sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O MISTÉRIO DO SALDO QUE EVAPORA: QUEM ESTÁ A ASSALTAR O BOLSO DOS ANGOLANOS?

Vamos lá ver se consigo explicar o que se passa com o nosso saldo de voz e de dados, que, em determinadas circunstâncias, parece evaporar-se sem deixar rasto. Em Angola, a Unidade de Taxação de Telecomunicações (UTT) é uma referência utilizada na tarifação dos serviços de telecomunicações. O seu equivalente monetário, quando fixado em 10 kwanzas, permite-nos perceber facilmente a dimensão do problema: 100 UTT correspondem a 1.000 kwanzas. Mas há uma questão que merece esclarecimento: se o preço nominal dos serviços não sofre alterações proporcionais ao aumento dos custos operacionais, como conseguem as operadoras manter a actividade sem comprometer a sua sustentabilidade financeira? A inflação encarece a energia, os combustíveis, os equipamentos, a manutenção das redes e os restantes custos operacionais. As telecomunicações não estão imunes a esta realidade. Mais cedo ou mais tarde, esses custos acabam por pressionar os preços cobrados ao consumidor. O problema começa quando os ajustamentos tarifários não são feitos de forma transparente. Se, por razões económicas ou políticas, o aumento explícito dos preços for adiado, importa perguntar se existem alterações nas regras de consumo, nos pacotes comerciais ou nos critérios de desconto que acabam por produzir um efeito semelhante no bolso do cliente. Imaginemos um exemplo simples: antes, um minuto de conversação custava 3 UTT; depois, passa a custar 6 UTT. Se o valor monetário da UTT permanecer inalterado, o cliente passa a consumir o dobro do saldo para obter exactamente o mesmo minuto de conversação. Os seus 1.000 kwanzas continuam a ser 1.000 kwanzas, mas compram menos tempo de comunicação. É aqui que reside a questão fundamental**, já que o consumidor está a pagar mais porque a tarifa foi oficialmente aumentada ou porque as condições de consumo foram alteradas?** E, se foram alteradas, onde está a informação clara, acessível e atempada sobre essas mudanças? Não seria correcto afirmar, sem documentação que o comprove, que o Governo está a obrigar as operadoras a suportar prejuízos ou que estas estão a aumentar informalmente o valor da UTT. Mas é legítimo exigir que o regulador esclareça publicamente os critérios de tarifação, os preços efectivamente praticados e a forma como os descontos de saldo são calculados. Pessoalmente, não ignoro as dificuldades económicas enfrentadas pelas operadoras. Empresas como a ZAP, a DStv e a TV CABO também têm revisto os preços dos seus serviços, demonstrando que o sector das telecomunicações e da distribuição de conteúdos enfrenta pressões de custos. Contudo, isso não significa que todas as empresas estejam sujeitas às mesmas regras, nem que os respectivos serviços sejam directamente comparáveis. É precisamente por isso que questiono o papel do INACOM: se há margem regulamentar para rever os preços de determinados serviços, por que razão não se esclarecem, com a mesma transparência, os critérios aplicáveis à AFRICELL, à UNITEL e à MOVICEL? Existem diferenças legais, técnicas ou comerciais que justifiquem tratamentos distintos? E que protecção tem o consumidor perante alterações que reduzem o seu poder de compra? No caso da UNITEL, por exemplo, o aumento das tarifas de Internet não resolve, por si só, outra questão igualmente importante, é que a qualidade e a quantidade do serviço efectivamente entregue. O cliente quer saber não apenas quanto paga, mas também se recebe a velocidade, o volume de dados e a estabilidade de ligação anunciados. Um serviço caro e de qualidade insatisfatória é uma dupla penalização para quem o financia com o seu próprio rendimento. No fim de contas, não se trata de exigir que as operadoras trabalhem com prejuízo, nem de defender aumentos arbitrários das tarifas. Trata-se de exigir transparência na formação dos preços, coerência na regulação e respeito pelos direitos dos consumidores. Se os custos aumentam, que se expliquem os motivos e os ajustamentos necessários. Se as tarifas mudam, que o cliente seja informado. Se o saldo passa a durar menos, que se demonstre porquê. E, se a qualidade prometida não é entregue, que existam mecanismos eficazes de reclamação e responsabilização. Porque o cidadão angolano já enfrenta uma inflação que corrói o seu rendimento. Não precisa de ter também de decifrar um enigma sempre que consulta o saldo do telefone. O saldo não pode ser um mistério, a tarifa não pode ser uma surpresa e a transparência não pode ser um favor das operadoras nem do regulador. É um direito do consumidor.

