quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O TEMPO PASSA… E, ÀS VEZES, NEM NOS DAMOS CONTA

Hoje deparei-me aqui, no Facebook, com a lista dos candidatos admitidos ao exame de acesso ao Concurso Público de Ingresso no Ministério da Educação, pelo município do Quissongo — a terra do barro vermelho que, há 60 “cacimbos”, me viu nascer. Percorri a lista de ponta a ponta, quase como quem procura um nome conhecido. Olhei para as habilitações literárias, mas foram sobretudo as idades que me fizeram parar e reflectir. A maioria está na casa dos 30 anos e há até um candidato com 41. Foi então que me dei conta de uma coisa curiosa: não reconheci absolutamente ninguém. E não poderia ser de outra forma. Quando saí do Quissongo (outrora comuna), no final da década de 70 do século passado, nenhum daqueles candidatos tinha nascido. São homens e mulheres de uma nova geração, que hoje trilham caminhos que, de alguma maneira, um dia também palmilhei. Aquela simples lista, que para muitos talvez não passe de um conjunto de nomes à espera de uma oportunidade de emprego, provocou em mim um estranho e bonito sentimento de satisfação e nostalgia ao mesmo tempo. Satisfação por ver uma nova geração a estudar, a procurar oportunidades e a construir o seu próprio futuro. Nostalgia porque, ao olhar para aquelas idades, percebi de forma muito concreta como o tempo passou. Aquelas crianças que nunca conheci, porque ainda não existiam quando parti, são hoje adultos, candidatos a professores e, quem sabe, futuros educadores de outras gerações. É assim que a vida passa diante dos nossos olhos. Primeiro somos nós a procurar o nosso lugar no mundo; depois, quase sem percebermos, passamos a assistir às novas gerações a ocuparem os lugares que um dia foram nossos. Quissongo viu-me nascer. Eu vi partir uma geração. Hoje, ao olhar para esta lista, percebi que uma outra geração já está a escrever a sua própria história. E talvez seja esta uma das formas mais silenciosas de perceber que o tempo, esse velho companheiro, nunca parou de caminhar. Artur Cussendala, Quarta 09SET 2026 Na imagem: a casa de telhas atrás dos estudantes, pertenceu ao grémio do milho de Angola colonial e dirigida à época pelo Senhor Gouveia, vulgo "kaungo".

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A REFORMA

“Fui exonerado e mandado para a reforma sem aviso prévio. Foi uma situação que me apanhou completamente de surpresa.” Sério? Olhando para trás, talvez o seu próprio documento de identidade já trouxesse, há muito, o indício de que esse momento chegaria. E chegou. Há qualquer coisa de irónico quando alguém se mostra surpreendido por envelhecer, como se o tempo fosse uma realidade que só se aplicasse aos outros. A verdade, porém, é simples e incontornável: todos envelhecemos, e todos, mais cedo ou mais tarde, teremos de passar o testemunho. Tenho um filho que trabalha no cerimonial de uma força castrense e que, pela natureza da sua função, acompanha diariamente situações delicadas. O que me relata sobre as consequências de determinadas reformas e exonerações compulsórias baseadas na idade é preocupante. Há pessoas que, ao perderem subitamente o cargo que exerceram durante décadas, entram numa espécie de vazio existencial. Algumas desenvolvem graves perturbações emocionais e, em certos casos, esse sofrimento acaba por ter consequências trágicas. É preciso, contudo, fazer uma distinção importante: o problema não é a reforma em si, mas a forma como a pessoa é preparada para ela. Para muitos, o trabalho deixou de ser apenas uma profissão. Tornou-se identidade, estatuto, reconhecimento social e, em alguns casos, quase uma dependência. Sobretudo quando se trata de cargos de prestígio, acompanhados de privilégios e regalias, abandonar o posto pode ser psicologicamente muito mais difícil do que parece para quem observa de fora. Por isso, chegar à idade da reforma sem qualquer preparação para essa nova etapa da vida é, de certa forma, viver desligado de uma realidade que sempre esteve diante de nós. A reforma não deveria ser encarada como uma sentença, muito menos como o fim da vida produtiva. É o fim de um ciclo profissional e o início de outro. Existe ainda uma questão que raramente queremos discutir com honestidade que é a passagem do bastão para as novas gerações. Quando nos agarramos indefinidamente aos lugares que ocupamos, consciente ou inconscientemente, também podemos estar a fechar portas para aqueles que vêm atrás de nós. Há jovens preparados, qualificados e cheios de vontade de trabalhar, mas que encontram estruturas envelhecidas e oportunidades cada vez mais escassas. Isso não significa que os mais velhos sejam inúteis ou devam ser simplesmente afastados. Pelo contrário. A experiência de quem sai deve servir para formar e orientar quem entra. O conhecimento acumulado ao longo de décadas não deveria desaparecer no momento em que chega a reforma; deveria ser transmitido às novas gerações. O verdadeiro desafio, portanto, não é apenas reformar pessoas. É criar processos de transição dignos, humanos e previsíveis, nos quais o trabalhador saiba com antecedência quando e como deixará o cargo, tenha tempo para se preparar emocional e financeiramente e possa transmitir a sua experiência a quem o substituirá. Precisamos aprender a sair de cena com a mesma dignidade com que um dia entrámos. Porque o problema não está em passar o bastão. O problema está em acreditar que fomos feitos para segurá-lo eternamente. A vida tem ciclos. O trabalho também. E uma sociedade saudável é aquela que sabe respeitar quem sai, preparar quem entra e garantir que nenhum dos dois se sinta descartado. Artur Cussendala - Terça, 08SET 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

