domingo, 31 de maio de 2026

A ÉBOLA...

Há cerca de dez anos, escrevi algo semelhante e retorno ao tema porque sinto profundamente que há uma força invisível por trás de certos fenômenos. As explicações científicas mais aceites indicam que o Ébola e o Marburg são doenças zoonóticas, ou seja, vírus que passam de animais silvestres para seres humanos, especialmente através do contacto com morcegos frugívoros e outros animais infectados. No entanto, esta explicação levanta algumas questões que merecem reflexão. Os povos africanos convivem há milhares de anos com a fauna e a flora do continente. A caça, o consumo de carne de animais selvagens e o contacto com ecossistemas naturais sempre fizeram parte da realidade de muitas comunidades. Se essa convivência existe desde tempos imemoriais, por que razão surtos tão devastadores parecem ganhar maior destaque apenas nas últimas décadas? Com os avanços da biotecnologia e da engenharia genética, tornou-se tecnicamente possível manipular microrganismos em laboratório. Isso leva alguns observadores a questionarem se determinadas epidemias poderiam ter sido agravadas, modificadas ou mesmo exploradas por interesses geopolíticos, económicos ou militares. A recorrência de surtos em regiões marcadas por pobreza, conflitos armados, instituições frágeis e reduzida capacidade de investigação científica alimenta suspeitas entre muitos africanos. Países como a República Democrática do Congo e, anteriormente, Angola durante a guerra civil, reuniam condições que dificultavam a verificação independente das origens e dos mecanismos de propagação dessas doenças. Não se trata de afirmar categoricamente que o Ébola ou o Marburg sejam armas biológicas, mas de defender que todas as hipóteses relevantes devem ser investigadas com transparência, rigor científico e supervisão internacional. A história demonstra que programas secretos de investigação biológica já existiram em várias partes do mundo, razão pela qual o debate sobre biossegurança e a origem de determinadas epidemias não deve ser considerado ilegítimo ou encerrado prematuramente. Num continente que tantas vezes serviu de palco para disputas geopolíticas externas, é compreensível que surjam dúvidas e desconfianças. Por isso, mais do que aceitar explicações prontas, os africanos devem exigir investigação independente, acesso à informação e total transparência sobre a origem e a evolução dessas doenças. Artur Cussendala DOMINGO, 31MAI 2026 https://wwe.facebook.com/cussendala

segunda-feira, 25 de maio de 2026

TRUMP A INTERFERIR NO QUOTIDIANO DOS LUANDENSES

Nós, angolanos, muitas vezes distraímo-nos facilmente ou alimentamos a convicção de que os problemas do mundo nunca nos irão afectar diretamente. Há cerca de um mês, a Bloomberg alertou para uma possível escassez mundial de combustíveis derivados do petróleo. Na altura, partilhei essa informação no meu perfil e no grupo de Facebook que administro. Alguns provavelmente leram, mas poucos levaram o alerta a sério. Hoje, porém, a realidade fala por si. As bombas de combustível em Luanda encontram-se abarrotadas, revelando não apenas o impacto das tensões no Médio Oriente, mas também a nossa falta de prevenção e consciência colectiva. Continuamos a agir como se os conflitos internacionais fossem acontecimentos distantes, sem qualquer reflexo na nossa vida quotidiana, quando, na verdade, vivemos num mundo profundamente interligado. A situação agrava-se ainda mais pelo silêncio das autoridades, que pouco ou nada fizeram para educar, informar e tranquilizar a população antecipadamente. Em momentos de crise ou ameaça global, o papel da comunicação institucional é fundamental para evitar o pânico, o açambarcamento e a desordem social. O que estamos a viver neste primeiro dia laboral deve servir de lição de que os problemas globais já não escolhem fronteiras. O que acontece no Médio Oriente, na Europa ou na Ásia pode, em poucos dias, afectar directamente a vida de um cidadão em Luanda, Namibe ou Ondjiva. Artur Cussendala - Segunda, 25MAI 2026 https://mbondochape.blogspot.com/?m=1

sábado, 23 de maio de 2026

TESTE DE SOFÁ

 


EU TAMBÉM SOU HOMEM E ESTOU COM O DIKOTA.

Antes de se condenar alguém na praça pública, é preciso separar moralismo, inveja e justiça. Pelos vídeos colocados a circular por pessoas de má-fé nas redes sociais, vêem-se mulheres adultas, sem sinais visíveis de coação ou violência, e até ao momento não existe qualquer denúncia formal de estupro ou abuso sexual.

O verdadeiro problema aqui parece ser a divulgação ilegal de conteúdos íntimos, expondo a privacidade de pessoas adultas. Transformar isso num tribunal popular apenas revela hipocrisia social e sede de escândalo.
Quanto ao local dos encontros, ainda que se trate de um gabinete ou de um espaço ligado a uma instituição, isso pode configurar, no máximo, uma infração administrativa ou ética interna, e não necessariamente um crime. E se for um espaço privado do visado, então entra-se no domínio da vida pessoal, onde cada adulto responde pelos seus actos e escolhas.

Vivemos numa sociedade onde muitos fingem santidade em público, mas fazem o contrário em privado. É preciso parar com o julgamento selectivo e com a cultura de humilhação pública. Respeitem o senhor e respeitem igualmente as mulheres envolvidas. Nem tudo o que choca os moralistas constitui crime.
Os hábitos e excessos das elites podem não agradar a todos, mas cada um deve analisar os factos com equilíbrio e maturidade, evitando condenações baseadas apenas em emoções, inveja ou preconceito.

Artur Cussendala - SÁBADO 23MAI 2026
https://mbondochape.blogspot.com/

terça-feira, 19 de maio de 2026

João Lourenço e a oportunidade perdida de Angola


Desde a independência nacional, Angola atravessou diferentes ciclos políticos e económicos que moldaram profundamente a vida do seu povo. Alguns períodos ficaram marcados pela guerra, outros pela reconstrução nacional e pelo crescimento acelerado impulsionado pelo petróleo. Contudo, o consulado de João Lourenço corre o risco de ser lembrado como uma das fases de maior frustração colectiva da Angola pós-guerra.

Quando João Lourenço chegou ao poder, em 2017, muitos angolanos alimentaram expectativas legítimas de mudança. O combate à corrupção, a promessa de moralização das instituições, a abertura económica e a tão anunciada diversificação da economia surgiam como sinais de uma nova era. O país parecia finalmente pronto para abandonar a excessiva dependência do petróleo e construir bases sólidas para um desenvolvimento sustentável.

Entretanto, quase uma década depois, o sentimento predominante em largos sectores da sociedade é de desencanto.

A economia angolana permanece vulnerável, frágil e excessivamente dependente do crude. A diversificação económica transformou-se num slogan político repetido em discursos oficiais, mas com resultados pouco visíveis na vida concreta da população. Agricultura, indústria transformadora, turismo e produção nacional continuam incapazes de gerar o impacto estrutural prometido ao país.

Enquanto isso, os cidadãos enfrentam diariamente o aumento do custo de vida, o desemprego juvenil, a degradação do poder de compra e o crescimento das desigualdades sociais. Em muitas famílias angolanas, a esperança de prosperidade deu lugar ao sentimento de sobrevivência permanente.

Paradoxalmente, Angola entrou neste período sem o peso destrutivo da guerra civil. Era suposto que o país, décadas após o conflito armado, estivesse numa fase de consolidação económica e expansão social comparável a outras economias africanas emergentes. Mas isso não aconteceu na dimensão esperada.

