâncreas. A informação era atribuída a um relatório assinado por dois especialistas da Academia Soviética de Ciências Médicas. A mesma fonte afirma que, depois da intervenção, surgiram complicações e Neto morreu dois dias depois, em 10 de Setembro. Este detalhe é fundamental. A ideia de que Neto simplesmente "morreu durante uma operação" é demasiado simplificada. O que a documentação contemporânea indica é que: Neto já estava gravemente doente quando chegou a Moscovo; foi submetido a uma intervenção; durante a intervenção foi constatada a existência de um tumor pancreático considerado inoperável; e posteriormente surgiram complicações graves que conduziram à sua morte. 2. Afinal, era cancro do fígado ou do pâncreas? Aqui encontramos uma das maiores confusões na memória histórica sobre a morte de Neto. Durante anos, algumas biografias e textos em língua portuguesa referiram simplesmente que Neto morreu durante uma operação a um cancro do fígado. Mas as fontes contemporâneas são mais específicas. A revista TIME, em 24 de Setembro de 1979, escreveu que Neto morreu depois de uma cirurgia relacionada com cancro do pâncreas e cirrose do fígado. Mais importante ainda é a reprodução do relatório médico soviético publicada na imprensa portuguesa da época. Segundo esse relatório, Neto sofria há algum tempo de hepatite crónica, que evoluíra para cirrose hepática. Essa doença teria provocado alterações no canal biliar, icterícia e agravamento da função renal. Durante a operação, os médicos encontraram um tumor maligno no pâncreas, responsável pela obstrução das vias biliares. O relatório indicava ainda que os médicos conseguiram restabelecer a drenagem da bílis, mas que as funções hepática e renal estavam já gravemente comprometidas. Seguiu-se uma intoxicação progressiva que afectou o sistema nervoso central, o coração e os vasos sanguíneos. Portanto, uma formulação historicamente mais rigorosa seria: «Agostinho Neto sofria de uma doença hepática crónica grave, com cirrose e complicações das vias biliares, associada a um tumor maligno do pâncreas. A intervenção cirúrgica revelou que o tumor era inoperável e, após a operação, ocorreram complicações sistémicas que conduziram à sua morte.» 3. E a alegada leucemia? Há outro elemento curioso. A notícia do Washington Post de 12 de Setembro de 1979 dizia que Neto era conhecido por sofrer de leucemia havia vários anos. Isso não aparece com a mesma clareza no relatório médico posteriormente reproduzido pela imprensa portuguesa. Ou seja, existem versões médicas diferentes ou, pelo menos, informações médicas incompletas circulando nas primeiras notícias sobre a doença de Neto. Isso não significa necessariamente contradição. É perfeitamente possível que existissem doenças ou diagnósticos anteriores que não fossem a causa imediata da morte. Mas o facto merece ser registado, sobretudo porque estamos a falar de um chefe de Estado e médico, cuja verdadeira condição clínica aparentemente não era conhecida pelo público. 4. A doença de Neto já era conhecida? Sim. Outro ponto importante é que a doença de Neto não apareceu repentinamente em Setembro de 1979. Uma publicação académica sobre a política angolana refere que, desde 1978, já havia conhecimento de que Neto se submetia a tratamento relacionado com uma doença cancerígena. A imprensa portuguesa da época também registava rumores sobre a deterioração do seu estado de saúde. Uma compilação de jornais portugueses de Setembro de 1979 mostra que, imediatamente após a notícia da morte, alguns jornais recordavam que já circulavam há algum tempo informações sobre a doença do Presidente angolano. Portanto, não é correcto afirmar que Neto era um homem perfeitamente saudável que entrou num hospital soviético e morreu inesperadamente depois de uma operação. O seu estado de saúde já era motivo de preocupação antes da viagem final a Moscovo. 