SERÃO ELES?! ONDE ANDAM AS "BÓFIAS"?

Não acredito em coincidências, mas a sucessão de incêndios em autocarros de transportes públicos em Angola já é grande demais para ser tratada simplesmente como uma série de acidentes isolados. A cada nova notícia de um autocarro em chamas, aumentam as dúvidas e, com elas, a desconfiança dos cidadãos. É evidente que existem explicações técnicas que devem ser investigadas, a exemplo de falhas mecânicas, problemas eléctricos, falta de manutenção preventiva, combustível ou outros factores relacionados com o estado dos veículos. Mas, perante a repetição dos casos e a proximidade de períodos politicamente sensíveis, também é legítimo perguntar se existe alguma coisa para além do que está à vista. Não seria a primeira vez que, às vésperas de eleições, surgem acontecimentos que alimentam a insegurança e a desconfiança. Já vimos, em anos anteriores, incêndios ou destruição de armazéns de víveres e veículos privados por este país profundo. Isso não prova que os acontecimentos actuais tenham uma origem criminosa ou política, mas é precisamente por existir esse histórico que as autoridades deveriam investigar cada caso com o máximo de rigor e transparência. O problema é que, quando não há respostas oficiais convincentes, o espaço deixado pela investigação é rapidamente ocupado pela especulação. E, nesse ambiente, misturam-se factos, rumores, teorias e acusações sem provas. Quando a "bófia" falha em esclarecer, o cidadão começa a construir a sua própria versão dos acontecimentos, algumas vezes acertada, outras completamente equivocada. Por isso, mais do que apontar o dedo a supostos mandantes sem provas, é preciso exigir respostas para se saber por que razão tantos autocarros estão a incendiar-se? Há um padrão comum entre os casos? As viaturas estavam devidamente mantidas? As causas dos incêndios foram determinadas por perícias independentes? Existem indícios de sabotagem? Se forem apenas falhas técnicas, que se diga claramente. Se houver negligência, que os responsáveis sejam responsabilizados. E, se houver mão criminosa por detrás destes acontecimentos, que os mandantes e executores sejam identificados e levados à Justiça. Transportes públicos são um serviço essencial e, em período pré-eleitoral, qualquer fenómeno desta natureza pode ter consequências que vão muito além da perda de um autocarro. Pode afectar a mobilidade, aumentar o medo e alimentar a desconfiança nas instituições. Não devemos transformar suspeitas em certezas, mas também não devemos tratar como mera coincidência aquilo que merece uma investigação séria. O fogo pode destruir um autocarro em minutos; a falta de respostas pode incendiar a confiança de uma sociedade inteira. Artur Cussendala 18AGO 2026