O MUNDO MANIFESTA-SE, MAS ONDE ESTÃO OS ESTUDANTES ANGOLANOS?

Enquanto a atenção da comunicação social internacional se concentra nas manifestações estudantis que, em diferentes partes do mundo, levam milhares de jovens às ruas para reivindicar direitos, exigir reformas e contestar decisões que comprometem o seu futuro, Angola parece assistir a este fenómeno à distância, envolvida num silêncio que merece uma reflexão séria. Por: Artur Cussendala, 16OUT 2026 Este é um daqueles momentos em que a mobilização estudantil internacional pode servir de inspiração e demonstrar que a juventude, quando consciente dos seus direitos e organizada em torno de causas comuns, pode tornar-se uma força incontornável de transformação social. As oportunidades históricas nem sempre se repetem com a mesma intensidade. Por isso, importa perguntar, onde estão os estudantes angolanos perante os desafios que afectam o seu presente e ameaçam o seu futuro? Estarão satisfeitos com as condições de ensino, as dificuldades de acesso às universidades, a insuficiência de bolsas de estudo, os problemas de transporte, a precariedade das infra-estruturas escolares e as incertezas quanto à sua inserção no mercado de trabalho? Ou estaremos perante uma juventude condicionada pelo medo, pela descrença na eficácia dos protestos, pela falta de organização e pela ausência de lideranças estudantis verdadeiramente comprometidas com os interesses da classe? Não seria justo generalizar nem ignorar os jovens que, em Angola, se mobilizam e intervêm publicamente. Existem estudantes que levantam a voz e assumem riscos em defesa dos seus direitos. Contudo, a questão permanece e resta saber o apor que razão essa energia não se traduz numa mobilização estudantil mais ampla, consistente e capaz de colocar os problemas da classe na agenda nacional? Talvez uma parte da resposta resida na fragilidade das estruturas de representação estudantil, na excessiva proximidade de algumas lideranças ao poder político, no receio de represálias ou, simplesmente, na convicção de que protestar pouco adianta quando as decisões parecem tomadas à margem daqueles que mais directamente serão afectados por elas. Entretanto, não podemos continuar a invocar, de forma quase automática, o carácter «heróico e generoso» do povo angolano como se a resistência às adversidades fosse, por si só, uma solução. A capacidade de suportar dificuldades é uma virtude quando acompanhada de coragem para as enfrentar; quando se transforma em resignação, corre o risco de perpetuar os mesmos problemas que deveria ajudar a superar. A universidade não deve ser apenas um espaço de formação académica. Deve também ser um lugar de pensamento crítico, consciência cívica, debate livre e participação na vida nacional. Um estudante que aprende a interpretar o mundo, mas se sente incapaz de questionar a realidade que o rodeia, vê limitada uma dimensão fundamental da sua própria formação. Naturalmente, não se trata de importar mecanicamente os métodos de protesto de outros países, nem de transformar os estudantes em instrumentos de disputas partidárias. Trata-se de reconhecer que reivindicar melhores condições de ensino, defender a liberdade académica e exigir respostas às preocupações da juventude são direitos legítimos, que podem ser exercidos de forma pacífica, responsável e organizada. O silêncio dos estudantes angolanos não prova que tudo esteja bem, tal como a ausência de manifestações não significa necessariamente ausência de descontentamento. Mas, se os problemas existem e são sentidos diariamente, é legítimo questionar o que impede a sua transformação em reivindicações colectivas consequentes. Num momento em que jovens de diferentes geografias demonstram que a participação cívica continua a ser uma ferramenta de pressão e mudança, Angola precisa de reflectir sobre o papel da sua juventude universitária. Não para que os estudantes saiam às ruas por imitação, mas para que compreendam que nenhum futuro colectivo se constrói plenamente sem participação, organização e capacidade de reivindicação. A pergunta, portanto, não é apenas por que razão os estudantes angolanos não se manifestam. É também esta: quem os representa, quem lhes dá voz e que condições lhes são oferecidas para exercerem, sem medo, o direito de exigir um futuro melhor?

