Depois de ler milhares de páginas, relatórios, depoimentos e investigações ligadas ao caso Jeffrey Epstein, torna-se impossível continuar a fingir inocência ou surpresa. O que este escândalo expõe não é um “caso isolado”, mas o funcionamento real do poder no mundo ocidental.
Por: Artur Cussandala
Epstein não era um excêntrico rico que se desviou do caminho. Era uma peça funcional de um sistema, frequentado por presidentes, primeiros-ministros, membros da realeza, chefes de serviços secretos, magnatas financeiros e figuras centrais da academia e dos media. O que está documentado é suficiente para concluir que crimes gravíssimos, incluindo a exploração sexual de menores, foram cometidos com conhecimento e cobertura de sectores do Estado.
O mais chocante não é apenas o crime, é o encobrimento organizado. A justiça foi selectiva, as investigações travadas, os processos abafados, as provas desapareceram e os nomes mais poderosos foram cuidadosamente protegidos. Num sistema que se diz democrático e defensor dos direitos humanos, ninguém relevante foi condenado. Isto não é falha: é método.
Fica claro que existe uma elite política e financeira que opera acima da lei, protegida por redes de chantagem, favores cruzados e cumplicidade mútua. Quem entra nesses círculos aceita regras não escritas e aceita silêncio, obediência e lealdade ao sistema. A moral pública é apenas um discurso para consumo das massas.
Não é preciso provar rituais macabros para entender a profundidade da podridão. O simples facto de uma rede de abuso de crianças ter funcionado durante décadas, envolvendo gente do topo do poder mundial, sem consequências reais, já demonstra que o sistema está moralmente falido. Quando a justiça só cai sobre os fracos, deixa de ser justiça e passa a ser instrumento de dominação.
O caso Epstein é um aviso claro para o resto do mundo, incluindo África: o Ocidente não é o árbitro moral que finge ser. Por detrás do discurso civilizacional, dos direitos humanos e da democracia exemplar, existe um poder cínico, violento e hipócrita, disposto a tudo para se manter intacto.
Quem ainda acredita que estas elites governam com base em valores, e não em interesses, chantagem e impunidade, ou não leu os documentos — ou prefere continuar a dormir tranquilo.