A percepção de muitos cidadãos é que o país perdeu tempo precioso. Houve reformas, sim, mas frequentemente lentas, contraditórias ou insuficientes para produzir transformação profunda. O combate à corrupção, inicialmente visto como um marco histórico, acabou também envolvido em acusações de selectividade política, alimentando divisões e desconfiança no sistema.

No plano internacional, a chamada diplomacia económica igualmente produziu resultados limitados. Apesar das inúmeras cimeiras, fóruns e aproximações diplomáticas, Angola continua distante dos grandes centros de influência económica global e com reduzida capacidade de atrair investimentos estruturantes capazes de transformar a economia nacional. Em vários momentos, o país pareceu mais reagir aos acontecimentos internacionais do que assumir um papel estratégico relevante na região africana e no mundo.

Há ainda um aspecto político importante: os governos não são avaliados apenas pelas intenções ou pelos discursos, mas sobretudo pelos resultados concretos que deixam na vida das pessoas. E é precisamente nesse ponto que o mandato de João Lourenço enfrenta as críticas mais severas.

A História tende a ser implacável com líderes que chegam ao poder cercados de esperança popular e terminam os seus ciclos deixando frustração social, dificuldades económicas persistentes e promessas incompletas. Muitos angolanos acreditam hoje que o país poderia ter avançado mais, aproveitado melhor os seus recursos e construído uma economia menos dependente e mais inclusiva.

Se nada de estrutural mudar até 2027, é provável que João Lourenço deixe o poder sem a marca histórica de grande reformador que inicialmente muitos lhe atribuíram. Ao invés disso, poderá ficar associado à imagem de uma liderança que recebeu uma oportunidade rara de redefinir Angola no pós-guerra, mas que acabou por não corresponder plenamente às expectativas nacionais.

A grande questão que ficará para a História será simples: como um país tão rico em recursos naturais continuou incapaz de transformar riqueza em prosperidade colectiva?

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Medo de deixar o PODER



Por Artur Cussendala, Sexta 15MAI2026

Em muitos países africanos, a alternância política continua a ser encarada não como um processo natural da democracia, mas como uma ameaça à sobrevivência política, económica e até pessoal dos próprios líderes.

A pergunta que muitos fazem é simples: por que razão tantos dirigentes africanos se apegam ao poder? A resposta, embora complexa, passa quase sempre pelo medo, sim, medo da vingança, da humilhação pública, da perseguição judicial e da destruição do legado político.

Quando um líder chega ao poder e transforma o seu antecessor no principal alvo político, cria-se um precedente perigoso. O novo governante procura consolidar autoridade culpando o passado por todos os males do presente. Os antigos aliados tornam-se inimigos visíveis; os críticos internos passam a ser tratados como sabotadores; e instala-se uma cultura de purga política permanente. Nesse ambiente, governar deixa de ser apenas administrar o Estado e passa a significar sobreviver politicamente.

O problema é que quem governa dessa forma acaba refém do próprio método que criou. O líder que humilhou o seu antecessor começa, inevitavelmente, a imaginar que sofrerá o mesmo destino quando abandonar o poder. Surge então a obsessão pela perpetuação e começa por alterar regras internas, controlar estruturas partidárias, enfraquecer adversários, fabricar consensos e neutralizar possíveis sucessores. Não porque o país dependa necessariamente dele, mas porque ele passa a acreditar que sua saída significará vulnerabilidade.

É exactamente neste ponto que muitos sistemas políticos africanos entram em crise silenciosa. A sucessão deixa de ser um exercício democrático saudável e transforma-se numa disputa de sobrevivência. O medo substitui a confiança institucional. Em vez de preparar novas lideranças, cria-se um ambiente onde ninguém consegue afirmar-se plenamente, porque qualquer figura emergente é vista como ameaça potencial.

Em Angola, os sinais deste fenómeno começam a tornar-se cada vez mais visíveis. O debate sobre a sucessão dentro do partido no poder já não é apenas uma questão partidária; tornou-se um tema nacional. Os candidatos ao cadeirão máximo enfrentam dificuldades evidentes para se afirmarem politicamente, não necessariamente por falta de capacidade, mas porque o sistema parece pouco disposto a permitir o surgimento de uma liderança autónoma e forte.

Quando um partido ou um Estado depende excessivamente da figura de um único homem, a própria sucessão transforma-se num problema estrutural. A ausência de renovação cria insegurança interna, alimenta disputas silenciosas e enfraquece a confiança popular nas instituições. E quanto mais tempo um líder permanece no centro absoluto do poder, maior tende a ser o receio daquilo que encontrará depois da saída.

Existe aqui uma lição política importante a reter: quem não respeita o legado dos outros dificilmente verá o seu legado respeitado no futuro. A política construída sobre humilhação, vingança e destruição de adversários produz inevitavelmente insegurança para quem governa. Afinal, o governante de hoje sabe que poderá tornar-se o perseguido de amanhã.

As democracias sólidas constroem-se justamente no contrário disso e na existência de instituições fortes, sucessões previsíveis, respeito pelos antigos dirigentes e convivência política civilizada. Quando o poder deixa de ser encarado como propriedade pessoal e passa a ser entendido como mandato temporário, o medo da saída diminui.

África não precisa de líderes eternos. Precisa de instituições duradouras. Porque nenhum país pode amadurecer politicamente enquanto os seus dirigentes continuarem a governar como homens cercados pelo medo de abandonar o trono.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

AS MARACUTAIAS E O CULTO A PERSONALIDADE

 Por Artur Cussendala QUINTA, 14MAI2026

O debate sobre uma eventual tentativa de prolongamento do poder político em Angola voltou a ganhar força nos corredores digitais, sobretudo entre os chamados “especialistas do Facebook”, que alimentam a tese de que o Presidente João Lourenço poderá estar a desenhar uma estratégia para garantir, de forma indirecta, um terceiro mandato no comando efectivo do país. Embora, até ao momento, não existam provas concretas de tal intenção, o simples facto de o assunto dominar conversas políticas e jurídicas revela o nível de desconfiança que se instalou na sociedade angolana relativamente às dinâmicas do poder.

Segundo esta linha de pensamento, a eventual reeleição de João Lourenço na liderança do MPLA abriria caminho para uma engenharia política semelhante ao modelo aplicado por Vladimir Putin na Rússia. O argumento sustenta que, depois de consolidar o controlo interno do partido, Lourenço poderia apoiar um candidato politicamente dependente, uma figura sem autonomia real para encabeçar a lista eleitoral do MPLA, reservando para si a posição de vice-presidente. Formalmente, o novo rosto assumiria a presidência da República, mas o verdadeiro centro de influência permaneceria intacto nos bastidores do poder.

A teoria vai mais longe. Os defensores desta hipótese acreditam que, numa fase posterior, poderia surgir uma vacatura presidencial cuidadosamente aproveitada, permitindo que João Lourenço ascendesse constitucionalmente ao cargo de Presidente da República na condição de vice-presidente, garantindo, na prática, a continuidade do seu domínio político. Seria, portanto, uma espécie de “terceiro mandato indirecto”, obtido não pela alteração explícita da Constituição, mas através da manipulação estratégica das engrenagens institucionais.

Independentemente de a teoria ser plausível ou meramente especulativa, ela levanta questões profundas sobre a fragilidade das democracias excessivamente dependentes de figuras individuais. Quando o debate político deixa de girar em torno de programas, instituições e alternância democrática, para se concentrar na perpetuação de lideranças, o Estado começa lentamente a confundir-se com o partido, e o partido com o líder. É precisamente nesse ambiente que nascem os sistemas de presidencialismo hegemónico, onde as regras constitucionais permanecem formalmente intactas, mas são reinterpretadas de modo a servir interesses de continuidade política.