5. Por que razão a morte provocou tantas suspeitas? Aqui entramos numa zona em que é preciso separar cuidadosamente história de especulação. Agostinho Neto morreu num momento político extremamente delicado. Angola estava apenas a quatro anos da independência. O país encontrava-se mergulhado numa guerra civil e numa confrontação internacional envolvendo: - MPLA; - UNITA; - FNLA; - Cuba; - União Soviética; - África do Sul; - Estados Unidos; - e vários interesses estratégicos ligados à Guerra Fria. Além disso, o próprio MPLA tinha atravessado, em 27 de Maio de 1977, uma das crises internas mais violentas da sua história. A morte de Neto, portanto, não aconteceu num ambiente político normal. A revista TIME, poucas semanas depois da morte, intitulou a sua análise "Neto's Death: Start of a Power Struggle" — "A morte de Neto: início de uma luta pelo poder". A publicação destacava precisamente as profundas divisões internas do MPLA e os problemas de sucessão que a morte do Presidente poderia provocar. O Washington Post também escreveu que a morte provavelmente reabriria a disputa pelo poder que periodicamente afectava Angola desde a independência. Isso é importante porque explica por que razão a morte de Neto rapidamente adquiriu uma dimensão política. 6. Quem beneficiou politicamente da morte de Neto? Esta é uma pergunta legítima, mas a resposta exige cautela. Na altura da sua morte, Neto tinha deixado José Eduardo dos Santos encarregado do Governo durante a sua ausência, enquanto Lúcio Lara assumia responsabilidades na direcção do MPLA. A imprensa internacional identificava precisamente estes dois homens como figuras importantes na sucessão. O Washington Post escreveu que José Eduardo dos Santos, então ministro do Planeamento, tinha sido designado para dirigir o Governo durante a ausência de Neto, enquanto Lúcio Lara, figura histórica do MPLA, assumia funções partidárias. Posteriormente, José Eduardo dos Santos tornou-se Presidente da República em 20 de Setembro de 1979. Mas aqui precisamos estabelecer uma fronteira: o facto de alguém beneficiar politicamente da morte de uma figura não constitui prova de que tenha provocado essa morte. Essa distinção é essencial. Se aplicássemos o contrário, qualquer sucessão política após uma morte poderia ser transformada automaticamente numa teoria de assassinato. Não há, nas fontes que consegui localizar, documentação credível que demonstre que José Eduardo dos Santos, Lúcio Lara ou qualquer outro dirigente do MPLA tenha ordenado ou participado na morte de Neto. 7. E a hipótese de envenenamento? Também aparecem, ao longo dos anos, versões segundo as quais Neto teria sido envenenado. O problema é que não encontrei uma fonte primária ou investigação independente credível que demonstre isso. Não encontrei, na documentação consultada, um relatório toxicológico, uma autópsia publicada ou um testemunho médico verificável que sustente a hipótese de envenenamento. Por isso, seria irresponsável transformar essa possibilidade em afirmação. Podemos dizer: Há rumores de envenenamento. Não encontrei prova documental que os confirme. Essa é a posição historicamente mais honesta. 8. E uma eventual conspiração soviética? Também aqui é necessário resistir à tentação de transformar o contexto político em prova. A União Soviética era o principal aliado internacional do MPLA e Angola encontrava-se profundamente ligada ao bloco socialista. Neto morreu precisamente em Moscovo, numa altura em que a União Soviética tinha enorme influência política, militar e económica em Angola. Mas isso não significa que os soviéticos tivessem interesse em matar Neto. Aliás, a documentação contemporânea disponível apresenta a medicina soviética como tendo tentado tratar o Presidente angolano e atribui a morte às complicações provocadas pela doença grave. O relatório médico citado pela imprensa foi atribuído a especialistas soviéticos de elevado nível, entre eles Evgueni Chazov, uma das figuras mais importantes da medicina soviética. Para sustentar uma acusação de assassinato seria necessário algo muito mais forte do que o simples facto de Neto ter morrido em Moscovo. 9. Uma questão que permanece: onde está o processo clínico completo? Esta talvez seja uma das perguntas mais interessantes para investigadores angolanos. Temos referências ao relatório médico soviético, reproduzidas por jornais da época. Mas uma coisa é conhecer aquilo que foi divulgado publicamente. Outra é ter acesso ao processo clínico integral. Seria extremamente importante saber se ainda existem: - ficha de entrada no hospital; - exames laboratoriais; - exames radiológicos; - diagnóstico pré-operatório; - relatório cirúrgico completo; - relatório anatomopatológico; - relatório de evolução pós-operatória; - certificado médico de óbito; - eventual relatório de autópsia; - identificação completa da equipa médica; - e correspondência entre as autoridades angolanas e soviéticas. A existência ou inexistência desses documentos poderia ajudar a encerrar definitivamente várias dúvidas. 