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O MISTÉRIO DOS VEÍCULOS INCÊNDIOS DOS EM ANGOLA

Por Artur Cussendala, 15OUT 2026 Carros que, num abrir e fechar de olhos, são consumidos pelas chamas; motorizadas que ardem como lenha seca; autocarros de transporte público que acabam reduzidos a carcaças fumegantes. O que estará por detrás desta sucessão de incêndios que tem vindo a preocupar os angolanos? À primeira vista, poderíamos estar perante uma sequência de incidentes isolados. Contudo, quando os casos se multiplicam e atingem veículos de diferentes categorias, movidos a gasolina ou a gasóleo, torna-se legítimo exigir explicações. A questão ganha ainda maior relevância num contexto em que Angola se aproxima de mais um ciclo eleitoral, circunstância que alimenta suspeitas e interrogações na opinião pública. Estaremos perante simples coincidências ou haverá algo mais que merece ser investigado? Sem provas, seria irresponsável apontar o dedo à sabotagem ou alimentar teorias da conspiração. Mas também seria imprudente tratar cada ocorrência como um episódio banal, ignorando a necessidade de apurar as suas causas. Entre as hipóteses a considerar estão as falhas mecânicas e eléctricas, deficiências de manutenção, problemas nos sistemas de alimentação de combustível, eventuais defeitos de fabrico e a possível comercialização de combustíveis adulterados. A hipótese de actos deliberados também não deve ser descartada à partida, mas só uma investigação séria poderá confirmar ou afastar essa possibilidade. Importa, entretanto, esclarecer um aspecto: embora o gasóleo seja menos volátil do que a gasolina, isso não torna os veículos a diesel imunes a incêndios. Fugas de combustível, temperaturas elevadas, avarias eléctricas e outras falhas podem criar condições para a ocorrência de incêndios. Por isso, o tipo de combustível, por si só, não explica nem exclui as causas possíveis. O que não parece aceitável é que veículos destinados ao transporte de passageiros se transformem em armadilhas de fogo sem que a população receba informações claras sobre as causas dos incidentes. Sejam viaturas de empresas privadas ou de operadoras estatais, está em causa a segurança dos passageiros, a protecção dos bens e a confiança nos serviços de transporte público. A pergunta que se impõe é simples: quem está a investigar estes incêndios e que conclusões já foram alcançadas? As autoridades competentes devem esclarecer os factos, divulgar os resultados das perícias e apurar eventuais responsabilidades. A transparência é fundamental para evitar que a ausência de informação abra espaço a rumores, suspeitas e especulações, sobretudo num período politicamente sensível. Em Angola, a população não precisa de mais teorias; precisa de respostas. Porque, quando o fogo se torna recorrente e as explicações escasseiam, o silêncio deixa de tranquilizar e passa a alimentar a desconfiança. Não se trata de acusar sem provas, mas de exigir respostas antes que o próximo incêndio transforme mais um veículo numa carcaça e mais uma dúvida numa suspeita colectiva.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