O mais preocupante, entretanto, não é apenas a possibilidade de uma estratégia dessa natureza existir ou não. O verdadeiro problema reside no facto de uma parte significativa da sociedade considerar tal cenário perfeitamente possível dentro do contexto político angolano. Isso demonstra que a confiança nas instituições continua frágil e que muitos cidadãos acreditam que os mecanismos do Estado podem ser instrumentalizados para acomodar ambições pessoais ou partidárias.

Ao mesmo tempo, há quem veja sinais dessa suposta preparação no ambiente político actual, sobretudo nos processos judiciais, nas disputas internas do partido e no aparente enfraquecimento de potenciais adversários. Para esses observadores, não seria coincidência que determinadas figuras incómodas estejam sob crescente pressão política e jurídica num momento em que o debate sobre sucessão começa silenciosamente a ganhar forma.

Contudo, é igualmente importante reconhecer que, até aqui, tudo permanece no campo das conjecturas políticas. E numa democracia séria, especulações não podem substituir factos. O risco de transformar rumores em verdades absolutas pode conduzir a radicalizações perigosas e alimentar ainda mais a polarização política.


Ainda assim, o simples surgimento dessas suspeitas deve servir como alerta. Democracias sólidas constroem-se com instituições independentes, respeito pela alternância do poder e lideranças capazes de compreender que nenhum projecto político deve depender eternamente de um único homem. A história mostra que, quando um sistema político começa a desenhar mecanismos para eternizar figuras no poder, raramente o faz em benefício da democracia.


Qual é a sua opinião? Deixe ela nos comentários.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

QUANDO O MILITANTE VIRA "MILITONTO"

 


É cada vez mais frequente vermos nas redes sociais militantes partidários  com particular destaque para os “kwachas”, repetirem quase de forma mecânica o velho refrão de que “as falhas da UNITA são toleráveis porque o partido nunca governou Angola nos 50 anos de independência”. Mas será mesmo um argumento sério ou apenas mais um slogan político destinado a anestesiar consciências?

A narrativa, além de simplista, ignora deliberadamente a complexidade da própria história angolana. Desde 1975, a UNITA não foi um mero espectador da vida nacional. Durante largos períodos da guerra civil, controlou extensas parcelas do território, chegando a dominar cerca de 75% do país. Explorou recursos, administrou zonas sob sua influência, montou estruturas políticas e militares próprias e construiu um exército regular de milhares de homens, muitas vezes melhor equipado do que as forças do próprio Estado angolano.

Após o fim da guerra, com a morte de Jonas Savimbi, a UNITA integrou o GURN (Governo de Unidade e Reconciliação Nacional), passando igualmente a participar da máquina política e institucional do país. Portanto, tentar vender a ideia de que o partido viveu totalmente afastado das responsabilidades nacionais é uma leitura historicamente desonesta e intelectualmente preguiçosa.


Os militantes conscientes, independentemente da cor partidária, precisam despir-se do fanatismo e abandonar a lógica dos slogans. A política não pode continuar refém de torcidas organizadas onde tudo é relativizado em função da conveniência partidária. Defender o indefensável apenas porque “o meu partido também faz” é um dos sintomas mais perigosos da degradação do debate público em Angola.


A reflexão surge na sequência de imagens colocadas em circulação pela própria UNITA, mostrando militantes no interior do país empilhados em carroçarias de camionetas, transportados em condições indignas, quase como carga animal. O mais perturbador, porém, não foi apenas a imagem em si, mas a tentativa de justificar a situação estabelecendo paralelos com práticas semelhantes atribuídas ao MPLA como se um erro pudesse servir de absolvição para outro.

Não pode haver normalização da indignidade humana apenas porque ela já foi praticada pelo adversário político. O que mais preocupa é assistir jovens e pseudo-intelectuais a transformarem o absurdo em algo aceitável, desde que isso sirva para proteger líderes partidários que, ironicamente, fazem estas mesmas viagens instalados em viaturas topo de gama, climatizadas e confortáveis.

A juventude angolana, profundamente partidarizada e cada vez mais emocionalmente capturada pela lógica tribal da política, parece em muitos aspectos pior do que as gerações anteriores. Perde-se a capacidade crítica, substituída pela defesa automática do “nosso lado”, mesmo quando este reproduz exactamente os vícios que antes condenava.


E talvez seja esse o maior drama nacional, já não se discute o certo e o errado, mas apenas quem cometeu o erro.


Por: Artur Cussendala, SEGUNDA, 11MAI2026

sábado, 25 de abril de 2026

MANDELA, O HEROI DOS PULAS TEM CULPA


 A recorrência da violência xenófoba na África do Sul não é um fenómeno isolado nem inesperado; é antes o sintoma visível de tensões sociais profundas que a chamada “nação arco-íris” nunca conseguiu resolver plenamente. O ideal de convivência harmoniosa entre diferentes grupos étnicos e culturais permanece, em grande medida, confrontado diariamente por desigualdades estruturais e frustrações acumuladas.

Importa sublinhar que esta violência não se dirige exclusivamente a estrangeiros. Ela emerge de um contexto mais amplo de exclusão económica, desemprego persistente e competição por recursos escassos. Nesse cenário, o estrangeiro transforma-se num alvo fácil, não por ser a causa dos problemas, mas por ser a sua face mais visível.

O legado de Nelson Mandela continua a ser, simultaneamente, admirável e insuficiente. A sua liderança foi decisiva para evitar um conflito civil de grandes proporções e para estabelecer as bases de um Estado democrático inclusivo. Contudo, a prioridade dada à reconciliação política não foi acompanhada por uma transformação económica estrutural capaz de desmantelar, com igual profundidade, as heranças do Apartheid. O resultado foi a manutenção de desigualdades que continuam a alimentar ressentimentos e tensões sociais.
Mais do que um “erro” de liderança, o que se observa é um dilema histórico. Mas como corrigir injustiças profundas sem provocar instabilidade sistémica? Os governos que sucederam a Mandela herdaram um país politicamente pacificado, mas economicamente fragmentado e, em muitos casos, falharam em traduzir estabilidade política em progresso social tangível.
A este quadro interno já frágil somam-se pressões externas cada vez mais intensas. A migração, a instabilidade no Oriente Médio, particularmente em cenários de conflito que levem ao bloqueio do Estreito de Ormuz por onde circula uma parte significativa do comércio mundial, tem efeitos globais imediatos, assim aumentam os preços da energia, encarecem os transportes e pressão sobre cadeias de abastecimento. Economias já vulneráveis, como a sul-africana e maior parte dos países da África, tendem a sentir esses choques de forma mais aguda, agravando o custo de vida e intensificando a competição por recursos básicos.
Neste contexto, a frustração social ganha novos combustíveis. O descontentamento económico, amplificado por choques externos, encontra expressão em formas de violência interna e muitas vezes dirigidas contra os mais expostos, incluindo imigrantes.

Reformas estruturais são, sem dúvida, necessárias, mas a sua viabilidade depende sobretudo de factores internos como a qualidade da governação, capacidade institucional, combate à corrupção e construção de um consenso político duradouro.
Em última análise, a violência xenófoba não é a causa, mas a consequência. É o reflexo de um contrato social fragilizado, onde a promessa de inclusão ainda não se materializou para uma parte significativa da população. Enquanto essa promessa continuar por cumprir e enquanto choques externos continuarem a expor fragilidades internas, a “nação arco-íris” permanecerá menos como uma realidade consolidada e mais como um ideal por alcançar.

