segunda-feira, 11 de maio de 2026

QUANDO O MILITANTE VIRA "MILITONTO"

 


É cada vez mais frequente vermos nas redes sociais militantes partidários  com particular destaque para os “kwachas”, repetirem quase de forma mecânica o velho refrão de que “as falhas da UNITA são toleráveis porque o partido nunca governou Angola nos 50 anos de independência”. Mas será mesmo um argumento sério ou apenas mais um slogan político destinado a anestesiar consciências?

A narrativa, além de simplista, ignora deliberadamente a complexidade da própria história angolana. Desde 1975, a UNITA não foi um mero espectador da vida nacional. Durante largos períodos da guerra civil, controlou extensas parcelas do território, chegando a dominar cerca de 75% do país. Explorou recursos, administrou zonas sob sua influência, montou estruturas políticas e militares próprias e construiu um exército regular de milhares de homens, muitas vezes melhor equipado do que as forças do próprio Estado angolano.

Após o fim da guerra, com a morte de Jonas Savimbi, a UNITA integrou o GURN (Governo de Unidade e Reconciliação Nacional), passando igualmente a participar da máquina política e institucional do país. Portanto, tentar vender a ideia de que o partido viveu totalmente afastado das responsabilidades nacionais é uma leitura historicamente desonesta e intelectualmente preguiçosa.


Os militantes conscientes, independentemente da cor partidária, precisam despir-se do fanatismo e abandonar a lógica dos slogans. A política não pode continuar refém de torcidas organizadas onde tudo é relativizado em função da conveniência partidária. Defender o indefensável apenas porque “o meu partido também faz” é um dos sintomas mais perigosos da degradação do debate público em Angola.


A reflexão surge na sequência de imagens colocadas em circulação pela própria UNITA, mostrando militantes no interior do país empilhados em carroçarias de camionetas, transportados em condições indignas, quase como carga animal. O mais perturbador, porém, não foi apenas a imagem em si, mas a tentativa de justificar a situação estabelecendo paralelos com práticas semelhantes atribuídas ao MPLA como se um erro pudesse servir de absolvição para outro.

Não pode haver normalização da indignidade humana apenas porque ela já foi praticada pelo adversário político. O que mais preocupa é assistir jovens e pseudo-intelectuais a transformarem o absurdo em algo aceitável, desde que isso sirva para proteger líderes partidários que, ironicamente, fazem estas mesmas viagens instalados em viaturas topo de gama, climatizadas e confortáveis.

A juventude angolana, profundamente partidarizada e cada vez mais emocionalmente capturada pela lógica tribal da política, parece em muitos aspectos pior do que as gerações anteriores. Perde-se a capacidade crítica, substituída pela defesa automática do “nosso lado”, mesmo quando este reproduz exactamente os vícios que antes condenava.


E talvez seja esse o maior drama nacional, já não se discute o certo e o errado, mas apenas quem cometeu o erro.


Por: Artur Cussendala, SEGUNDA, 11MAI2026

QUANDO O MILITANTE VIRA "MILITONTO"

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