AGOSTINHO NETO, O HOMEM QUE FEZ DA ESPERANÇA UM DESTINO

Hoje, 17 de Setembro, Angola pára para lembrar um dos seus filhos mais ilustres, o Dr. António Agostinho Neto, médico, poeta, nacionalista, dirigente político e primeiro Presidente da República de Angola. Não é apenas uma data no calendário. É uma oportunidade para revisitar a história e perguntar o que seria Angola sem homens que, num determinado momento, tiveram a coragem de sonhar com uma pátria livre? Neto nasceu a 17 de Setembro de 1922, em Kaxicane, Icolo e Bengo. Estudou Medicina, em Lisboa, mas não se limitou a cuidar do corpo humano. A sua vida acabou por ser também uma tentativa de curar as feridas de uma sociedade submetida ao colonialismo. A sua actividade política levou-o à prisão e ao exílio, experiências que não o afastaram da causa nacionalista. Foi médico, mas também tratou da doença chamada colonialismo. Foi poeta, mas escreveu com a tinta da esperança. Foi político, mas entrou para a História sobretudo como homem que proclamou uma Nação. E é aqui que encontramos o seu maior feito. Na noite de 11 de Novembro de 1975, perante uma Angola mergulhada num dos momentos mais dramáticos da sua história, Agostinho Neto proclamou a Independência Nacional. Naquele instante, deixava de existir juridicamente a Angola colonial e nascia a Angola independente. Não foi um acto simples. A independência surgiu num contexto de guerra, confrontação política e forte internacionalização do conflito. Ainda assim, Neto assumiu a responsabilidade histórica de anunciar ao mundo que Angola era uma Nação soberana. É impossível compreender a importância de Agostinho Neto sem olhar também para o Poeta Maior. A sua poesia não nasceu do conforto. Muitas das suas palavras foram escritas em circunstâncias de prisão, perseguição e exílio. Em obras como “Sagrada Esperança”, a poesia transforma-se em memória, denúncia, identidade e esperança. Neto escreveu sobre a terra, sobre o povo, sobre a mãe, sobre a dor e sobre a liberdade. E talvez seja essa uma das maiores forças da sua obra já que ele não escreveu apenas sobre Angola; escreveu a partir da própria condição angolana. Como primeiro Presidente, coube-lhe ainda a difícil tarefa de dirigir os primeiros anos de uma República que acabava de nascer, num período marcado pela guerra e por enormes desafios internos e externos. A sua dimensão histórica ultrapassou, aliás, as fronteiras de Angola. A sua visão política estava ligada também à luta contra o colonialismo e contra o apartheid na África Austral, bem como ao apoio às causas de libertação da região. Mas homenagear Agostinho Neto não significa transformar a História numa fotografia sem sombras. Neto pertence à História, e a História deve ser estudada na sua totalidade e com os seus feitos, as suas escolhas, os seus acertos, os seus erros e as circunstâncias do seu tempo. Nenhum homem de Estado deve ser colocado acima da História. Mas também não devemos permitir que as controvérsias do presente apaguem os feitos de quem ajudou a construir o caminho que nos trouxe até à Angola independente. Hoje, quando muitos de nós já nascidos depois da independência, talvez seja difícil imaginar o significado que teve, para uma geração inteira, ouvir a palavra liberdade pronunciada em nome de uma Nação que acabava de nascer. Para quem viveu aquele momento, não foi apenas política. Foi o nascimento de um país. E é por isso que, 47 anos depois da sua morte, Agostinho Neto continua presente na memória colectiva dos angolanos. Morreu em Moscovo, a 10 de Setembro de 1979, poucos dias antes de completar 57 anos. Mas a morte encerrou a vida do homem; não encerrou o debate sobre o seu legado. Hoje, 17 de Setembro, quando Angola celebra o Dia do Fundador da Nação e do Herói Nacional, mais do que repetir frases feitas, devemos lembrar o essencial: Neto ajudou a transformar o sonho de uma Angola livre numa realidade política. E talvez seja essa a melhor forma de o homenagear e não apenas colocando flores diante dos seus monumentos, mas estudando a sua obra, conhecendo a sua história, lendo a sua poesia e perguntando-nos, enquanto angolanos, que país estamos a construir com a independência que ele e tantos outros ajudaram a conquistar. Agostinho Neto pertence à História de Angola. E a História não se apaga. Viva Angola. Honra à memória dos que lutaram pela Independência Nacional. Honra ao Fundador da Nação e Herói Nacional, Dr. António Agostinho Neto. Artur Cussendala Quinta, 17SET 2026 https://mbondochape.blogspot.com/?m=1

