segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

AS AVENTURAS DO VENTURA É A RELAÇÃO COM ANGOLA


Por Artur Cussendala



A minha análise começa a confirmar-se e, mais importante do que o resultado eleitoral em Portugal, confirma-se o impacto que esse resultado poderá ter sobre Angola. Quem leu com atenção os meus textos anteriores percebeu que a ascensão de André Ventura não é um fenómeno isolado, nem meramente interno à política portuguesa. Ela insere-se num movimento mais amplo de ruptura com um sistema que, durante décadas, foi permissivo, cúmplice e confortável para interesses externos pouco transparentes — muitos deles com origem em África, e em particular em Angola.
É preciso dizê-lo sem rodeios: André Ventura representa uma direita radical, com traços autoritários e populistas, e não é alguém por quem eu nutra simpatia política. No entanto, análise política séria não se faz com gostos pessoais, faz-se com leitura fria da realidade e avaliação de consequências. E, desse ponto de vista, a eventual vitória de Ventura pode produzir efeitos que, paradoxalmente, beneficiem Angola mais do que prejudicam.
Durante anos, Portugal funcionou como extensão informal do sistema angolano de extracção de riqueza: capitais desviados, investimentos de fachada, compras de imóveis de luxo, tratamentos médicos, lazer e ostentação. Tudo feito com uma facilidade quase obscena, sustentada por uma elite política portuguesa que confundiu relações históricas com promiscuidade financeira. Portugal foi menos parceiro e mais lavandaria.
Se André Ventura chegar ao poder e cumprir, ainda que parcialmente, o que promete — maior controlo financeiro, escrutínio de capitais estrangeiros, fim do “vale tudo” — isso representará um travão objectivo a esse circuito viciado. Não por amor a Angola, evidentemente, mas por interesse interno português. E é precisamente aí que Angola ganha.
Um Portugal menos permissivo obriga as elites angolanas a fazerem o que sempre evitaram: investir em casa, responder internamente, prestar contas ao seu próprio povo. O fim da fuga confortável de capitais e da impunidade externa pode funcionar como mecanismo indirecto de moralização nacional. Não por virtude, mas por constrangimento.
Convém também desfazer uma narrativa conveniente: o crescimento de Ventura não nasce do racismo nem da ignorância popular, como muitos gostam de repetir. Ele nasce do fracasso das elites tradicionais portuguesas, que normalizaram abusos, fecharam os olhos à corrupção e transformaram o Estado num espaço capturado por interesses cruzados. Ventura é sintoma, não causa.
Do ponto de vista angolano, a continuidade desse sistema seria muito mais prejudicial do que uma ruptura desconfortável. A estabilidade aparente beneficiou sempre os mesmos: políticos, empresários oportunistas e intermediários de luxo. O cidadão comum — em Portugal e em Angola — ficou a pagar a factura.
Não se trata, portanto, de apoiar André Ventura como modelo político ou referência moral. Trata-se de reconhecer que, nas circunstâncias actuais, a sua vitória pode alterar um equilíbrio perverso que Angola nunca conseguiu quebrar sozinha. Às vezes, mudanças externas impõem reformas internas que a vontade política local nunca teve coragem de enfrentar.
Em política real, não se escolhe o ideal. Escolhe-se o impacto. E, se Portugal deixar de ser o porto seguro da corrupção angolana, Angola será forçada a encarar os seus próprios demónios. Isso, por si só, já seria uma mudança histórica.

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