10. A morte foi realmente "inesperada"? Para o público angolano, sim. Mas para quem conhecia a condição clínica de Neto, aparentemente não. A imprensa internacional da época descrevia uma doença grave. A documentação médica indicava hepatite crónica, cirrose, obstrução biliar, comprometimento renal e tumor pancreático inoperável. O que terá sido inesperado foi a rapidez da deterioração final. Neto chegou a Moscovo no início de Setembro, foi submetido à intervenção no dia 8 e morreu no dia 10. O intervalo foi extremamente curto. Isso ajuda a compreender por que razão a notícia causou choque em Angola. A própria compilação da imprensa portuguesa da época mostra que a notícia foi inicialmente tratada com alguma incerteza: primeiro surgiram informações sobre uma operação e sobre o agravamento do estado de saúde; depois veio a confirmação da morte. 11. O que podemos afirmar com segurança? Depois de confrontar as fontes disponíveis, eu dividiria as conclusões em três níveis. FACTOS DOCUMENTADOS 1. Agostinho Neto morreu em Moscovo em 10 de Setembro de 1979, aos 56 anos. 2. Encontrava-se gravemente doente. 3. Sofria de problemas hepáticos graves, incluindo hepatite crónica e cirrose, segundo o relatório médico reproduzido pela imprensa da época. 4. Existia uma obstrução das vias biliares. 5. Durante a intervenção foi descoberto um tumor maligno no pâncreas, considerado inoperável. 6. Os médicos conseguiram restabelecer a drenagem da bílis, mas Neto sofreu posteriormente complicações graves. 7. A deterioração envolveu o fígado, os rins e posteriormente outros sistemas do organismo. 8. A imprensa internacional da época atribuiu a morte às complicações decorrentes da doença e da intervenção cirúrgica. QUESTÕES QUE MERECEM INVESTIGAÇÃO 1. Qual era exactamente o diagnóstico de Neto antes da sua última viagem a Moscovo? 2. Existiam outros diagnósticos além do cancro pancreático e da doença hepática? 3. Foi realizada autópsia? 4. Onde está o relatório médico integral? 5. Existe relatório anatomopatológico que confirme o tumor pancreático? 6. Existem exames médicos anteriores realizados em Angola? 7. Existem arquivos soviéticos ainda não consultados pelos investigadores angolanos? Estas são perguntas históricas legítimas. O QUE NÃO ESTÁ PROVADO Não encontrei documentação credível que prove: - assassinato; - envenenamento; - sabotagem médica; - participação soviética numa conspiração; - participação de dirigentes do MPLA na morte; - ou uma operação deliberadamente mal executada para provocar a morte de Neto. Portanto, não devemos apresentar nenhuma dessas hipóteses como facto. 12. A minha conclusão A morte de Agostinho Neto continua a ser um episódio que merece investigação histórica mais profunda. Mas uma investigação séria não deve partir da conclusão de que houve assassinato. Deve partir das perguntas. A documentação contemporânea que conseguimos localizar aponta claramente para uma doença grave e para um tumor pancreático inoperável, num organismo já debilitado por problemas hepáticos e renais. Isso constitui, até prova em contrário, a explicação mais sólida para a morte. Mas também é legítimo perguntar por que razão ainda existe tanta confusão sobre o diagnóstico de Neto, por que algumas fontes falam em leucemia, outras em cancro do fígado e outras em cancro do pâncreas, e sobretudo qual é o conteúdo integral da documentação clínica produzida em Moscovo. Quarenta e sete anos depois, a pergunta mais responsável talvez não seja: "Quem matou Agostinho Neto?" Mas sim: "Temos todos os documentos necessários para afirmar, sem qualquer dúvida, como morreu Agostinho Neto?" Se a resposta for não, então há ainda trabalho para os historiadores. E esse trabalho não deve ser feito por militantes, nem por propagandistas, nem por defensores de teorias conspirativas. Deve ser feito por historiadores, médicos, arquivistas e investigadores, com acesso aos documentos originais. Porque a História não precisa de lendas para ser interessante. Precisa de documentos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O TEMPO PASSA… E, ÀS VEZES, NEM NOS DAMOS CONTA