terça-feira, 15 de setembro de 2026

A MORTE DE AGOSTINHO NETO: O QUE SABEMOS, O QUE FOI OCULTADO E O QUE CONTINUA POR ESCLARECER

Por Artur Graça Cussendala No dia 10 de Setembro de 1979, Angola perdeu António Agostinho Neto, primeiro Presidente da República Popular de Angola, médico, poeta, dirigente histórico do MPLA e uma das figuras políticas africanas mais importantes do século XX. Neto morreu em Moscovo, na União Soviética, aos 56 anos, exactamente uma semana antes de completar 57 anos. Durante décadas, a versão mais repetida em Angola foi simples: Agostinho Neto morreu em consequência de complicações de uma operação realizada em Moscovo para tratar um cancro. Mas o assunto merece uma análise mais cuidadosa. De que doença sofria realmente Neto? Que operação foi realizada? O que encontraram os médicos soviéticos? Qual foi exactamente a causa da morte? Houve autópsia? E, sobretudo, existe alguma evidência séria de que tenha sido assassinado? Estas perguntas não são novas. Algumas surgiram imediatamente depois da sua morte. Outras nasceram posteriormente, alimentadas pelo carácter inesperado do falecimento de um chefe de Estado relativamente jovem, pela importância política de Neto e pelo ambiente extremamente tenso em que Angola se encontrava em 1979. 1. O que aconteceu em Moscovo? Uma das fontes mais importantes para reconstruir os últimos dias de Neto é a imprensa internacional publicada imediatamente depois da sua morte. O Washington Post, na edição de 12 de Setembro de 1979, informou que Neto tinha sido submetido, em 8 de Setembro, a uma operação preliminar destinada a desobstruir o canal biliar. Segundo a mesma notícia, durante o procedimento os médicos descobriram que Neto sofria de um cancro inoperável do pâncreas. A informação era atribuída a um relatório assinado por dois especialistas da Academia Soviética de Ciências Médicas. A mesma fonte afirma que, depois da intervenção, surgiram complicações e Neto morreu dois dias depois, em 10 de Setembro. Este detalhe é fundamental. A ideia de que Neto simplesmente "morreu durante uma operação" é demasiado simplificada. O que a documentação contemporânea indica é que: Neto já estava gravemente doente quando chegou a Moscovo; foi submetido a uma intervenção; durante a intervenção foi constatada a existência de um tumor pancreático considerado inoperável; e posteriormente surgiram complicações graves que conduziram à sua morte. 2. Afinal, era cancro do fígado ou do pâncreas? Aqui encontramos uma das maiores confusões na memória histórica sobre a morte de Neto. Durante anos, algumas biografias e textos em língua portuguesa referiram simplesmente que Neto morreu durante uma operação a um cancro do fígado. Mas as fontes contemporâneas são mais específicas. A revista TIME, em 24 de Setembro de 1979, escreveu que Neto morreu depois de uma cirurgia relacionada com cancro do pâncreas e cirrose do fígado. Mais importante ainda é a reprodução do relatório médico soviético publicada na imprensa portuguesa da época. Segundo esse relatório, Neto sofria há algum tempo de hepatite crónica, que evoluíra para cirrose hepática. Essa doença teria provocado alterações no canal biliar, icterícia e agravamento da função renal. Durante a operação, os médicos encontraram um tumor maligno no pâncreas, responsável pela obstrução das vias biliares. O relatório indicava ainda que os médicos conseguiram restabelecer a drenagem da bílis, mas que as funções hepática e renal estavam já gravemente comprometidas. Seguiu-se uma intoxicação progressiva que afectou o sistema nervoso central, o coração e os vasos sanguíneos. Portanto, uma formulação historicamente mais rigorosa seria: «Agostinho Neto sofria de uma doença hepática crónica grave, com cirrose e complicações das vias biliares, associada a um tumor maligno do pâncreas. A intervenção cirúrgica revelou que o tumor era inoperável e, após a operação, ocorreram complicações sistémicas que conduziram à sua morte.» 3. E a alegada leucemia? Há outro elemento curioso. A notícia do Washington Post de 12 de Setembro de 1979 dizia que Neto era conhecido por sofrer de leucemia havia vários anos. Isso não aparece com a mesma clareza no relatório médico posteriormente reproduzido pela imprensa portuguesa. Ou seja, existem versões médicas diferentes ou, pelo menos, informações médicas incompletas circulando nas primeiras notícias sobre a doença de Neto. Isso não significa necessariamente contradição. É perfeitamente possível que existissem doenças ou diagnósticos anteriores que não fossem a causa imediata da morte. Mas o facto merece ser registado, sobretudo porque estamos a falar de um chefe de Estado e médico, cuja verdadeira condição clínica aparentemente não era conhecida pelo público. 4. A doença de Neto já era conhecida? Sim. Outro ponto importante é que a doença de Neto não apareceu repentinamente em Setembro de 1979. Uma publicação académica sobre a política angolana refere que, desde 1978, já havia conhecimento de que Neto se submetia a tratamento relacionado com uma doença cancerígena. A imprensa portuguesa da época também registava rumores sobre a deterioração do seu estado de saúde. Uma compilação de jornais portugueses de Setembro de 1979 mostra que, imediatamente após a notícia da morte, alguns jornais recordavam que já circulavam há algum tempo informações sobre a doença do Presidente angolano. Portanto, não é correcto afirmar que Neto era um homem perfeitamente saudável que entrou num hospital soviético e morreu inesperadamente depois de uma operação. O seu estado de saúde já era motivo de preocupação antes da viagem final a Moscovo. 5. Por que razão a morte provocou tantas suspeitas? Aqui entramos numa zona em que é preciso separar cuidadosamente história de especulação. Agostinho Neto morreu num momento político extremamente delicado. Angola estava apenas a quatro anos da independência. O país encontrava-se mergulhado numa guerra civil e numa confrontação internacional envolvendo: - MPLA; - UNITA; - FNLA; - Cuba; - União Soviética; - África do Sul; - Estados Unidos; - e vários interesses estratégicos ligados à Guerra Fria. Além disso, o próprio MPLA tinha atravessado, em 27 de Maio de 1977, uma das crises internas mais violentas da sua história. A morte de Neto, portanto, não aconteceu num ambiente político normal. A revista TIME, poucas semanas depois da morte, intitulou a sua análise "Neto's Death: Start of a Power Struggle" — "A morte de Neto: início de uma luta pelo poder". A publicação destacava precisamente as profundas divisões internas do MPLA e os problemas de sucessão que a morte do Presidente poderia provocar. O Washington Post também escreveu que a morte provavelmente reabriria a disputa pelo poder que periodicamente afectava Angola desde a independência. Isso é importante porque explica por que razão a morte de Neto rapidamente adquiriu uma dimensão política. 