Neste momento, faço um apelo a todos que possuem parentes naquele país para que procurem locais seguros ou considerem a saída imediata. Não tenho conhecimento se o MIREX já emitiu orientações nesse sentido, mas é imprescindível tomar precauções até que a situação esteja sob controlo.

Artur Cussendala Sábado, 25ABR2926

quinta-feira, 23 de abril de 2026

QUANDO A BARBA DO VIZINHO ARDE ...

O novo surto de xenofobia na África do Sul não pode ser tratado apenas como irracionalidade popular. Ele é, antes de tudo, o reflexo de um fracasso político profundo. Quando o Estado falha em garantir emprego, segurança económica e dignidade aos seus cidadãos, cria-se um ambiente onde a revolta social procura alvos e, quase sempre, esses alvos são os mais vulneráveis e no caso os estrangeiros.

É legítimo que qualquer nação coloque os seus cidadãos no centro das suas políticas públicas. Um país existe, em primeiro lugar, para servir o seu povo. Ignorar isso, em nome de discursos abstratos de integração, é negar a própria base da soberania nacional.
No entanto, é intelectualmente desonesto atribuir aos estrangeiros a responsabilidade pela crise. A presença de imigrantes em sectores económicos não acontece por acaso, acontece porque há falhas estruturais como a ausência de apoio ao empreendedor nacional, falta de acesso ao crédito, sistemas de formação ineficazes e uma economia incapaz de absorver a sua própria mão-de-obra.

Em Angola, o cenário não é diferente. A título de exemplo: a exploração do Petróleo é feita por norte-americanos ou franceses; o negócio grossista alimentar é feito por libaneses; os comércio de auto peças por nigerianos; o comércio realista por chineses e oeste africanos e até a venda de inertes e água, está na mão de chineses e cubanos. Cresce a percepção de que determinados sectores estão nas mãos de estrangeiros, enquanto muitos angolanos enfrentam desemprego e precariedade. Mas essa realidade não é fruto de uma “invasão económica” é consequência directa de políticas públicas frágeis e de um modelo económico que não prioriza, de forma efectiva, o cidadão nacional.

Defender que os estrangeiros e em especial os africanos contribuam para o desenvolvimento dos seus próprios países é uma posição legítima. Mas isso só será possível quando existirem Estados capazes de oferecer condições reais de vida, trabalho e progresso. Enquanto isso não acontecer, a migração continuará a ser uma válvula de escape inevitável.
A solução, portanto, não está na hostilidade nem na exclusão, mas na afirmação clara de três pilares, a saber:

- prioridade efectiva ao cidadão nacional nas políticas económicas;

- regulação firme e transparente da imigração;

- responsabilização política dos governos pela incapacidade de gerar oportunidades.

Sem isso, continuaremos a assistir ao mesmo ciclo, onde os Estados falham, populações revoltam-se, estrangeiros são culpados e nada de estrutural muda.

O governo angolano deveria adotar uma postura cautelosa, pois, actualmente, são os sul-africanos que recorrem à violência contra estrangeiros, mas amanhã tal fenômeno poderá afectar as cidades estrangeiros em Angola e angolanos de maneira trágica nas nossas pacatas cidades e vilas.

Artur Cussendala Quinta, 23ABR2026
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sábado, 11 de abril de 2026

FOMOS ENGANADOS?




Há cinquenta anos, em um período marcado pela limitada disponibilidade de tecnologia avançada, a humanidade realizou a extraordinária façanha de enviar astronautas à Lua, enfrentando o desconhecido e navegando quase que às cegas pelo espaço. Durante essa histórica missão, não apenas conseguiram pousar em segurança no solo lunar, mas também transmitiram ao vivo, em tempo real, tanto pela televisão quanto pelo rádio, directamente da superfície lunar, um feito monumental para a época que capturou a imaginação de milhões ao redor do mundo. Em contraste, actualmente, vivemos em uma era de tecnologia abundante e sofisticada, que nos oferece a capacidade de sonhar com viagens a Marte e a exploração quase completa dos confins do nosso sistema solar. Entretanto, paradoxalmente, para planejar o envio de uma nova equipe ao solo lunar, torna-se necessário o deslocamento e a dedicação de uma eq

uipe de pesquisa, focada em analisar e estudar detalhadamente o percurso a ser seguido. Isso levanta a intrigante questão: será mesmo que a humanidade já deixou sua pegada na superfície lunar, ou estaria essa história envolta em dúvidas e mistérios? 

Eu, pessoalmente, ainda guardo minhas reservas e questionamentos sobre este marco da história espacial.

Artur Cussendala Sábado, 11ABR2026

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A HUMILHAÇÃO DOS "FORTES"...


Aceitar um cessar-fogo condicionado à análise de propostas do adversário dificilmente pode ser visto, de forma simplista, como uma “derrota humilhante” de uma superpotência como os Estados Unidos. Na geopolítica, recuos táticos e pausas operacionais fazem parte de estratégias mais amplas, onde o tempo, a reposição de capacidades e a gestão de alianças contam tanto quanto o poder militar bruto.

Ainda assim, o facto de uma proposta com maior número de pontos  (como a iniciativa norte-americana) não ter sido aceite como base inicial de diálogo, enquanto a do Irão ganha centralidade, pode ser interpretado como um sinal de perda de iniciativa política no terreno diplomático. Isso não significa necessariamente fraqueza estrutural, mas revela que o adversário conseguiu impor o ritmo e os termos do debate, algo que tem peso simbólico e estratégico.

Por outro lado, o comportamento do Irão demonstra uma combinação de resiliência, disciplina e cálculo estratégico. Mesmo enfrentando dois adversários tecnologicamente superiores, conseguiu manter capacidade de resposta suficiente para evitar uma capitulação rápida, o que, por si só, já altera a percepção de equilíbrio de forças.

Assim, o cessar-fogo pode ser lido sob duas perspectivas não mutuamente exclusivas: por um lado, uma pausa estratégica dos EUA para reavaliar custos, reposicionar meios e consolidar apoios; por outro, uma vitória tática do Irão no plano político-diplomático, ao conseguir trazer o adversário para um terreno de negociação mais favorável.

Mais do que uma humilhação definitiva, o que está em causa é uma disputa pela narrativa e pelo controlo do tempo, dois elementos cruciais em conflitos assimétricos, onde nem sempre vence quem tem mais poder, mas quem melhor o gere.


Artur Cussendala Quarta-feira, 08ABR2026

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A oposição que se divide enquanto sonha governar



Por: Artur Cussendala Quinta, 19FEV2026


Há algo profundamente irónico na actual engenharia política da oposição angolana. Fala-se em alternância, mudança, viragem histórica… mas, internamente, reina uma fragmentação que faria corar qualquer estratega minimamente pragmático.

A UNITA, partido fundado por Jonas Malheiro Savimbi, construiu-se como estrutura de combate, identidade sólida e narrativa própria. Não nasceu para ser satélite de ninguém. Nasceu para disputar poder.

E agora? Fala-se em coligações com o Bloco Democrático e o Partido Liberal. Não por afinidade ideológica profunda, não por convergência estratégica estruturada, mas por necessidade matemática.


Quando um partido maior se junta a partidos que lutam pela própria sobrevivência institucional, não é altruísmo político, é cálculo defensivo. É contenção de danos.

O Bloco Democrático quer continuar a existir.

O Partido Liberal quer começar a existir.

E a UNITA quer continuar a parecer que está a crescer.

Mas crescer não é apenas somar siglas. Crescer é consolidar base, manter unidade e transmitir estabilidade. E é aqui que reside o verdadeiro problema.

