terça-feira, 8 de setembro de 2026

A REFORMA

“Fui exonerado e mandado para a reforma sem aviso prévio. Foi uma situação que me apanhou completamente de surpresa.” Sério? Olhando para trás, talvez o seu próprio documento de identidade já trouxesse, há muito, o indício de que esse momento chegaria. E chegou. Há qualquer coisa de irónico quando alguém se mostra surpreendido por envelhecer, como se o tempo fosse uma realidade que só se aplicasse aos outros. A verdade, porém, é simples e incontornável: todos envelhecemos, e todos, mais cedo ou mais tarde, teremos de passar o testemunho. Tenho um filho que trabalha no cerimonial de uma força castrense e que, pela natureza da sua função, acompanha diariamente situações delicadas. O que me relata sobre as consequências de determinadas reformas e exonerações compulsórias baseadas na idade é preocupante. Há pessoas que, ao perderem subitamente o cargo que exerceram durante décadas, entram numa espécie de vazio existencial. Algumas desenvolvem graves perturbações emocionais e, em certos casos, esse sofrimento acaba por ter consequências trágicas. É preciso, contudo, fazer uma distinção importante: o problema não é a reforma em si, mas a forma como a pessoa é preparada para ela. Para muitos, o trabalho deixou de ser apenas uma profissão. Tornou-se identidade, estatuto, reconhecimento social e, em alguns casos, quase uma dependência. Sobretudo quando se trata de cargos de prestígio, acompanhados de privilégios e regalias, abandonar o posto pode ser psicologicamente muito mais difícil do que parece para quem observa de fora. Por isso, chegar à idade da reforma sem qualquer preparação para essa nova etapa da vida é, de certa forma, viver desligado de uma realidade que sempre esteve diante de nós. A reforma não deveria ser encarada como uma sentença, muito menos como o fim da vida produtiva. É o fim de um ciclo profissional e o início de outro. Existe ainda uma questão que raramente queremos discutir com honestidade que é a passagem do bastão para as novas gerações. Quando nos agarramos indefinidamente aos lugares que ocupamos, consciente ou inconscientemente, também podemos estar a fechar portas para aqueles que vêm atrás de nós. Há jovens preparados, qualificados e cheios de vontade de trabalhar, mas que encontram estruturas envelhecidas e oportunidades cada vez mais escassas. Isso não significa que os mais velhos sejam inúteis ou devam ser simplesmente afastados. Pelo contrário. A experiência de quem sai deve servir para formar e orientar quem entra. O conhecimento acumulado ao longo de décadas não deveria desaparecer no momento em que chega a reforma; deveria ser transmitido às novas gerações. O verdadeiro desafio, portanto, não é apenas reformar pessoas. É criar processos de transição dignos, humanos e previsíveis, nos quais o trabalhador saiba com antecedência quando e como deixará o cargo, tenha tempo para se preparar emocional e financeiramente e possa transmitir a sua experiência a quem o substituirá. Precisamos aprender a sair de cena com a mesma dignidade com que um dia entrámos. Porque o problema não está em passar o bastão. O problema está em acreditar que fomos feitos para segurá-lo eternamente. A vida tem ciclos. O trabalho também. E uma sociedade saudável é aquela que sabe respeitar quem sai, preparar quem entra e garantir que nenhum dos dois se sinta descartado. Artur Cussendala - Terça, 08SET 2026

A REFORMA

“Fui exonerado e mandado para a reforma sem aviso prévio. Foi uma situação que me apanhou completamente de surpresa.” Sério? Olhando para...