sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A oposição que se divide enquanto sonha governar



Por: Artur Cussendala Quinta, 19FEV2026


Há algo profundamente irónico na actual engenharia política da oposição angolana. Fala-se em alternância, mudança, viragem histórica… mas, internamente, reina uma fragmentação que faria corar qualquer estratega minimamente pragmático.

A UNITA, partido fundado por Jonas Malheiro Savimbi, construiu-se como estrutura de combate, identidade sólida e narrativa própria. Não nasceu para ser satélite de ninguém. Nasceu para disputar poder.

E agora? Fala-se em coligações com o Bloco Democrático e o Partido Liberal. Não por afinidade ideológica profunda, não por convergência estratégica estruturada, mas por necessidade matemática.


Quando um partido maior se junta a partidos que lutam pela própria sobrevivência institucional, não é altruísmo político, é cálculo defensivo. É contenção de danos.

O Bloco Democrático quer continuar a existir.

O Partido Liberal quer começar a existir.

E a UNITA quer continuar a parecer que está a crescer.

Mas crescer não é apenas somar siglas. Crescer é consolidar base, manter unidade e transmitir estabilidade. E é aqui que reside o verdadeiro problema.

A cada ciclo eleitoral, surge mais um dissidente, mais um “novo projecto”, mais uma liderança iluminada que decide que o problema nunca foi estrutural mas pessoal. E assim, a oposição fragmenta-se em pequenas capelas políticas, cada uma convencida de que carrega a verdadeira pureza ideológica.

Enquanto isso, quem observa de fora não vê estratégia. Vê desorganização.


Há um paradoxo curioso nisso tudo, critica-se o partido no poder por hegemonia prolongada mas oferece-se como alternativa uma constelação de egos concorrentes. E política, goste-se ou não, é também percepção. E percepção de instabilidade afasta eleitorado moderado.


Será desespero? Talvez não.

Será fragilidade? Possivelmente.

Será cálculo? Sem dúvida.


Mas há uma linha muito ténue entre estratégia inteligente e sinal de fraqueza estrutural.

Porque se uma coligação fortalece, ela amplia poder.

Se apenas preserva o que já existia, ela revela medo de perder.


2027 poderá não ser o ano do “milagre”. Milagres políticos raramente acontecem onde não há coesão interna. O que pode acontecer é algo mais silencioso, como a consolidação de uma oposição que fala alto, mas chega dividida.

E em política, quem chega dividido, governa dividido, quando governar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

ESTÃO MUDOS E CALADOS


Há ironias políticas que fariam rir, se não fossem tão reveladoras. Uma delas é assistir a certos sectores da UNITA, outrora um movimento de libertação com discurso soberano, a transformarem-se em fãs entusiasmados de agendas importadas da extrema-direita europeia, como se Angola fosse apenas uma extensão suburbana da política portuguesa.

De repente, surgem “analistas” improvisados, "militontos" digitais de ocasião e defensores fervorosos de figuras como André Ventura, líder do CHEGA, um partido cuja retórica política dificilmente teria espaço para muitos dos seus próprios apoiantes africanos, caso estes fossem apenas mais um rosto na fila da imigração aí na avenida de Portugal em Luanda. Mas nas redes sociais tudo é possível e a contradição vira coragem e a submissão ideológica passa por lucidez estratégica, tudo porque o "pula" lá da "Tuga" não tolera os gatunos do MPLA.

No centro deste fenómeno está uma certa elite luso-bujurra-angolano que tentou redesenhar a identidade do maior partido da  oposição, afastando-a da sua raiz histórica angolana para a aproximar de discursos importados, embalados como se fossem sinal de modernidade política. O resultado? Uma base militante barulhenta, repetitiva e cada vez mais desligada das preocupações reais dos angolanos, os famosissimos “combatentes de teclado” ou milicianos digitais como se queira, sempre prontos para a guerra virtual, mas silenciosos quando a realidade política bate à porta.

E o silêncio de hoje nas redes sociais? Não é um acaso. É o eco de uma derrota estrondosa de André Ventura ontem em Portugal. O esvaziamento do novo "mito", o cansaço da narrativa, a queda do “discípulo” que prometia regeneração moral e acabou prisioneiro das próprias contradições e punido nas urnas pelos portugueses de bem. Quando o líder perde aura, os seguidores perdem voz. E quando o marketing político se desfaz, resta apenas o embaraço colectivo (Savimbi deve estar a se revirar na tumba lá em Lopitanga).

O problema não é a UNITA ser de direita ou de esquerda, afinal os partidos evoluem, ideias mudam. O problema é transformar a oposição angolana numa sucursal ideológica de agendas estrangeiras que pouco compreendem a realidade histórica, social e cultural do nosso país e do nosso povo. Uma coisa é cooperação internacional; outra bem diferente é trocar a soberania intelectual por aplausos importados.

A quem serve esta transformação do Galo-Negro? Ao povo angolano que precisa de propostas sérias e enraizadas na sua realidade  ou a um pequeno círculo que prefere parecer moderno lá fora, mesmo que isso signifique perder o rumo cá dentro?

Pronto! Falei mbora...