A cada ciclo eleitoral, surge mais um dissidente, mais um “novo projecto”, mais uma liderança iluminada que decide que o problema nunca foi estrutural mas pessoal. E assim, a oposição fragmenta-se em pequenas capelas políticas, cada uma convencida de que carrega a verdadeira pureza ideológica.

Enquanto isso, quem observa de fora não vê estratégia. Vê desorganização.


Há um paradoxo curioso nisso tudo, critica-se o partido no poder por hegemonia prolongada mas oferece-se como alternativa uma constelação de egos concorrentes. E política, goste-se ou não, é também percepção. E percepção de instabilidade afasta eleitorado moderado.


Será desespero? Talvez não.

Será fragilidade? Possivelmente.

Será cálculo? Sem dúvida.


Mas há uma linha muito ténue entre estratégia inteligente e sinal de fraqueza estrutural.

Porque se uma coligação fortalece, ela amplia poder.

Se apenas preserva o que já existia, ela revela medo de perder.


2027 poderá não ser o ano do “milagre”. Milagres políticos raramente acontecem onde não há coesão interna. O que pode acontecer é algo mais silencioso, como a consolidação de uma oposição que fala alto, mas chega dividida.

E em política, quem chega dividido, governa dividido, quando governar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

ESTÃO MUDOS E CALADOS


Há ironias políticas que fariam rir, se não fossem tão reveladoras. Uma delas é assistir a certos sectores da UNITA, outrora um movimento de libertação com discurso soberano, a transformarem-se em fãs entusiasmados de agendas importadas da extrema-direita europeia, como se Angola fosse apenas uma extensão suburbana da política portuguesa.

De repente, surgem “analistas” improvisados, "militontos" digitais de ocasião e defensores fervorosos de figuras como André Ventura, líder do CHEGA, um partido cuja retórica política dificilmente teria espaço para muitos dos seus próprios apoiantes africanos, caso estes fossem apenas mais um rosto na fila da imigração aí na avenida de Portugal em Luanda. Mas nas redes sociais tudo é possível e a contradição vira coragem e a submissão ideológica passa por lucidez estratégica, tudo porque o "pula" lá da "Tuga" não tolera os gatunos do MPLA.

No centro deste fenómeno está uma certa elite luso-bujurra-angolano que tentou redesenhar a identidade do maior partido da  oposição, afastando-a da sua raiz histórica angolana para a aproximar de discursos importados, embalados como se fossem sinal de modernidade política. O resultado? Uma base militante barulhenta, repetitiva e cada vez mais desligada das preocupações reais dos angolanos, os famosissimos “combatentes de teclado” ou milicianos digitais como se queira, sempre prontos para a guerra virtual, mas silenciosos quando a realidade política bate à porta.

E o silêncio de hoje nas redes sociais? Não é um acaso. É o eco de uma derrota estrondosa de André Ventura ontem em Portugal. O esvaziamento do novo "mito", o cansaço da narrativa, a queda do “discípulo” que prometia regeneração moral e acabou prisioneiro das próprias contradições e punido nas urnas pelos portugueses de bem. Quando o líder perde aura, os seguidores perdem voz. E quando o marketing político se desfaz, resta apenas o embaraço colectivo (Savimbi deve estar a se revirar na tumba lá em Lopitanga).

O problema não é a UNITA ser de direita ou de esquerda, afinal os partidos evoluem, ideias mudam. O problema é transformar a oposição angolana numa sucursal ideológica de agendas estrangeiras que pouco compreendem a realidade histórica, social e cultural do nosso país e do nosso povo. Uma coisa é cooperação internacional; outra bem diferente é trocar a soberania intelectual por aplausos importados.

A quem serve esta transformação do Galo-Negro? Ao povo angolano que precisa de propostas sérias e enraizadas na sua realidade  ou a um pequeno círculo que prefere parecer moderno lá fora, mesmo que isso signifique perder o rumo cá dentro?

Pronto! Falei mbora...

Artur Cussendala Segunda, 09FEV2026

sábado, 7 de fevereiro de 2026

SALVEM A UNITA PARA O BEM DA DEMOCRACIA


Por Artur Cussendala SEXTA, 07FEV2026

A decisão da filha do fundador da UNITA de avançar para a criação de um novo partido político, rompendo com a liderança de Adalberto Costa Júnior, não pode ser analisada como um facto isolado nem como simples “diversão política”. Trata-se de mais um episódio num longo histórico de fracturas internas que têm marcado a UNITA desde o desaparecimento físico de Jonas Savimbi.



Desde 2002, o partido nunca conseguiu resolver de forma definitiva a tensão entre legado histórico, liderança efectiva e adaptação ao novo contexto político angolano. As sucessivas disputas internas, ora ideológicas, ora personalistas, têm produzido cisões que, em vez de fortalecerem a oposição, a fragmentam e a tornam politicamente previsível e eleitoralmente frágil.

Invocar a “mudança” como justificação para mais uma divisão soa contraditório. A experiência política angolana demonstra que a fragmentação da UNITA não cria alternativas reais ao poder dominante mas sim micro-partidos sem implantação nacional, dependentes de figuras simbólicas e incapazes de disputar o poder de forma séria. Dividir não é reformar; dividir, neste contexto, é enfraquecer.


A ideia de que poderão emergir dois grandes pilares simbólicos, um em torno do nome Savimbi e outro associado aos ideias de Mungai, ignora uma realidade elementar, já que o capital político da UNITA não é hereditário. Não se transmite por laços de sangue nem por apelos emocionais à memória do fundador. Constrói-se com unidade, organização, disciplina interna e ligação real às aspirações populares. Sem isso, o legado transforma-se apenas num instrumento retórico.

Enquanto a oposição se ocupa em disputas internas e projectos paralelos, quem observa tudo com tranquilidade estratégica é o MPLA. Não por virtude própria, mas porque quase todos os partidos recém-criados vão buscar os seus quadros, militantes e eleitorado à UNITA. O efeito prático é a erosão contínua da única força política com capacidade histórica e estrutural para disputar o poder central.

Este padrão repete-se há anos com cisões justificadas em nome da renovação acabam por produzir partidos sem expressão eleitoral, líderes sem base social e uma oposição cada vez mais dispersa. O resultado é uma falsa pluralidade que apenas legitima a manutenção do statu quo.


Angola não carece de mais siglas políticas; carece de uma oposição forte, coesa e estrategicamente madura. Enquanto a UNITA continuar a dividir-se em pequenos projectos personalistas, a chamada “mudança” permanecerá um slogan vazio e o poder continuará exactamente onde sempre esteve.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Os moralistas sem moral

 Depois de ler milhares de páginas, relatórios, depoimentos e investigações ligadas ao caso Jeffrey Epstein, torna-se impossível continuar a fingir inocência ou surpresa. O que este escândalo expõe não é um “caso isolado”, mas o funcionamento real do poder no mundo ocidental.

Por: Artur Cussandala 


Epstein não era um excêntrico rico que se desviou do caminho. Era uma peça funcional de um sistema, frequentado por presidentes, primeiros-ministros, membros da realeza, chefes de serviços secretos, magnatas financeiros e figuras centrais da academia e dos media. O que está documentado é suficiente para concluir que crimes gravíssimos, incluindo a exploração sexual de menores, foram cometidos com conhecimento e cobertura de sectores do Estado.

O mais chocante não é apenas o crime, é o encobrimento organizado. A justiça foi selectiva, as investigações travadas, os processos abafados, as provas desapareceram e os nomes mais poderosos foram cuidadosamente protegidos. Num sistema que se diz democrático e defensor dos direitos humanos, ninguém relevante foi condenado. Isto não é falha: é método.