Hoje deparei-me aqui, no Facebook, com a lista dos candidatos admitidos ao exame de acesso ao Concurso Público de Ingresso no Ministério da Educação, pelo município do Quissongo — a terra do barro vermelho que, há 60 “cacimbos”, me viu nascer. Percorri a lista de ponta a ponta, quase como quem procura um nome conhecido. Olhei para as habilitações literárias, mas foram sobretudo as idades que me fizeram parar e reflectir. A maioria está na casa dos 30 anos e há até um candidato com 41. Foi então que me dei conta de uma coisa curiosa: não reconheci absolutamente ninguém. E não poderia ser de outra forma. Quando saí do Quissongo (outrora comuna), no final da década de 70 do século passado, nenhum daqueles candidatos tinha nascido. São homens e mulheres de uma nova geração, que hoje trilham caminhos que, de alguma maneira, um dia também palmilhei. Aquela simples lista, que para muitos talvez não passe de um conjunto de nomes à espera de uma oportunidade de emprego, provocou em mim um estranho e bonito sentimento de satisfação e nostalgia ao mesmo tempo. Satisfação por ver uma nova geração a estudar, a procurar oportunidades e a construir o seu próprio futuro. Nostalgia porque, ao olhar para aquelas idades, percebi de forma muito concreta como o tempo passou. Aquelas crianças que nunca conheci, porque ainda não existiam quando parti, são hoje adultos, candidatos a professores e, quem sabe, futuros educadores de outras gerações. É assim que a vida passa diante dos nossos olhos. Primeiro somos nós a procurar o nosso lugar no mundo; depois, quase sem percebermos, passamos a assistir às novas gerações a ocuparem os lugares que um dia foram nossos. Quissongo viu-me nascer. Eu vi partir uma geração. Hoje, ao olhar para esta lista, percebi que uma outra geração já está a escrever a sua própria história. E talvez seja esta uma das formas mais silenciosas de perceber que o tempo, esse velho companheiro, nunca parou de caminhar. Artur Cussendala, Quarta 09SET 2026 Na imagem: a casa de telhas atrás dos estudantes, pertenceu ao grémio do milho de Angola colonial e dirigida à época pelo Senhor Gouveia, vulgo "kaungo".