6. Quem beneficiou politicamente da morte de Neto? Esta é uma pergunta legítima, mas a resposta exige cautela. Na altura da sua morte, Neto tinha deixado José Eduardo dos Santos encarregado do Governo durante a sua ausência, enquanto Lúcio Lara assumia responsabilidades na direcção do MPLA. A imprensa internacional identificava precisamente estes dois homens como figuras importantes na sucessão. O Washington Post escreveu que José Eduardo dos Santos, então ministro do Planeamento, tinha sido designado para dirigir o Governo durante a ausência de Neto, enquanto Lúcio Lara, figura histórica do MPLA, assumia funções partidárias. Posteriormente, José Eduardo dos Santos tornou-se Presidente da República em 20 de Setembro de 1979. Mas aqui precisamos estabelecer uma fronteira: o facto de alguém beneficiar politicamente da morte de uma figura não constitui prova de que tenha provocado essa morte. Essa distinção é essencial. Se aplicássemos o contrário, qualquer sucessão política após uma morte poderia ser transformada automaticamente numa teoria de assassinato. Não há, nas fontes que consegui localizar, documentação credível que demonstre que José Eduardo dos Santos, Lúcio Lara ou qualquer outro dirigente do MPLA tenha ordenado ou participado na morte de Neto. 7. E a hipótese de envenenamento? Também aparecem, ao longo dos anos, versões segundo as quais Neto teria sido envenenado. O problema é que não encontrei uma fonte primária ou investigação independente credível que demonstre isso. Não encontrei, na documentação consultada, um relatório toxicológico, uma autópsia publicada ou um testemunho médico verificável que sustente a hipótese de envenenamento. Por isso, seria irresponsável transformar essa possibilidade em afirmação. Podemos dizer: Há rumores de envenenamento. Não encontrei prova documental que os confirme. Essa é a posição historicamente mais honesta. 8. E uma eventual conspiração soviética? Também aqui é necessário resistir à tentação de transformar o contexto político em prova. A União Soviética era o principal aliado internacional do MPLA e Angola encontrava-se profundamente ligada ao bloco socialista. Neto morreu precisamente em Moscovo, numa altura em que a União Soviética tinha enorme influência política, militar e económica em Angola. Mas isso não significa que os soviéticos tivessem interesse em matar Neto. Aliás, a documentação contemporânea disponível apresenta a medicina soviética como tendo tentado tratar o Presidente angolano e atribui a morte às complicações provocadas pela doença grave. O relatório médico citado pela imprensa foi atribuído a especialistas soviéticos de elevado nível, entre eles Evgueni Chazov, uma das figuras mais importantes da medicina soviética. Para sustentar uma acusação de assassinato seria necessário algo muito mais forte do que o simples facto de Neto ter morrido em Moscovo. 9. Uma questão que permanece: onde está o processo clínico completo? Esta talvez seja uma das perguntas mais interessantes para investigadores angolanos. Temos referências ao relatório médico soviético, reproduzidas por jornais da época. Mas uma coisa é conhecer aquilo que foi divulgado publicamente. Outra é ter acesso ao processo clínico integral. Seria extremamente importante saber se ainda existem: - ficha de entrada no hospital; - exames laboratoriais; - exames radiológicos; - diagnóstico pré-operatório; - relatório cirúrgico completo; - relatório anatomopatológico; - relatório de evolução pós-operatória; - certificado médico de óbito; - eventual relatório de autópsia; - identificação completa da equipa médica; - e correspondência entre as autoridades angolanas e soviéticas. A existência ou inexistência desses documentos poderia ajudar a encerrar definitivamente várias dúvidas. 10. A morte foi realmente "inesperada"? Para o público angolano, sim. Mas para quem conhecia a condição clínica de Neto, aparentemente não. A imprensa internacional da época descrevia uma doença grave. A documentação médica indicava hepatite crónica, cirrose, obstrução biliar, comprometimento renal e tumor pancreático inoperável. O que terá sido inesperado foi a rapidez da deterioração final. Neto chegou a Moscovo no início de Setembro, foi submetido à intervenção no dia 8 e morreu no dia 10. O intervalo foi extremamente curto. Isso ajuda a compreender por que razão a notícia causou choque em Angola. A própria compilação da imprensa portuguesa da época mostra que a notícia foi inicialmente tratada com alguma incerteza: primeiro surgiram informações sobre uma operação e sobre o agravamento do estado de saúde; depois veio a confirmação da morte. 11. O que podemos afirmar com segurança? Depois de confrontar as fontes disponíveis, eu dividiria as conclusões em três níveis. FACTOS DOCUMENTADOS 1. Agostinho Neto morreu em Moscovo em 10 de Setembro de 1979, aos 56 anos. 2. Encontrava-se gravemente doente. 3. Sofria de problemas hepáticos graves, incluindo hepatite crónica e cirrose, segundo o relatório médico reproduzido pela imprensa da época. 4. Existia uma obstrução das vias biliares. 5. Durante a intervenção foi descoberto um tumor maligno no pâncreas, considerado inoperável. 6. Os médicos conseguiram restabelecer a drenagem da bílis, mas Neto sofreu posteriormente complicações graves. 7. A deterioração envolveu o fígado, os rins e posteriormente outros sistemas do organismo. 8. A imprensa internacional da época atribuiu a morte às complicações decorrentes da doença e da intervenção cirúrgica. QUESTÕES QUE MERECEM INVESTIGAÇÃO 1. Qual era exactamente o diagnóstico de Neto antes da sua última viagem a Moscovo? 2. Existiam outros diagnósticos além do cancro pancreático e da doença hepática? 3. Foi realizada autópsia? 4. Onde está o relatório médico integral? 5. Existe relatório anatomopatológico que confirme o tumor pancreático? 6. Existem exames médicos anteriores realizados em Angola? 7. Existem arquivos soviéticos ainda não consultados pelos investigadores angolanos? Estas são perguntas históricas legítimas. O QUE NÃO ESTÁ PROVADO Não encontrei documentação credível que prove: - assassinato; - envenenamento; - sabotagem médica; - participação soviética numa conspiração; - participação de dirigentes do MPLA na morte; - ou uma operação deliberadamente mal executada para provocar a morte de Neto. Portanto, não devemos apresentar nenhuma dessas hipóteses como facto. 12. A minha conclusão A morte de Agostinho Neto continua a ser um episódio que merece investigação histórica mais profunda. Mas uma investigação séria não deve partir da conclusão de que houve assassinato. Deve partir das perguntas. A documentação contemporânea que conseguimos localizar aponta claramente para uma doença grave e para um tumor pancreático inoperável, num organismo já debilitado por problemas hepáticos e renais. Isso constitui, até prova em contrário, a explicação mais sólida para a morte. Mas também é legítimo perguntar por que razão ainda existe tanta confusão sobre o diagnóstico de Neto, por que algumas fontes falam em leucemia, outras em cancro do fígado e outras em cancro do pâncreas, e sobretudo qual é o conteúdo integral da documentação clínica produzida em Moscovo. Quarenta e sete anos depois, a pergunta mais responsável talvez não seja: "Quem matou Agostinho Neto?" Mas sim: "Temos todos os documentos necessários para afirmar, sem qualquer dúvida, como morreu Agostinho Neto?" Se a resposta for não, então há ainda trabalho para os historiadores. E esse trabalho não deve ser feito por militantes, nem por propagandistas, nem por defensores de teorias conspirativas. Deve ser feito por historiadores, médicos, arquivistas e investigadores, com acesso aos documentos originais. Porque a História não precisa de lendas para ser interessante. Precisa de documentos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O TEMPO PASSA… E, ÀS VEZES, NEM NOS DAMOS CONTA

