terça-feira, 19 de maio de 2026

João Lourenço e a oportunidade perdida de Angola


Desde a independência nacional, Angola atravessou diferentes ciclos políticos e económicos que moldaram profundamente a vida do seu povo. Alguns períodos ficaram marcados pela guerra, outros pela reconstrução nacional e pelo crescimento acelerado impulsionado pelo petróleo. Contudo, o consulado de João Lourenço corre o risco de ser lembrado como uma das fases de maior frustração colectiva da Angola pós-guerra.

Quando João Lourenço chegou ao poder, em 2017, muitos angolanos alimentaram expectativas legítimas de mudança. O combate à corrupção, a promessa de moralização das instituições, a abertura económica e a tão anunciada diversificação da economia surgiam como sinais de uma nova era. O país parecia finalmente pronto para abandonar a excessiva dependência do petróleo e construir bases sólidas para um desenvolvimento sustentável.

Entretanto, quase uma década depois, o sentimento predominante em largos sectores da sociedade é de desencanto.

A economia angolana permanece vulnerável, frágil e excessivamente dependente do crude. A diversificação económica transformou-se num slogan político repetido em discursos oficiais, mas com resultados pouco visíveis na vida concreta da população. Agricultura, indústria transformadora, turismo e produção nacional continuam incapazes de gerar o impacto estrutural prometido ao país.

Enquanto isso, os cidadãos enfrentam diariamente o aumento do custo de vida, o desemprego juvenil, a degradação do poder de compra e o crescimento das desigualdades sociais. Em muitas famílias angolanas, a esperança de prosperidade deu lugar ao sentimento de sobrevivência permanente.

Paradoxalmente, Angola entrou neste período sem o peso destrutivo da guerra civil. Era suposto que o país, décadas após o conflito armado, estivesse numa fase de consolidação económica e expansão social comparável a outras economias africanas emergentes. Mas isso não aconteceu na dimensão esperada.

A percepção de muitos cidadãos é que o país perdeu tempo precioso. Houve reformas, sim, mas frequentemente lentas, contraditórias ou insuficientes para produzir transformação profunda. O combate à corrupção, inicialmente visto como um marco histórico, acabou também envolvido em acusações de selectividade política, alimentando divisões e desconfiança no sistema.

No plano internacional, a chamada diplomacia económica igualmente produziu resultados limitados. Apesar das inúmeras cimeiras, fóruns e aproximações diplomáticas, Angola continua distante dos grandes centros de influência económica global e com reduzida capacidade de atrair investimentos estruturantes capazes de transformar a economia nacional. Em vários momentos, o país pareceu mais reagir aos acontecimentos internacionais do que assumir um papel estratégico relevante na região africana e no mundo.

Há ainda um aspecto político importante: os governos não são avaliados apenas pelas intenções ou pelos discursos, mas sobretudo pelos resultados concretos que deixam na vida das pessoas. E é precisamente nesse ponto que o mandato de João Lourenço enfrenta as críticas mais severas.

A História tende a ser implacável com líderes que chegam ao poder cercados de esperança popular e terminam os seus ciclos deixando frustração social, dificuldades económicas persistentes e promessas incompletas. Muitos angolanos acreditam hoje que o país poderia ter avançado mais, aproveitado melhor os seus recursos e construído uma economia menos dependente e mais inclusiva.

Se nada de estrutural mudar até 2027, é provável que João Lourenço deixe o poder sem a marca histórica de grande reformador que inicialmente muitos lhe atribuíram. Ao invés disso, poderá ficar associado à imagem de uma liderança que recebeu uma oportunidade rara de redefinir Angola no pós-guerra, mas que acabou por não corresponder plenamente às expectativas nacionais.

A grande questão que ficará para a História será simples: como um país tão rico em recursos naturais continuou incapaz de transformar riqueza em prosperidade colectiva?

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