A recorrência da violência xenófoba na África do Sul não é um fenómeno isolado nem inesperado; é antes o sintoma visível de tensões sociais profundas que a chamada “nação arco-íris” nunca conseguiu resolver plenamente. O ideal de convivência harmoniosa entre diferentes grupos étnicos e culturais permanece, em grande medida, confrontado diariamente por desigualdades estruturais e frustrações acumuladas.
Importa sublinhar que esta violência não se dirige exclusivamente a estrangeiros. Ela emerge de um contexto mais amplo de exclusão económica, desemprego persistente e competição por recursos escassos. Nesse cenário, o estrangeiro transforma-se num alvo fácil, não por ser a causa dos problemas, mas por ser a sua face mais visível.
O legado de Nelson Mandela continua a ser, simultaneamente, admirável e insuficiente. A sua liderança foi decisiva para evitar um conflito civil de grandes proporções e para estabelecer as bases de um Estado democrático inclusivo. Contudo, a prioridade dada à reconciliação política não foi acompanhada por uma transformação económica estrutural capaz de desmantelar, com igual profundidade, as heranças do Apartheid. O resultado foi a manutenção de desigualdades que continuam a alimentar ressentimentos e tensões sociais.
Mais do que um “erro” de liderança, o que se observa é um dilema histórico. Mas como corrigir injustiças profundas sem provocar instabilidade sistémica? Os governos que sucederam a Mandela herdaram um país politicamente pacificado, mas economicamente fragmentado e, em muitos casos, falharam em traduzir estabilidade política em progresso social tangível.
A este quadro interno já frágil somam-se pressões externas cada vez mais intensas. A migração, a instabilidade no Oriente Médio, particularmente em cenários de conflito que levem ao bloqueio do Estreito de Ormuz por onde circula uma parte significativa do comércio mundial, tem efeitos globais imediatos, assim aumentam os preços da energia, encarecem os transportes e pressão sobre cadeias de abastecimento. Economias já vulneráveis, como a sul-africana e maior parte dos países da África, tendem a sentir esses choques de forma mais aguda, agravando o custo de vida e intensificando a competição por recursos básicos.
Neste contexto, a frustração social ganha novos combustíveis. O descontentamento económico, amplificado por choques externos, encontra expressão em formas de violência interna e muitas vezes dirigidas contra os mais expostos, incluindo imigrantes.
Reformas estruturais são, sem dúvida, necessárias, mas a sua viabilidade depende sobretudo de factores internos como a qualidade da governação, capacidade institucional, combate à corrupção e construção de um consenso político duradouro.
Em última análise, a violência xenófoba não é a causa, mas a consequência. É o reflexo de um contrato social fragilizado, onde a promessa de inclusão ainda não se materializou para uma parte significativa da população. Enquanto essa promessa continuar por cumprir e enquanto choques externos continuarem a expor fragilidades internas, a “nação arco-íris” permanecerá menos como uma realidade consolidada e mais como um ideal por alcançar.
Neste momento, faço um apelo a todos que possuem parentes naquele país para que procurem locais seguros ou considerem a saída imediata. Não tenho conhecimento se o MIREX já emitiu orientações nesse sentido, mas é imprescindível tomar precauções até que a situação esteja sob controlo.
Artur Cussendala Sábado, 25ABR2926

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