domingo, 9 de agosto de 2026

A CULPA NÃO PODE MORRER SOLTEIRA

Um palco daquela dimensão não aparece por magia. Não foi montado num quintal, escondido dos olhos de todos, para depois ser levado de reboque até ao local do evento. A sua montagem exigiu tempo, meios e logística. E, durante esse processo, muita gente terá visto o que estava a acontecer. É precisamente por isso que, perante o que aconteceu no Uíge, não podemos discutir apenas o acto que desencadeou o tumulto. É preciso perguntar também, onde estavam as autoridades enquanto tudo era preparado? Que medidas preventivas foram tomadas? Quem avaliou os riscos? E por que razão se permitiu que uma situação potencialmente perigosa chegasse àquele ponto? Eu reprovo o acto de impedir o direito de ir e vir dos citadinos do Uíge e compreendo que as autoridades tenham de garantir a ordem pública. Mas uma coisa não pode servir para esconder a outra. Se havia informações de que o acto era ilícito e propenso a ocorrer tumultos, aglomerações ou outros incidentes, cabia às autoridades agir preventivamente para proteger os cidadãos. O mais preocupante é que, pelas imagens que nos chegaram, quem acabou por pagar a factura foram cidadãos inocentes. Vêem-se senhoras idosas aflitas, no meio do tumulto, algumas a serem pisoteadas e a tentar desesperadamente escapar. São imagens difíceis de digerir e que deveriam interpelar a consciência de todos nós. Por isso, considero legítimo exigir responsabilidades a todos os níveis. Se uma investigação confirmar negligência ou falhas graves na prevenção e gestão da situação, deverão ser responsabilizados os responsáveis pela segurança e pela administração local, incluindo o Governador do Uíge, o comandante provincial da PNA, o delegado do MININT e o administrador municipal, cada um dentro das suas competências e responsabilidades. Da mesma forma, os organizadores do evento devem responder perante a Justiça caso se confirme que violaram a lei ou ignoraram determinações das autoridades. Não se trata de proteger a UNITA, o MPLA ou qualquer outra força política. Trata-se de proteger o cidadão. A ordem pública não pode ser aplicada selectivamente, nem podemos aceitar que as autoridades permaneçam inertes perante uma situação previsivelmente perigosa para depois aparecerem apenas quando o conflito já começou. Precisamos de uma sociedade normalizada, em que a prevenção seja mais importante do que a punição posterior. O Estado deve ser capaz de antecipar os riscos, dialogar com os organizadores, estabelecer condições de segurança e impedir que uma disputa política termine com cidadãos inocentes a correr pela vida. E há uma lição que não podemos ignorar, não basta descobrir quem provocou o incêndio; também é preciso saber quem viu o fumo, tinha obrigação de agir e não agiu. As imagens do Uíge exigem mais do que indignação nas redes sociais. Exigem uma investigação séria, independente e transparente, capaz de determinar responsabilidades políticas, administrativas e criminais, se existirem. Porque, no fim, repito 'a culpa não pode morrer solteira'. @destacar

domingo, 31 de maio de 2026

A ÉBOLA...

Há cerca de dez anos, escrevi algo semelhante e retorno ao tema porque sinto profundamente que há uma força invisível por trás de certos fenômenos. As explicações científicas mais aceites indicam que o Ébola e o Marburg são doenças zoonóticas, ou seja, vírus que passam de animais silvestres para seres humanos, especialmente através do contacto com morcegos frugívoros e outros animais infectados. No entanto, esta explicação levanta algumas questões que merecem reflexão. Os povos africanos convivem há milhares de anos com a fauna e a flora do continente. A caça, o consumo de carne de animais selvagens e o contacto com ecossistemas naturais sempre fizeram parte da realidade de muitas comunidades. Se essa convivência existe desde tempos imemoriais, por que razão surtos tão devastadores parecem ganhar maior destaque apenas nas últimas décadas? Com os avanços da biotecnologia e da engenharia genética, tornou-se tecnicamente possível manipular microrganismos em laboratório. Isso leva alguns observadores a questionarem se determinadas epidemias poderiam ter sido agravadas, modificadas ou mesmo exploradas por interesses geopolíticos, económicos ou militares. A recorrência de surtos em regiões marcadas por pobreza, conflitos armados, instituições frágeis e reduzida capacidade de investigação científica alimenta suspeitas entre muitos africanos. Países como a República Democrática do Congo e, anteriormente, Angola durante a guerra civil, reuniam condições que dificultavam a verificação independente das origens e dos mecanismos de propagação dessas doenças. Não se trata de afirmar categoricamente que o Ébola ou o Marburg sejam armas biológicas, mas de defender que todas as hipóteses relevantes devem ser investigadas com transparência, rigor científico e supervisão internacional. A história demonstra que programas secretos de investigação biológica já existiram em várias partes do mundo, razão pela qual o debate sobre biossegurança e a origem de determinadas epidemias não deve ser considerado ilegítimo ou encerrado prematuramente. Num continente que tantas vezes serviu de palco para disputas geopolíticas externas, é compreensível que surjam dúvidas e desconfianças. Por isso, mais do que aceitar explicações prontas, os africanos devem exigir investigação independente, acesso à informação e total transparência sobre a origem e a evolução dessas doenças. Artur Cussendala DOMINGO, 31MAI 2026 https://wwe.facebook.com/cussendala