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A REFORMA

“Fui exonerado e mandado para a reforma sem aviso prévio. Foi uma situação que me apanhou completamente de surpresa.” Sério? Olhando para trás, talvez o seu próprio documento de identidade já trouxesse, há muito, o indício de que esse momento chegaria. E chegou. Há qualquer coisa de irónico quando alguém se mostra surpreendido por envelhecer, como se o tempo fosse uma realidade que só se aplicasse aos outros. A verdade, porém, é simples e incontornável: todos envelhecemos, e todos, mais cedo ou mais tarde, teremos de passar o testemunho. Tenho um filho que trabalha no cerimonial de uma força castrense e que, pela natureza da sua função, acompanha diariamente situações delicadas. O que me relata sobre as consequências de determinadas reformas e exonerações compulsórias baseadas na idade é preocupante. Há pessoas que, ao perderem subitamente o cargo que exerceram durante décadas, entram numa espécie de vazio existencial. Algumas desenvolvem graves perturbações emocionais e, em certos casos, esse sofrimento acaba por ter consequências trágicas. É preciso, contudo, fazer uma distinção importante: o problema não é a reforma em si, mas a forma como a pessoa é preparada para ela. Para muitos, o trabalho deixou de ser apenas uma profissão. Tornou-se identidade, estatuto, reconhecimento social e, em alguns casos, quase uma dependência. Sobretudo quando se trata de cargos de prestígio, acompanhados de privilégios e regalias, abandonar o posto pode ser psicologicamente muito mais difícil do que parece para quem observa de fora. Por isso, chegar à idade da reforma sem qualquer preparação para essa nova etapa da vida é, de certa forma, viver desligado de uma realidade que sempre esteve diante de nós. A reforma não deveria ser encarada como uma sentença, muito menos como o fim da vida produtiva. É o fim de um ciclo profissional e o início de outro. Existe ainda uma questão que raramente queremos discutir com honestidade que é a passagem do bastão para as novas gerações. Quando nos agarramos indefinidamente aos lugares que ocupamos, consciente ou inconscientemente, também podemos estar a fechar portas para aqueles que vêm atrás de nós. Há jovens preparados, qualificados e cheios de vontade de trabalhar, mas que encontram estruturas envelhecidas e oportunidades cada vez mais escassas. Isso não significa que os mais velhos sejam inúteis ou devam ser simplesmente afastados. Pelo contrário. A experiência de quem sai deve servir para formar e orientar quem entra. O conhecimento acumulado ao longo de décadas não deveria desaparecer no momento em que chega a reforma; deveria ser transmitido às novas gerações. O verdadeiro desafio, portanto, não é apenas reformar pessoas. É criar processos de transição dignos, humanos e previsíveis, nos quais o trabalhador saiba com antecedência quando e como deixará o cargo, tenha tempo para se preparar emocional e financeiramente e possa transmitir a sua experiência a quem o substituirá. Precisamos aprender a sair de cena com a mesma dignidade com que um dia entrámos. Porque o problema não está em passar o bastão. O problema está em acreditar que fomos feitos para segurá-lo eternamente. A vida tem ciclos. O trabalho também. E uma sociedade saudável é aquela que sabe respeitar quem sai, preparar quem entra e garantir que nenhum dos dois se sinta descartado. Artur Cussendala - Terça, 08SET 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

SERÃO ELES?! ONDE ANDAM AS "BÓFIAS"?

Não acredito em coincidências, mas a sucessão de incêndios em autocarros de transportes públicos em Angola já é grande demais para ser tratada simplesmente como uma série de acidentes isolados. A cada nova notícia de um autocarro em chamas, aumentam as dúvidas e, com elas, a desconfiança dos cidadãos. É evidente que existem explicações técnicas que devem ser investigadas, a exemplo de falhas mecânicas, problemas eléctricos, falta de manutenção preventiva, combustível ou outros factores relacionados com o estado dos veículos. Mas, perante a repetição dos casos e a proximidade de períodos politicamente sensíveis, também é legítimo perguntar se existe alguma coisa para além do que está à vista. Não seria a primeira vez que, às vésperas de eleições, surgem acontecimentos que alimentam a insegurança e a desconfiança. Já vimos, em anos anteriores, incêndios ou destruição de armazéns de víveres e veículos privados por este país profundo. Isso não prova que os acontecimentos actuais tenham uma origem criminosa ou política, mas é precisamente por existir esse histórico que as autoridades deveriam investigar cada caso com o máximo de rigor e transparência. O problema é que, quando não há respostas oficiais convincentes, o espaço deixado pela investigação é rapidamente ocupado pela especulação. E, nesse ambiente, misturam-se factos, rumores, teorias e acusações sem provas. Quando a "bófia" falha em esclarecer, o cidadão começa a construir a sua própria versão dos acontecimentos, algumas vezes acertada, outras completamente equivocada. Por isso, mais do que apontar o dedo a supostos mandantes sem provas, é preciso exigir respostas para se saber por que razão tantos autocarros estão a incendiar-se? Há um padrão comum entre os casos? As viaturas estavam devidamente mantidas? As causas dos incêndios foram determinadas por perícias independentes? Existem indícios de sabotagem? Se forem apenas falhas técnicas, que se diga claramente. Se houver negligência, que os responsáveis sejam responsabilizados. E, se houver mão criminosa por detrás destes acontecimentos, que os mandantes e executores sejam identificados e levados à Justiça. Transportes públicos são um serviço essencial e, em período pré-eleitoral, qualquer fenómeno desta natureza pode ter consequências que vão muito além da perda de um autocarro. Pode afectar a mobilidade, aumentar o medo e alimentar a desconfiança nas instituições. Não devemos transformar suspeitas em certezas, mas também não devemos tratar como mera coincidência aquilo que merece uma investigação séria. O fogo pode destruir um autocarro em minutos; a falta de respostas pode incendiar a confiança de uma sociedade inteira. Artur Cussendala 18AGO 2026