Fica claro que existe uma elite política e financeira que opera acima da lei, protegida por redes de chantagem, favores cruzados e cumplicidade mútua. Quem entra nesses círculos aceita regras não escritas e aceita silêncio, obediência e lealdade ao sistema. A moral pública é apenas um discurso para consumo das massas.

Não é preciso provar rituais macabros para entender a profundidade da podridão. O simples facto de uma rede de abuso de crianças ter funcionado durante décadas, envolvendo gente do topo do poder mundial, sem consequências reais, já demonstra que o sistema está moralmente falido. Quando a justiça só cai sobre os fracos, deixa de ser justiça e passa a ser instrumento de dominação.

O caso Epstein é um aviso claro para o resto do mundo, incluindo África: o Ocidente não é o árbitro moral que finge ser. Por detrás do discurso civilizacional, dos direitos humanos e da democracia exemplar, existe um poder cínico, violento e hipócrita, disposto a tudo para se manter intacto.

Quem ainda acredita que estas elites governam com base em valores, e não em interesses, chantagem e impunidade, ou não leu os documentos — ou prefere continuar a dormir tranquilo.

sábado, 31 de janeiro de 2026

 


MINHA OPINIÃO SOBRE O FIM DO CONFLITO NA UCRÂNIA 


Há uma verdade que o discurso oficial insiste em esconder. A guerra na Ucrânia nunca foi apenas entre a Ucrânia e a Rússia. Desde o primeiro dia e que passei a reportar, sempre achei que trata-se de uma guerra de procuração, cuidadosamente arquitetada por Washington do velhote "João Bidon", onde os ucranianos forneceram o território, o sangue e a devastação, enquanto os Estados Unidos forneceram armas, inteligência e a agenda estratégica.

Se o ministro ucraniano das relações exteriores admite que Kiev assinará um plano de paz de 20 pontos com os EUA, enquanto Washington negoceia separadamente com Moscovo, excluindo a União Europeia, isso não é traição nem surpresa. É apenas a confirmação tardia de quem sempre mandou no conflito.

Vou tentar me explicar:

A Ucrânia não tinha autonomia real para iniciar a guerra com a Rússia, nem a tem agora para a encerrar. Foi empurrada para um confronto impossível de vencer, com a promessa ilusória de integração euro-atlântica e proteção total da NATO, promessas que nunca passaram de retórica útil. Agora, exaurida militarmente, esvaziada demograficamente e economicamente hipotecada por décadas, cancela a procuração, porque já não serve o objectivo inicial.

A Rússia, por seu lado, nunca combateu verdadeiramente a Ucrânia. Combateu a expansão da NATO, a humilhação estratégica pós-Guerra Fria e a presença americana nas suas fronteiras. Por isso, o interlocutor real de Moscovo sempre foi Washington e não Bruxelas, nem Kiev.

Quanto à União Europeia, o seu afastamento das assinaturas finais apenas confirma o óbvio, a Europa financiou a guerra, sofreu as consequências económicas e energéticas, mas não teve palavra estratégica. Reduzida a apêndice diplomático dos EUA, pagou caro por uma guerra que não controlou e que agora não consegue encerrar.

O eventual acordo não significará paz justa nem vitória moral. Será apenas o fecho pragmático de uma fase de confronto entre impérios, onde a Ucrânia foi usada como tampão geopolítico e descartada quando deixou de ser funcional.

Em termos crus, a Ucrânia não perdeu a guerra, foi consumida por ela.

E a Europa não foi derrotada, foi irrelevante.

Qual é a sua opinião?

Comente aí e não deixe de me seguir e compartilhar.


Artur Cussendala Quinta, 29JAN2026

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O CLIMA

 Actualmente, em Luanda, a sensação térmica é de um calor infernal, algo que muitos moradores da cidade nunca experienciaram antes. No Chile, a situação é igualmente dramática, onde incêndios que parecem saídos de cenas dantescas estão consumindo grandes áreas de vegetação e ameaçando comunidades inteiras, como se o próprio inferno estivesse se manifestando na Terra. Enquanto isso, no extremo oriente russo, o clima não deixa de surpreender, com uma nevasca extremamente severa e apocalíptica, que isola regiões e complica a vida das pessoas locais. Já na África do Sul e em Moçambique, o quadro igualmente preocupante é composto por chuvas intensas e diluvianas, trazendo à memória imagens bíblicas e causando enchentes que desabrigam inúmeras famílias. Se eu fosse uma pessoa religiosa ou acreditasse em divindades celestiais, certamente veria tudo isso como um sinal indiscutível do fim dos tempos profetizado por tantos. No entanto, agnóstico e com base nas evidências científicas, fica claro que o problema em questão é algo palpável e terrestre, algo está profundamente errado com o clima do nosso planeta, balançando o equilíbrio natural de muitos ecossistemas.


Artur Cussendala Quinta, 22JAN2026


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

AS AVENTURAS DO VENTURA É A RELAÇÃO COM ANGOLA


Por Artur Cussendala



A minha análise começa a confirmar-se e, mais importante do que o resultado eleitoral em Portugal, confirma-se o impacto que esse resultado poderá ter sobre Angola. Quem leu com atenção os meus textos anteriores percebeu que a ascensão de André Ventura não é um fenómeno isolado, nem meramente interno à política portuguesa. Ela insere-se num movimento mais amplo de ruptura com um sistema que, durante décadas, foi permissivo, cúmplice e confortável para interesses externos pouco transparentes — muitos deles com origem em África, e em particular em Angola.
É preciso dizê-lo sem rodeios: André Ventura representa uma direita radical, com traços autoritários e populistas, e não é alguém por quem eu nutra simpatia política. No entanto, análise política séria não se faz com gostos pessoais, faz-se com leitura fria da realidade e avaliação de consequências. E, desse ponto de vista, a eventual vitória de Ventura pode produzir efeitos que, paradoxalmente, beneficiem Angola mais do que prejudicam.
Durante anos, Portugal funcionou como extensão informal do sistema angolano de extracção de riqueza: capitais desviados, investimentos de fachada, compras de imóveis de luxo, tratamentos médicos, lazer e ostentação. Tudo feito com uma facilidade quase obscena, sustentada por uma elite política portuguesa que confundiu relações históricas com promiscuidade financeira. Portugal foi menos parceiro e mais lavandaria.
Se André Ventura chegar ao poder e cumprir, ainda que parcialmente, o que promete — maior controlo financeiro, escrutínio de capitais estrangeiros, fim do “vale tudo” — isso representará um travão objectivo a esse circuito viciado. Não por amor a Angola, evidentemente, mas por interesse interno português. E é precisamente aí que Angola ganha.
Um Portugal menos permissivo obriga as elites angolanas a fazerem o que sempre evitaram: investir em casa, responder internamente, prestar contas ao seu próprio povo. O fim da fuga confortável de capitais e da impunidade externa pode funcionar como mecanismo indirecto de moralização nacional. Não por virtude, mas por constrangimento.
Convém também desfazer uma narrativa conveniente: o crescimento de Ventura não nasce do racismo nem da ignorância popular, como muitos gostam de repetir. Ele nasce do fracasso das elites tradicionais portuguesas, que normalizaram abusos, fecharam os olhos à corrupção e transformaram o Estado num espaço capturado por interesses cruzados. Ventura é sintoma, não causa.
Do ponto de vista angolano, a continuidade desse sistema seria muito mais prejudicial do que uma ruptura desconfortável. A estabilidade aparente beneficiou sempre os mesmos: políticos, empresários oportunistas e intermediários de luxo. O cidadão comum — em Portugal e em Angola — ficou a pagar a factura.
Não se trata, portanto, de apoiar André Ventura como modelo político ou referência moral. Trata-se de reconhecer que, nas circunstâncias actuais, a sua vitória pode alterar um equilíbrio perverso que Angola nunca conseguiu quebrar sozinha. Às vezes, mudanças externas impõem reformas internas que a vontade política local nunca teve coragem de enfrentar.
Em política real, não se escolhe o ideal. Escolhe-se o impacto. E, se Portugal deixar de ser o porto seguro da corrupção angolana, Angola será forçada a encarar os seus próprios demónios. Isso, por si só, já seria uma mudança histórica.

sábado, 17 de janeiro de 2026

O Paradoxo da Groenlândia e o Eclipse da Aliança Transatlântica


Há alguns dias venho refletindo sobre a condensação de ideias a respeito do atual problema entre os parceiros da NATO. Contudo, asseguro que não se trata de um tema de fácil abordagem. Entretanto, esforçar-me-ei para tentar.



