sábado, 25 de abril de 2026

MANDELA, O HEROI DOS PULAS TEM CULPA


 A recorrência da violência xenófoba na África do Sul não é um fenómeno isolado nem inesperado; é antes o sintoma visível de tensões sociais profundas que a chamada “nação arco-íris” nunca conseguiu resolver plenamente. O ideal de convivência harmoniosa entre diferentes grupos étnicos e culturais permanece, em grande medida, confrontado diariamente por desigualdades estruturais e frustrações acumuladas.

Importa sublinhar que esta violência não se dirige exclusivamente a estrangeiros. Ela emerge de um contexto mais amplo de exclusão económica, desemprego persistente e competição por recursos escassos. Nesse cenário, o estrangeiro transforma-se num alvo fácil, não por ser a causa dos problemas, mas por ser a sua face mais visível.

O legado de Nelson Mandela continua a ser, simultaneamente, admirável e insuficiente. A sua liderança foi decisiva para evitar um conflito civil de grandes proporções e para estabelecer as bases de um Estado democrático inclusivo. Contudo, a prioridade dada à reconciliação política não foi acompanhada por uma transformação económica estrutural capaz de desmantelar, com igual profundidade, as heranças do Apartheid. O resultado foi a manutenção de desigualdades que continuam a alimentar ressentimentos e tensões sociais.
Mais do que um “erro” de liderança, o que se observa é um dilema histórico. Mas como corrigir injustiças profundas sem provocar instabilidade sistémica? Os governos que sucederam a Mandela herdaram um país politicamente pacificado, mas economicamente fragmentado e, em muitos casos, falharam em traduzir estabilidade política em progresso social tangível.
A este quadro interno já frágil somam-se pressões externas cada vez mais intensas. A migração, a instabilidade no Oriente Médio, particularmente em cenários de conflito que levem ao bloqueio do Estreito de Ormuz por onde circula uma parte significativa do comércio mundial, tem efeitos globais imediatos, assim aumentam os preços da energia, encarecem os transportes e pressão sobre cadeias de abastecimento. Economias já vulneráveis, como a sul-africana e maior parte dos países da África, tendem a sentir esses choques de forma mais aguda, agravando o custo de vida e intensificando a competição por recursos básicos.
Neste contexto, a frustração social ganha novos combustíveis. O descontentamento económico, amplificado por choques externos, encontra expressão em formas de violência interna e muitas vezes dirigidas contra os mais expostos, incluindo imigrantes.

Reformas estruturais são, sem dúvida, necessárias, mas a sua viabilidade depende sobretudo de factores internos como a qualidade da governação, capacidade institucional, combate à corrupção e construção de um consenso político duradouro.
Em última análise, a violência xenófoba não é a causa, mas a consequência. É o reflexo de um contrato social fragilizado, onde a promessa de inclusão ainda não se materializou para uma parte significativa da população. Enquanto essa promessa continuar por cumprir e enquanto choques externos continuarem a expor fragilidades internas, a “nação arco-íris” permanecerá menos como uma realidade consolidada e mais como um ideal por alcançar.

Neste momento, faço um apelo a todos que possuem parentes naquele país para que procurem locais seguros ou considerem a saída imediata. Não tenho conhecimento se o MIREX já emitiu orientações nesse sentido, mas é imprescindível tomar precauções até que a situação esteja sob controlo.

Artur Cussendala Sábado, 25ABR2926

quinta-feira, 23 de abril de 2026

QUANDO A BARBA DO VIZINHO ARDE ...

O novo surto de xenofobia na África do Sul não pode ser tratado apenas como irracionalidade popular. Ele é, antes de tudo, o reflexo de um fracasso político profundo. Quando o Estado falha em garantir emprego, segurança económica e dignidade aos seus cidadãos, cria-se um ambiente onde a revolta social procura alvos e, quase sempre, esses alvos são os mais vulneráveis e no caso os estrangeiros.

É legítimo que qualquer nação coloque os seus cidadãos no centro das suas políticas públicas. Um país existe, em primeiro lugar, para servir o seu povo. Ignorar isso, em nome de discursos abstratos de integração, é negar a própria base da soberania nacional.
No entanto, é intelectualmente desonesto atribuir aos estrangeiros a responsabilidade pela crise. A presença de imigrantes em sectores económicos não acontece por acaso, acontece porque há falhas estruturais como a ausência de apoio ao empreendedor nacional, falta de acesso ao crédito, sistemas de formação ineficazes e uma economia incapaz de absorver a sua própria mão-de-obra.

Em Angola, o cenário não é diferente. A título de exemplo: a exploração do Petróleo é feita por norte-americanos ou franceses; o negócio grossista alimentar é feito por libaneses; os comércio de auto peças por nigerianos; o comércio realista por chineses e oeste africanos e até a venda de inertes e água, está na mão de chineses e cubanos. Cresce a percepção de que determinados sectores estão nas mãos de estrangeiros, enquanto muitos angolanos enfrentam desemprego e precariedade. Mas essa realidade não é fruto de uma “invasão económica” é consequência directa de políticas públicas frágeis e de um modelo económico que não prioriza, de forma efectiva, o cidadão nacional.