domingo, 9 de agosto de 2026

A CULPA NÃO PODE MORRER SOLTEIRA

Um palco daquela dimensão não aparece por magia. Não foi montado num quintal, escondido dos olhos de todos, para depois ser levado de reboque até ao local do evento. A sua montagem exigiu tempo, meios e logística. E, durante esse processo, muita gente terá visto o que estava a acontecer. É precisamente por isso que, perante o que aconteceu no Uíge, não podemos discutir apenas o acto que desencadeou o tumulto. É preciso perguntar também, onde estavam as autoridades enquanto tudo era preparado? Que medidas preventivas foram tomadas? Quem avaliou os riscos? E por que razão se permitiu que uma situação potencialmente perigosa chegasse àquele ponto? Eu reprovo o acto de impedir o direito de ir e vir dos citadinos do Uíge e compreendo que as autoridades tenham de garantir a ordem pública. Mas uma coisa não pode servir para esconder a outra. Se havia informações de que o acto era ilícito e propenso a ocorrer tumultos, aglomerações ou outros incidentes, cabia às autoridades agir preventivamente para proteger os cidadãos. O mais preocupante é que, pelas imagens que nos chegaram, quem acabou por pagar a factura foram cidadãos inocentes. Vêem-se senhoras idosas aflitas, no meio do tumulto, algumas a serem pisoteadas e a tentar desesperadamente escapar. São imagens difíceis de digerir e que deveriam interpelar a consciência de todos nós. Por isso, considero legítimo exigir responsabilidades a todos os níveis. Se uma investigação confirmar negligência ou falhas graves na prevenção e gestão da situação, deverão ser responsabilizados os responsáveis pela segurança e pela administração local, incluindo o Governador do Uíge, o comandante provincial da PNA, o delegado do MININT e o administrador municipal, cada um dentro das suas competências e responsabilidades. Da mesma forma, os organizadores do evento devem responder perante a Justiça caso se confirme que violaram a lei ou ignoraram determinações das autoridades. Não se trata de proteger a UNITA, o MPLA ou qualquer outra força política. Trata-se de proteger o cidadão. A ordem pública não pode ser aplicada selectivamente, nem podemos aceitar que as autoridades permaneçam inertes perante uma situação previsivelmente perigosa para depois aparecerem apenas quando o conflito já começou. Precisamos de uma sociedade normalizada, em que a prevenção seja mais importante do que a punição posterior. O Estado deve ser capaz de antecipar os riscos, dialogar com os organizadores, estabelecer condições de segurança e impedir que uma disputa política termine com cidadãos inocentes a correr pela vida. E há uma lição que não podemos ignorar, não basta descobrir quem provocou o incêndio; também é preciso saber quem viu o fumo, tinha obrigação de agir e não agiu. As imagens do Uíge exigem mais do que indignação nas redes sociais. Exigem uma investigação séria, independente e transparente, capaz de determinar responsabilidades políticas, administrativas e criminais, se existirem. Porque, no fim, repito 'a culpa não pode morrer solteira'. @destacar

domingo, 31 de maio de 2026

A ÉBOLA...

