Por: Artur Cussendala Sábado, 03JAN2026
Dado o frequente aparecimento de comentários semelhantes de analistas europeus em meu espaço sobre o arsenal nuclear ucraniano, decidi elaborar um único texto com o intuito de esclarecer aqueles que possam não estar cientes do assunto.
Prestem atenção: Após o colapso da União Soviética, consolidou-se no discurso político e mediático ocidental a ideia de que a Ucrânia “abdicou” de um vasto arsenal nuclear próprio, abrindo mão de um instrumento decisivo de dissuasão estratégica. Esta narrativa, embora recorrente, não resiste a uma análise técnica e histórica rigorosa.
As ogivas nucleares estacionadas em território ucraniano nunca foram propriedade da Ucrânia enquanto Estado soberano. Tratava-se de armamento estratégico da União Soviética, distribuído por várias repúblicas federadas por razões logísticas e geográficas, mas sempre sob controlo centralizado. O sistema nuclear soviético assentava numa cadeia de comando extremamente rígida, na qual os códigos de lançamento, os centros de decisão e a autoridade final permaneciam em Moscovo.
A Ucrânia herdou a presença física dessas armas, mas não o seu controlo operacional. Não possuía os códigos de activação, não comandava os sistemas de lançamento nem detinha autonomia sobre a doutrina de emprego nuclear. Sem esses elementos, falar de “poder nuclear ucraniano” é tecnicamente incorreto. A posse territorial de ogivas não equivale à capacidade efectiva de as utilizar.
É verdade que Kiev poderia, em teoria, ter tentado reter, negociar ou mesmo alienar parte desse material num contexto de desagregação caótica do espaço soviético. Contudo, essa hipótese esbarrava em constrangimentos políticos, técnicos e internacionais quase intransponíveis, desde a pressão das grandes potências até à incapacidade de manter e operar um arsenal dessa natureza.
O Memorando de Budapeste, frequentemente invocado como prova de uma renúncia estratégica ucraniana, deve ser lido à luz dessa realidade: a Ucrânia não abriu mão de um poder que nunca exerceu plenamente. O que ocorreu foi a regularização jurídica e política de uma situação de facto, enquadrada pelos interesses das potências nucleares e pela nova ordem internacional pós-Guerra Fria.
Persistir na narrativa de que a Ucrânia era uma potência nuclear soberana é confundir armazenamento com soberania, localização com controlo e mito político com realidade histórica. Um debate sério sobre segurança europeia exige abandonar simplificações convenientes e encarar os factos com rigor.
Acredito que a educação no continente europeu possa não ser tão rigorosa quanto se espera.

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