Por: Artur Cussendala Segunda, 05JAN2026
O mundo está em plena convulsão, com guerras, sanções e disputas abertas pelo controlo do poder global. Ainda assim, a União Africana permanece muda, paralisada, como se nada de relevante estivesse a acontecer. Perante a transformação acelerada da ordem internacional, a África continua sem voz própria, sem linha estratégica e sem capacidade de se afirmar como sujeito da História.
A União Europeia, por sua vez, refugia-se no discurso da “ditadura de Maduro” para evitar enfrentar o essencial: a sua dependência estrutural dos Estados Unidos. Não é uma questão de valores democráticos, mas de medo político e subserviência estratégica. A UE fala em princípios, mas age por alinhamento automático, mesmo quando isso contraria os seus próprios interesses económicos, energéticos e geopolíticos.
A posição africana é ainda mais preocupante: a da indefinição crónica.
No Sahel, países como Mali, Burkina Faso e Níger romperam com a tutela francesa não por ideologia, mas por cansaço. Décadas de presença militar ocidental não trouxeram segurança nem desenvolvimento. O espaço deixado foi rapidamente ocupado por novos actores, como a Rússia, não por afinidade, mas por pragmatismo. A União Africana, entretanto, limitou-se a comunicados formais, sem apresentar uma alternativa africana para a segurança regional.
Na Líbia, a destruição do Estado é consequência directa da intervenção da NATO em 2011. Desde então, o país transformou-se num campo de disputa entre potências estrangeiras como a Turquia, Rússia, Emirados, França, enquanto a África observa a sua própria região mergulhar no caos, sem capacidade de impor uma solução africana para um problema africano.
No Sudão, o conflito entre facções militares empurrou o país para um colapso humanitário grave, com impactos directos sobre o Corno de África e o Mar Vermelho. Mais uma vez, a mediação com algum peso veio de fora do continente, enquanto a União Africana ficou reduzida ao papel de espectadora.
Na República Democrática do Congo, uma das regiões mais ricas do mundo em recursos estratégicos como o cobalto, coltan e terras raras, o Estado continua frágil e o conflito permanente. Potências globais disputam silenciosamente o controlo das matérias-primas essenciais à economia do futuro, enquanto a África falha em transformar a sua riqueza natural em soberania económica e industrial.
Mesmo países relativamente estáveis, como Angola, continuamos excessivamente dependentes das flutuações externas — petróleo, financiamento internacional, decisões tomadas fora do continente — sem uma estratégia africana comum que proteja interesses colectivos num mundo cada vez mais multipolar.
O problema não é a falta de recursos, nem de população, nem de importância geopolítica. O problema é político. A União Africana não funciona como um bloco de poder, mas como uma estrutura burocrática sem capacidade de decisão real. Não define prioridades estratégicas, não consolida alianças, não estabelece linhas vermelhas.
A chamada “neutralidade africana” não é estratégia; é omissão.
Num mundo onde todos disputam espaço, influência e controlo de recursos, quem não se posiciona acaba posicionado por outros. A África corre o risco de repetir o seu papel histórico: palco de disputas alheias, nunca autora do seu próprio destino.
A questão já não é se a África pode definir o seu lugar no mundo. Pode. A verdadeira questão é até quando continuará a adiar essa decisão — e qual será o custo desse adiamento para as próximas gerações.

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