segunda-feira, 25 de maio de 2026

TRUMP A INTERFERIR NO QUOTIDIANO DOS LUANDENSES

Nós, angolanos, muitas vezes distraímo-nos facilmente ou alimentamos a convicção de que os problemas do mundo nunca nos irão afectar diretamente. Há cerca de um mês, a Bloomberg alertou para uma possível escassez mundial de combustíveis derivados do petróleo. Na altura, partilhei essa informação no meu perfil e no grupo de Facebook que administro. Alguns provavelmente leram, mas poucos levaram o alerta a sério. Hoje, porém, a realidade fala por si. As bombas de combustível em Luanda encontram-se abarrotadas, revelando não apenas o impacto das tensões no Médio Oriente, mas também a nossa falta de prevenção e consciência colectiva. Continuamos a agir como se os conflitos internacionais fossem acontecimentos distantes, sem qualquer reflexo na nossa vida quotidiana, quando, na verdade, vivemos num mundo profundamente interligado. A situação agrava-se ainda mais pelo silêncio das autoridades, que pouco ou nada fizeram para educar, informar e tranquilizar a população antecipadamente. Em momentos de crise ou ameaça global, o papel da comunicação institucional é fundamental para evitar o pânico, o açambarcamento e a desordem social. O que estamos a viver neste primeiro dia laboral deve servir de lição de que os problemas globais já não escolhem fronteiras. O que acontece no Médio Oriente, na Europa ou na Ásia pode, em poucos dias, afectar directamente a vida de um cidadão em Luanda, Namibe ou Ondjiva. Artur Cussendala - Segunda, 25MAI 2026 https://mbondochape.blogspot.com/?m=1

sábado, 23 de maio de 2026

TESTE DE SOFÁ

 


EU TAMBÉM SOU HOMEM E ESTOU COM O DIKOTA.

Antes de se condenar alguém na praça pública, é preciso separar moralismo, inveja e justiça. Pelos vídeos colocados a circular por pessoas de má-fé nas redes sociais, vêem-se mulheres adultas, sem sinais visíveis de coação ou violência, e até ao momento não existe qualquer denúncia formal de estupro ou abuso sexual.

O verdadeiro problema aqui parece ser a divulgação ilegal de conteúdos íntimos, expondo a privacidade de pessoas adultas. Transformar isso num tribunal popular apenas revela hipocrisia social e sede de escândalo.
Quanto ao local dos encontros, ainda que se trate de um gabinete ou de um espaço ligado a uma instituição, isso pode configurar, no máximo, uma infração administrativa ou ética interna, e não necessariamente um crime. E se for um espaço privado do visado, então entra-se no domínio da vida pessoal, onde cada adulto responde pelos seus actos e escolhas.

Vivemos numa sociedade onde muitos fingem santidade em público, mas fazem o contrário em privado. É preciso parar com o julgamento selectivo e com a cultura de humilhação pública. Respeitem o senhor e respeitem igualmente as mulheres envolvidas. Nem tudo o que choca os moralistas constitui crime.
Os hábitos e excessos das elites podem não agradar a todos, mas cada um deve analisar os factos com equilíbrio e maturidade, evitando condenações baseadas apenas em emoções, inveja ou preconceito.

Artur Cussendala - SÁBADO 23MAI 2026
https://mbondochape.blogspot.com/

O TEMPO PASSA… E, ÀS VEZES, NEM NOS DAMOS CONTA

Hoje deparei-me aqui, no Facebook, com a lista dos candidatos admitidos ao exame de acesso ao Concurso Público de Ingresso no Ministério da ...