Por Artur Cussendala SEXTA, 07FEV2026
A decisão da filha do fundador da UNITA de avançar para a criação de um novo partido político, rompendo com a liderança de Adalberto Costa Júnior, não pode ser analisada como um facto isolado nem como simples “diversão política”. Trata-se de mais um episódio num longo histórico de fracturas internas que têm marcado a UNITA desde o desaparecimento físico de Jonas Savimbi.
Desde 2002, o partido nunca conseguiu resolver de forma definitiva a tensão entre legado histórico, liderança efectiva e adaptação ao novo contexto político angolano. As sucessivas disputas internas, ora ideológicas, ora personalistas, têm produzido cisões que, em vez de fortalecerem a oposição, a fragmentam e a tornam politicamente previsível e eleitoralmente frágil.
Invocar a “mudança” como justificação para mais uma divisão soa contraditório. A experiência política angolana demonstra que a fragmentação da UNITA não cria alternativas reais ao poder dominante mas sim micro-partidos sem implantação nacional, dependentes de figuras simbólicas e incapazes de disputar o poder de forma séria. Dividir não é reformar; dividir, neste contexto, é enfraquecer.
A ideia de que poderão emergir dois grandes pilares simbólicos, um em torno do nome Savimbi e outro associado aos ideias de Mungai, ignora uma realidade elementar, já que o capital político da UNITA não é hereditário. Não se transmite por laços de sangue nem por apelos emocionais à memória do fundador. Constrói-se com unidade, organização, disciplina interna e ligação real às aspirações populares. Sem isso, o legado transforma-se apenas num instrumento retórico.
Enquanto a oposição se ocupa em disputas internas e projectos paralelos, quem observa tudo com tranquilidade estratégica é o MPLA. Não por virtude própria, mas porque quase todos os partidos recém-criados vão buscar os seus quadros, militantes e eleitorado à UNITA. O efeito prático é a erosão contínua da única força política com capacidade histórica e estrutural para disputar o poder central.
Este padrão repete-se há anos com cisões justificadas em nome da renovação acabam por produzir partidos sem expressão eleitoral, líderes sem base social e uma oposição cada vez mais dispersa. O resultado é uma falsa pluralidade que apenas legitima a manutenção do statu quo.
Angola não carece de mais siglas políticas; carece de uma oposição forte, coesa e estrategicamente madura. Enquanto a UNITA continuar a dividir-se em pequenos projectos personalistas, a chamada “mudança” permanecerá um slogan vazio e o poder continuará exactamente onde sempre esteve.