Artur Cussendala Segunda, 09FEV2026

sábado, 7 de fevereiro de 2026

SALVEM A UNITA PARA O BEM DA DEMOCRACIA


Por Artur Cussendala SEXTA, 07FEV2026

A decisão da filha do fundador da UNITA de avançar para a criação de um novo partido político, rompendo com a liderança de Adalberto Costa Júnior, não pode ser analisada como um facto isolado nem como simples “diversão política”. Trata-se de mais um episódio num longo histórico de fracturas internas que têm marcado a UNITA desde o desaparecimento físico de Jonas Savimbi.



Desde 2002, o partido nunca conseguiu resolver de forma definitiva a tensão entre legado histórico, liderança efectiva e adaptação ao novo contexto político angolano. As sucessivas disputas internas, ora ideológicas, ora personalistas, têm produzido cisões que, em vez de fortalecerem a oposição, a fragmentam e a tornam politicamente previsível e eleitoralmente frágil.

Invocar a “mudança” como justificação para mais uma divisão soa contraditório. A experiência política angolana demonstra que a fragmentação da UNITA não cria alternativas reais ao poder dominante mas sim micro-partidos sem implantação nacional, dependentes de figuras simbólicas e incapazes de disputar o poder de forma séria. Dividir não é reformar; dividir, neste contexto, é enfraquecer.


A ideia de que poderão emergir dois grandes pilares simbólicos, um em torno do nome Savimbi e outro associado aos ideias de Mungai, ignora uma realidade elementar, já que o capital político da UNITA não é hereditário. Não se transmite por laços de sangue nem por apelos emocionais à memória do fundador. Constrói-se com unidade, organização, disciplina interna e ligação real às aspirações populares. Sem isso, o legado transforma-se apenas num instrumento retórico.

Enquanto a oposição se ocupa em disputas internas e projectos paralelos, quem observa tudo com tranquilidade estratégica é o MPLA. Não por virtude própria, mas porque quase todos os partidos recém-criados vão buscar os seus quadros, militantes e eleitorado à UNITA. O efeito prático é a erosão contínua da única força política com capacidade histórica e estrutural para disputar o poder central.

Este padrão repete-se há anos com cisões justificadas em nome da renovação acabam por produzir partidos sem expressão eleitoral, líderes sem base social e uma oposição cada vez mais dispersa. O resultado é uma falsa pluralidade que apenas legitima a manutenção do statu quo.


Angola não carece de mais siglas políticas; carece de uma oposição forte, coesa e estrategicamente madura. Enquanto a UNITA continuar a dividir-se em pequenos projectos personalistas, a chamada “mudança” permanecerá um slogan vazio e o poder continuará exactamente onde sempre esteve.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Os moralistas sem moral

 Depois de ler milhares de páginas, relatórios, depoimentos e investigações ligadas ao caso Jeffrey Epstein, torna-se impossível continuar a fingir inocência ou surpresa. O que este escândalo expõe não é um “caso isolado”, mas o funcionamento real do poder no mundo ocidental.

Por: Artur Cussandala 


Epstein não era um excêntrico rico que se desviou do caminho. Era uma peça funcional de um sistema, frequentado por presidentes, primeiros-ministros, membros da realeza, chefes de serviços secretos, magnatas financeiros e figuras centrais da academia e dos media. O que está documentado é suficiente para concluir que crimes gravíssimos, incluindo a exploração sexual de menores, foram cometidos com conhecimento e cobertura de sectores do Estado.

O mais chocante não é apenas o crime, é o encobrimento organizado. A justiça foi selectiva, as investigações travadas, os processos abafados, as provas desapareceram e os nomes mais poderosos foram cuidadosamente protegidos. Num sistema que se diz democrático e defensor dos direitos humanos, ninguém relevante foi condenado. Isto não é falha: é método.

Fica claro que existe uma elite política e financeira que opera acima da lei, protegida por redes de chantagem, favores cruzados e cumplicidade mútua. Quem entra nesses círculos aceita regras não escritas e aceita silêncio, obediência e lealdade ao sistema. A moral pública é apenas um discurso para consumo das massas.

Não é preciso provar rituais macabros para entender a profundidade da podridão. O simples facto de uma rede de abuso de crianças ter funcionado durante décadas, envolvendo gente do topo do poder mundial, sem consequências reais, já demonstra que o sistema está moralmente falido. Quando a justiça só cai sobre os fracos, deixa de ser justiça e passa a ser instrumento de dominação.

O caso Epstein é um aviso claro para o resto do mundo, incluindo África: o Ocidente não é o árbitro moral que finge ser. Por detrás do discurso civilizacional, dos direitos humanos e da democracia exemplar, existe um poder cínico, violento e hipócrita, disposto a tudo para se manter intacto.

Quem ainda acredita que estas elites governam com base em valores, e não em interesses, chantagem e impunidade, ou não leu os documentos — ou prefere continuar a dormir tranquilo.

A oposição que se divide enquanto sonha governar

Por: Artur Cussendala Quinta, 19FEV2026 Há algo profundamente irónico na actual engenharia política da oposição angolana. Fala-se em alternâ...