Hoje deparei-me aqui, no Facebook, com a lista dos candidatos admitidos ao exame de acesso ao Concurso Público de Ingresso no Ministério da Educação, pelo município do Quissongo — a terra do barro vermelho que, há 60 “cacimbos”, me viu nascer. Percorri a lista de ponta a ponta, quase como quem procura um nome conhecido. Olhei para as habilitações literárias, mas foram sobretudo as idades que me fizeram parar e reflectir. A maioria está na casa dos 30 anos e há até um candidato com 41. Foi então que me dei conta de uma coisa curiosa: não reconheci absolutamente ninguém. E não poderia ser de outra forma. Quando saí do Quissongo (outrora comuna), no final da década de 70 do século passado, nenhum daqueles candidatos tinha nascido. São homens e mulheres de uma nova geração, que hoje trilham caminhos que, de alguma maneira, um dia também palmilhei. Aquela simples lista, que para muitos talvez não passe de um conjunto de nomes à espera de uma oportunidade de emprego, provocou em mim um estranho e bonito sentimento de satisfação e nostalgia ao mesmo tempo. Satisfação por ver uma nova geração a estudar, a procurar oportunidades e a construir o seu próprio futuro. Nostalgia porque, ao olhar para aquelas idades, percebi de forma muito concreta como o tempo passou. Aquelas crianças que nunca conheci, porque ainda não existiam quando parti, são hoje adultos, candidatos a professores e, quem sabe, futuros educadores de outras gerações. É assim que a vida passa diante dos nossos olhos. Primeiro somos nós a procurar o nosso lugar no mundo; depois, quase sem percebermos, passamos a assistir às novas gerações a ocuparem os lugares que um dia foram nossos. Quissongo viu-me nascer. Eu vi partir uma geração. Hoje, ao olhar para esta lista, percebi que uma outra geração já está a escrever a sua própria história. E talvez seja esta uma das formas mais silenciosas de perceber que o tempo, esse velho companheiro, nunca parou de caminhar. Artur Cussendala, Quarta 09SET 2026 Na imagem: a casa de telhas atrás dos estudantes, pertenceu ao grémio do milho de Angola colonial e dirigida à época pelo Senhor Gouveia, vulgo "kaungo".