Por Artur Cussendala QUINTA, 15JAN2025


O cenário internacional enfrenta uma deriva inquietante que é a possibilidade de um impasse estratégico entre aliados históricos, não motivado por potências externas como a Rússia ou a China, mas pela posse e influência sobre a Groenlândia. De um lado, a Europa e a Dinamarca defendem a integridade territorial; do outro, os Estados Unidos — o outrora arquiteto da ordem liberal — parecem dispostos a redefinir as regras do jogo sob a égide do "interesse nacional primeiro".


​A Armadilha da Dependência Estrutural


​O paradoxo europeu nunca foi tão exposto. Embora a Europa seja uma potência económica, a sua arquitetura de segurança é, na prática, um "franchise" norte-americano.


​Vulnerabilidade Técnica


A dependência de sistemas de satélites (GPS), software de combate e logística de defesa cria uma soberania limitada.

​O "Botão de Desligar": Washington detém, teoricamente, a capacidade de neutralizar a eficácia militar europeia sem disparar um único tiro, apenas através de restrições técnicas ou diplomáticas. Esta assimetria é o trunfo que figuras como Donald Trump utilizam para transformar a NATO de uma aliança de valores numa transação comercial de proteção.


​A Erosão do Direito Internacional


​Uma acção coerciva dos EUA sobre a soberania de um aliado europeu (neste caso, o Reino da Dinamarca) criaria uma rutura sistémica.

​Se as normas internacionais passarem a ser aplicadas de forma selectiva pela própria potência que as instituiu, o Direito Internacional deixa de ser uma bússola para se tornar uma mera sugestão.

​Isto enviaria uma mensagem clara ao mundo de que a soberania é um privilégio dos fortes e não um direito dos Estados. A queda deste "dominó" jurídico invalidaria décadas de diplomacia pós-1945.

A Ameaça Interna

​A conclusão é inevitável e irónica: a maior ameaça à estabilidade do Ocidente pode já não residir na "agressividade" de Moscovo ou Pequim, mas na erosão interna das suas próprias alianças. Se a Groenlândia se tornar o pomo da discórdia, a NATO deixará de ser um escudo contra inimigos externos para se tornar o cenário de uma implosão interna.


E ainda bem que a Rússia ficou forte novamente pois este seria um precedente perigoso para as noções africanas que de um tempo a esta têm desafiado o ex-colonizador como no SAHEL. 


Quero saber o que 🫵 pensa a respeito.

O MITO DO ARSENAL NUCLEAR UCRANIANO


Por: Artur Cussendala Sábado, 03JAN2026


Dado o frequente aparecimento de comentários semelhantes de analistas europeus em meu espaço sobre o arsenal nuclear ucraniano, decidi elaborar um único texto com o intuito de esclarecer aqueles que possam não estar cientes do assunto.



Prestem atenção: Após o colapso da União Soviética, consolidou-se no discurso político e mediático ocidental a ideia de que a Ucrânia “abdicou” de um vasto arsenal nuclear próprio, abrindo mão de um instrumento decisivo de dissuasão estratégica. Esta narrativa, embora recorrente, não resiste a uma análise técnica e histórica rigorosa.

As ogivas nucleares estacionadas em território ucraniano nunca foram propriedade da Ucrânia enquanto Estado soberano. Tratava-se de armamento estratégico da União Soviética, distribuído por várias repúblicas federadas por razões logísticas e geográficas, mas sempre sob controlo centralizado. O sistema nuclear soviético assentava numa cadeia de comando extremamente rígida, na qual os códigos de lançamento, os centros de decisão e a autoridade final permaneciam em Moscovo.

A Ucrânia herdou a presença física dessas armas, mas não o seu controlo operacional. Não possuía os códigos de activação, não comandava os sistemas de lançamento nem detinha autonomia sobre a doutrina de emprego nuclear. Sem esses elementos, falar de “poder nuclear ucraniano” é tecnicamente incorreto. A posse territorial de ogivas não equivale à capacidade efectiva de as utilizar.

É verdade que Kiev poderia, em teoria, ter tentado reter, negociar ou mesmo alienar parte desse material num contexto de desagregação caótica do espaço soviético. Contudo, essa hipótese esbarrava em constrangimentos políticos, técnicos e internacionais quase intransponíveis, desde a pressão das grandes potências até à incapacidade de manter e operar um arsenal dessa natureza.

O Memorando de Budapeste, frequentemente invocado como prova de uma renúncia estratégica ucraniana, deve ser lido à luz dessa realidade: a Ucrânia não abriu mão de um poder que nunca exerceu plenamente. O que ocorreu foi a regularização jurídica e política de uma situação de facto, enquadrada pelos interesses das potências nucleares e pela nova ordem internacional pós-Guerra Fria.

Persistir na narrativa de que a Ucrânia era uma potência nuclear soberana é confundir armazenamento com soberania, localização com controlo e mito político com realidade histórica. Um debate sério sobre segurança europeia exige abandonar simplificações convenientes e encarar os factos com rigor.

Acredito que a educação no continente europeu possa não ser tão rigorosa quanto se espera.

APROFUNDAR AS DESIGUALDADES

 A reinspeção dos veículos automóveis constitui, em teoria, uma estratégia eficaz para reduzir a circulação de viaturas obsoletas nas vias urbanas e rurais do país, contribuindo para a melhoria da segurança rodoviária e para a proteção de motoristas, passageiros e peões. O princípio é legítimo: garantir que apenas veículos em condições técnicas aceitáveis continuem a circular, reduzindo acidentes provocados por falhas mecânicas.

Contudo, na prática, esta medida levanta sérias questões de justiça social e de adequação à realidade económica nacional. Muitos proprietários enfrentam enormes dificuldades para obter aprovação nas inspeções, dado o elevado rigor técnico exigido, que transforma o processo num verdadeiro obstáculo, senão mesmo numa tarefa quase impraticável para a maioria dos cidadãos.

Importa sublinhar que Angola não é um país produtor de veículos nem de sobressalentes automotivos em escala significativa. A dependência quase total de importações, associada ao elevado custo das peças, à escassez de oficinas devidamente apetrechadas e ao fraco poder de compra da população, coloca o cidadão comum numa posição de clara desvantagem. Nestes termos, a reinspeção, tal como está concebida e aplicada, acaba por penalizar quem não dispõe de alternativas viáveis de mobilidade.