Há cerca de dez anos, escrevi algo semelhante e retorno ao tema porque sinto profundamente que há uma força invisível por trás de certos fenômenos. As explicações científicas mais aceites indicam que o Ébola e o Marburg são doenças zoonóticas, ou seja, vírus que passam de animais silvestres para seres humanos, especialmente através do contacto com morcegos frugívoros e outros animais infectados. No entanto, esta explicação levanta algumas questões que merecem reflexão. Os povos africanos convivem há milhares de anos com a fauna e a flora do continente. A caça, o consumo de carne de animais selvagens e o contacto com ecossistemas naturais sempre fizeram parte da realidade de muitas comunidades. Se essa convivência existe desde tempos imemoriais, por que razão surtos tão devastadores parecem ganhar maior destaque apenas nas últimas décadas? Com os avanços da biotecnologia e da engenharia genética, tornou-se tecnicamente possível manipular microrganismos em laboratório. Isso leva alguns observadores a questionarem se determinadas epidemias poderiam ter sido agravadas, modificadas ou mesmo exploradas por interesses geopolíticos, económicos ou militares. A recorrência de surtos em regiões marcadas por pobreza, conflitos armados, instituições frágeis e reduzida capacidade de investigação científica alimenta suspeitas entre muitos africanos. Países como a República Democrática do Congo e, anteriormente, Angola durante a guerra civil, reuniam condições que dificultavam a verificação independente das origens e dos mecanismos de propagação dessas doenças. Não se trata de afirmar categoricamente que o Ébola ou o Marburg sejam armas biológicas, mas de defender que todas as hipóteses relevantes devem ser investigadas com transparência, rigor científico e supervisão internacional. A história demonstra que programas secretos de investigação biológica já existiram em várias partes do mundo, razão pela qual o debate sobre biossegurança e a origem de determinadas epidemias não deve ser considerado ilegítimo ou encerrado prematuramente. Num continente que tantas vezes serviu de palco para disputas geopolíticas externas, é compreensível que surjam dúvidas e desconfianças. Por isso, mais do que aceitar explicações prontas, os africanos devem exigir investigação independente, acesso à informação e total transparência sobre a origem e a evolução dessas doenças. Artur Cussendala DOMINGO, 31MAI 2026 https://wwe.facebook.com/cussendala

segunda-feira, 25 de maio de 2026

TRUMP A INTERFERIR NO QUOTIDIANO DOS LUANDENSES

Nós, angolanos, muitas vezes distraímo-nos facilmente ou alimentamos a convicção de que os problemas do mundo nunca nos irão afectar diretamente. Há cerca de um mês, a Bloomberg alertou para uma possível escassez mundial de combustíveis derivados do petróleo. Na altura, partilhei essa informação no meu perfil e no grupo de Facebook que administro. Alguns provavelmente leram, mas poucos levaram o alerta a sério. Hoje, porém, a realidade fala por si. As bombas de combustível em Luanda encontram-se abarrotadas, revelando não apenas o impacto das tensões no Médio Oriente, mas também a nossa falta de prevenção e consciência colectiva. Continuamos a agir como se os conflitos internacionais fossem acontecimentos distantes, sem qualquer reflexo na nossa vida quotidiana, quando, na verdade, vivemos num mundo profundamente interligado. A situação agrava-se ainda mais pelo silêncio das autoridades, que pouco ou nada fizeram para educar, informar e tranquilizar a população antecipadamente. Em momentos de crise ou ameaça global, o papel da comunicação institucional é fundamental para evitar o pânico, o açambarcamento e a desordem social. O que estamos a viver neste primeiro dia laboral deve servir de lição de que os problemas globais já não escolhem fronteiras. O que acontece no Médio Oriente, na Europa ou na Ásia pode, em poucos dias, afectar directamente a vida de um cidadão em Luanda, Namibe ou Ondjiva. Artur Cussendala - Segunda, 25MAI 2026 https://mbondochape.blogspot.com/?m=1

A MORTE DE AGOSTINHO NETO: O QUE SABEMOS, O QUE FOI OCULTADO E O QUE CONTINUA POR ESCLARECER

Por Artur Graça Cussendala No dia 10 de Setembro de 1979, Angola perdeu António Agostinho Neto, primeiro Presidente da República Popular d...