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A REFORMA

“Fui exonerado e mandado para a reforma sem aviso prévio. Foi uma situação que me apanhou completamente de surpresa.” Sério? Olhando para trás, talvez o seu próprio documento de identidade já trouxesse, há muito, o indício de que esse momento chegaria. E chegou. Há qualquer coisa de irónico quando alguém se mostra surpreendido por envelhecer, como se o tempo fosse uma realidade que só se aplicasse aos outros. A verdade, porém, é simples e incontornável: todos envelhecemos, e todos, mais cedo ou mais tarde, teremos de passar o testemunho. Tenho um filho que trabalha no cerimonial de uma força castrense e que, pela natureza da sua função, acompanha diariamente situações delicadas. O que me relata sobre as consequências de determinadas reformas e exonerações compulsórias baseadas na idade é preocupante. Há pessoas que, ao perderem subitamente o cargo que exerceram durante décadas, entram numa espécie de vazio existencial. Algumas desenvolvem graves perturbações emocionais e, em certos casos, esse sofrimento acaba por ter consequências trágicas. É preciso, contudo, fazer uma distinção importante: o problema não é a reforma em si, mas a forma como a pessoa é preparada para ela. Para muitos, o trabalho deixou de ser apenas uma profissão. Tornou-se identidade, estatuto, reconhecimento social e, em alguns casos, quase uma dependência. Sobretudo quando se trata de cargos de prestígio, acompanhados de privilégios e regalias, abandonar o posto pode ser psicologicamente muito mais difícil do que parece para quem observa de fora. Por isso, chegar à idade da reforma sem qualquer preparação para essa nova etapa da vida é, de certa forma, viver desligado de uma realidade que sempre esteve diante de nós. A reforma não deveria ser encarada como uma sentença, muito menos como o fim da vida produtiva. É o fim de um ciclo profissional e o início de outro. Existe ainda uma questão que raramente queremos discutir com honestidade que é a passagem do bastão para as novas gerações. Quando nos agarramos indefinidamente aos lugares que ocupamos, consciente ou inconscientemente, também podemos estar a fechar portas para aqueles que vêm atrás de nós. Há jovens preparados, qualificados e cheios de vontade de trabalhar, mas que encontram estruturas envelhecidas e oportunidades cada vez mais escassas. Isso não significa que os mais velhos sejam inúteis ou devam ser simplesmente afastados. Pelo contrário. A experiência de quem sai deve servir para formar e orientar quem entra. O conhecimento acumulado ao longo de décadas não deveria desaparecer no momento em que chega a reforma; deveria ser transmitido às novas gerações. O verdadeiro desafio, portanto, não é apenas reformar pessoas. É criar processos de transição dignos, humanos e previsíveis, nos quais o trabalhador saiba com antecedência quando e como deixará o cargo, tenha tempo para se preparar emocional e financeiramente e possa transmitir a sua experiência a quem o substituirá. Precisamos aprender a sair de cena com a mesma dignidade com que um dia entrámos. Porque o problema não está em passar o bastão. O problema está em acreditar que fomos feitos para segurá-lo eternamente. A vida tem ciclos. O trabalho também. E uma sociedade saudável é aquela que sabe respeitar quem sai, preparar quem entra e garantir que nenhum dos dois se sinta descartado. Artur Cussendala - Terça, 08SET 2026

O MISTÉRIO DO SALDO QUE EVAPORA: QUEM ESTÁ A ASSALTAR O BOLSO DOS ANGOLANOS?

Vamos lá ver se consigo explicar o que se passa com o nosso saldo de voz e de dados, que, em determinadas circunstâncias, parece evaporar-...