Assim, uma política pública desta natureza, para ser verdadeiramente eficaz e socialmente justa, deveria ser acompanhada de medidas complementares, como o incentivo à renovação do parque automóvel, facilitação do acesso a peças e serviços, criação de linhas de apoio ou períodos de adaptação. Sem essas salvaguardas, a reinspeção corre o risco de deixar de ser um instrumento de segurança rodoviária para se transformar num mecanismo que lesa o cidadão e aprofunda desigualdades.

Artur Cussendala T


erça, 30DEZ2025

OUSADIA OU COBARDIA

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elensky não manda nada nisso. Quem acredita que um presidente que vive de ajudas externas decide, por iniciativa própria, atacar simbolicamente a casa de Vladimir Putin, ou é ingénuo ou faz de conta que não percebe como funciona o poder real. Este tipo de operação não está ao alcance de uma marioneta útil. É coisa de gente grande, de Estados que mandam, de serviços secretos com décadas de experiência em operações sujas.

Tudo aponta para uma jogada ocidental para rebentar qualquer hipótese de negociação que não passe por eles. Quando as conversas começam a ganhar corpo fora do controlo de Washington, Londres ou Bruxelas, aparece sempre uma provocação “misteriosa”. Não é coincidência, é método. Guerra também é isso: empurrar o adversário para uma reacção irracional e depois posar de vítima.

Os drones até podem ter sido abatidos e nunca se provar oficialmente que o alvo era a residência do presidente russo, mas a mensagem foi entregue. E no Kremlin mensagens dessas não se ignoram. A Rússia não esquece, não perdoa e responde sempre. O problema é que a resposta raramente atinge quem provocou. Os verdadeiros autores estão bem sentados nas suas capitais europeias, protegidos por protocolos e bunkers, enquanto quem vai pagar a factura são os civis ucranianos.

No fim das contas, esta guerra deixou de ser sobre a Ucrânia há muito tempo. O país é apenas o campo de batalha onde potências disputam influência, testam armas e acertam contas antigas. Zelensky é o rosto do conflito, mas não é o cérebro. E quando a vingança russa vier — porque virá — não será cirúrgica nem pedagógica. Será brutal. E, como sempre, os inocentes ficarão no meio do fogo cruzado, enquanto os verdadeiros responsáveis continuam longe, intocáveis e a discursar sobre democracia.


Artur Cussendala 

Terça, 30DEZ2025

A MORIMBUNDA UNIÃO AFRICANA



Por: Artur Cussendala Segunda, 05JAN2026


O mundo está em plena convulsão, com guerras, sanções e disputas abertas pelo controlo do poder global. Ainda assim, a União Africana permanece muda, paralisada, como se nada de relevante estivesse a acontecer. Perante a transformação acelerada da ordem internacional, a África continua sem voz própria, sem linha estratégica e sem capacidade de se afirmar como sujeito da História.

A União Europeia, por sua vez, refugia-se no discurso da “ditadura de Maduro” para evitar enfrentar o essencial: a sua dependência estrutural dos Estados Unidos. Não é uma questão de valores democráticos, mas de medo político e subserviência estratégica. A UE fala em princípios, mas age por alinhamento automático, mesmo quando isso contraria os seus próprios interesses económicos, energéticos e geopolíticos.

A posição africana é ainda mais preocupante: a da indefinição crónica.

No Sahel, países como Mali, Burkina Faso e Níger romperam com a tutela francesa não por ideologia, mas por cansaço. Décadas de presença militar ocidental não trouxeram segurança nem desenvolvimento. O espaço deixado foi rapidamente ocupado por novos actores, como a Rússia, não por afinidade, mas por pragmatismo. A União Africana, entretanto, limitou-se a comunicados formais, sem apresentar uma alternativa africana para a segurança regional.

Na Líbia, a destruição do Estado é consequência directa da intervenção da NATO em 2011. Desde então, o país transformou-se num campo de disputa entre potências estrangeiras como a Turquia, Rússia, Emirados, França, enquanto a África observa a sua própria região mergulhar no caos, sem capacidade de impor uma solução africana para um problema africano.

No Sudão, o conflito entre facções militares empurrou o país para um colapso humanitário grave, com impactos directos sobre o Corno de África e o Mar Vermelho. Mais uma vez, a mediação com algum peso veio de fora do continente, enquanto a União Africana ficou reduzida ao papel de espectadora.

Na República Democrática do Congo, uma das regiões mais ricas do mundo em recursos estratégicos como o cobalto, coltan e terras raras, o Estado continua frágil e o conflito permanente. Potências globais disputam silenciosamente o controlo das matérias-primas essenciais à economia do futuro, enquanto a África falha em transformar a sua riqueza natural em soberania económica e industrial.

Mesmo países relativamente estáveis, como Angola, continuamos excessivamente dependentes das flutuações externas — petróleo, financiamento internacional, decisões tomadas fora do continente — sem uma estratégia africana comum que proteja interesses colectivos num mundo cada vez mais multipolar.

O problema não é a falta de recursos, nem de população, nem de importância geopolítica. O problema é político. A União Africana não funciona como um bloco de poder, mas como uma estrutura burocrática sem capacidade de decisão real. Não define prioridades estratégicas, não consolida alianças, não estabelece linhas vermelhas.

A chamada “neutralidade africana” não é estratégia; é omissão.

Num mundo onde todos disputam espaço, influência e controlo de recursos, quem não se posiciona acaba posicionado por outros. A África corre o risco de repetir o seu papel histórico: palco de disputas alheias, nunca autora do seu próprio destino.

A questão já não é se a África pode definir o seu lugar no mundo. Pode. A verdadeira questão é até quando continuará a adiar essa decisão — e qual será o custo desse adiamento para as próximas gerações.

 Começaram hoje as eleições presidenciais em Portugal e eu apoio um candidato e explico as razões:



Gostaria de ver André Ventura como Presidente de Portugal por uma razão essencialmente política e estratégica. Ventura representa, goste-se ou não, uma ruptura com o consenso europeu instalado, aproximando-se do perfil de um “mini-Trump” europeu: populista, confrontacional e avesso às ortodoxias de Bruxelas.

No plano internacional, a sua postura céptica em relação à guerra na Ucrânia contrasta com a submissão automática de grande parte da elite política europeia aos interesses da NATO e dos Estados Unidos. Um Presidente português menos alinhado com essa lógica belicista poderia contribuir para uma Europa mais pragmática, menos ideológica e menos disposta a sacrificar os seus próprios interesses económicos e sociais em conflitos que não controla.

Mas há um ponto ainda mais relevante para Angola. Um Ventura em Belém dificultaria seriamente a vida aos corruptos angolanos que usam Portugal como refúgio seguro para capitais de origem duvidosa. Durante anos, Portugal foi tratado como uma extensão offshore de Angola, onde dinheiro público desviado encontrava portas abertas, cumplicidades políticas e silêncio institucional.

Um presidente com discurso duro contra corrupção, imigração selectiva e lavagem de capitais teria pouco interesse em manter esse pacto tácito de conveniência. Isso obrigaria as elites angolanas a repensarem a exportação do nosso dinheiro para Lisboa e, quem sabe, a encarar com mais seriedade a necessidade de investir em Angola, onde esse capital faz realmente falta.

Em suma, André Ventura não seria uma solução milagrosa nem um democrata clássico, mas poderia funcionar como um factor de perturbação útil: para Portugal, ao romper com a hipocrisia política instalada; e para Angola, ao fechar uma porta que durante demasiado tempo esteve escancarada para a fuga de recursos e responsabilidades.


Artur Cussendala  Domingo, 11JAN2026

A ÉBOLA...

Há cerca de dez anos, escrevi algo semelhante e retorno ao tema porque sinto profundamente que há uma força invisível por trás de certos fen...