Defender que os estrangeiros e em especial os africanos contribuam para o desenvolvimento dos seus próprios países é uma posição legítima. Mas isso só será possível quando existirem Estados capazes de oferecer condições reais de vida, trabalho e progresso. Enquanto isso não acontecer, a migração continuará a ser uma válvula de escape inevitável.
A solução, portanto, não está na hostilidade nem na exclusão, mas na afirmação clara de três pilares, a saber:

- prioridade efectiva ao cidadão nacional nas políticas económicas;

- regulação firme e transparente da imigração;

- responsabilização política dos governos pela incapacidade de gerar oportunidades.

Sem isso, continuaremos a assistir ao mesmo ciclo, onde os Estados falham, populações revoltam-se, estrangeiros são culpados e nada de estrutural muda.

O governo angolano deveria adotar uma postura cautelosa, pois, actualmente, são os sul-africanos que recorrem à violência contra estrangeiros, mas amanhã tal fenômeno poderá afectar as cidades estrangeiros em Angola e angolanos de maneira trágica nas nossas pacatas cidades e vilas.

Artur Cussendala Quinta, 23ABR2026
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sábado, 11 de abril de 2026

FOMOS ENGANADOS?




Há cinquenta anos, em um período marcado pela limitada disponibilidade de tecnologia avançada, a humanidade realizou a extraordinária façanha de enviar astronautas à Lua, enfrentando o desconhecido e navegando quase que às cegas pelo espaço. Durante essa histórica missão, não apenas conseguiram pousar em segurança no solo lunar, mas também transmitiram ao vivo, em tempo real, tanto pela televisão quanto pelo rádio, directamente da superfície lunar, um feito monumental para a época que capturou a imaginação de milhões ao redor do mundo. Em contraste, actualmente, vivemos em uma era de tecnologia abundante e sofisticada, que nos oferece a capacidade de sonhar com viagens a Marte e a exploração quase completa dos confins do nosso sistema solar. Entretanto, paradoxalmente, para planejar o envio de uma nova equipe ao solo lunar, torna-se necessário o deslocamento e a dedicação de uma eq

uipe de pesquisa, focada em analisar e estudar detalhadamente o percurso a ser seguido. Isso levanta a intrigante questão: será mesmo que a humanidade já deixou sua pegada na superfície lunar, ou estaria essa história envolta em dúvidas e mistérios? 

Eu, pessoalmente, ainda guardo minhas reservas e questionamentos sobre este marco da história espacial.

Artur Cussendala Sábado, 11ABR2026

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A HUMILHAÇÃO DOS "FORTES"...


Aceitar um cessar-fogo condicionado à análise de propostas do adversário dificilmente pode ser visto, de forma simplista, como uma “derrota humilhante” de uma superpotência como os Estados Unidos. Na geopolítica, recuos táticos e pausas operacionais fazem parte de estratégias mais amplas, onde o tempo, a reposição de capacidades e a gestão de alianças contam tanto quanto o poder militar bruto.

Ainda assim, o facto de uma proposta com maior número de pontos  (como a iniciativa norte-americana) não ter sido aceite como base inicial de diálogo, enquanto a do Irão ganha centralidade, pode ser interpretado como um sinal de perda de iniciativa política no terreno diplomático. Isso não significa necessariamente fraqueza estrutural, mas revela que o adversário conseguiu impor o ritmo e os termos do debate, algo que tem peso simbólico e estratégico.

Por outro lado, o comportamento do Irão demonstra uma combinação de resiliência, disciplina e cálculo estratégico. Mesmo enfrentando dois adversários tecnologicamente superiores, conseguiu manter capacidade de resposta suficiente para evitar uma capitulação rápida, o que, por si só, já altera a percepção de equilíbrio de forças.

Assim, o cessar-fogo pode ser lido sob duas perspectivas não mutuamente exclusivas: por um lado, uma pausa estratégica dos EUA para reavaliar custos, reposicionar meios e consolidar apoios; por outro, uma vitória tática do Irão no plano político-diplomático, ao conseguir trazer o adversário para um terreno de negociação mais favorável.

Mais do que uma humilhação definitiva, o que está em causa é uma disputa pela narrativa e pelo controlo do tempo, dois elementos cruciais em conflitos assimétricos, onde nem sempre vence quem tem mais poder, mas quem melhor o gere.


Artur Cussendala Quarta-feira, 08ABR2026

TESTE DE SOFÁ

  EU TAMBÉM SOU HOMEM E ESTOU COM O DIKOTA. Antes de se condenar alguém na praça pública, é preciso separar moralismo, inveja e justiça. Pe...