domingo, 9 de agosto de 2026

A CULPA NÃO PODE MORRER SOLTEIRA

Um palco daquela dimensão não aparece por magia. Não foi montado num quintal, escondido dos olhos de todos, para depois ser levado de reboque até ao local do evento. A sua montagem exigiu tempo, meios e logística. E, durante esse processo, muita gente terá visto o que estava a acontecer. É precisamente por isso que, perante o que aconteceu no Uíge, não podemos discutir apenas o acto que desencadeou o tumulto. É preciso perguntar também, onde estavam as autoridades enquanto tudo era preparado? Que medidas preventivas foram tomadas? Quem avaliou os riscos? E por que razão se permitiu que uma situação potencialmente perigosa chegasse àquele ponto? Eu reprovo o acto de impedir o direito de ir e vir dos citadinos do Uíge e compreendo que as autoridades tenham de garantir a ordem pública. Mas uma coisa não pode servir para esconder a outra. Se havia informações de que o acto era ilícito e propenso a ocorrer tumultos, aglomerações ou outros incidentes, cabia às autoridades agir preventivamente para proteger os cidadãos. O mais preocupante é que, pelas imagens que nos chegaram, quem acabou por pagar a factura foram cidadãos inocentes. Vêem-se senhoras idosas aflitas, no meio do tumulto, algumas a serem pisoteadas e a tentar desesperadamente escapar. São imagens difíceis de digerir e que deveriam interpelar a consciência de todos nós. Por isso, considero legítimo exigir responsabilidades a todos os níveis. Se uma investigação confirmar negligência ou falhas graves na prevenção e gestão da situação, deverão ser responsabilizados os responsáveis pela segurança e pela administração local, incluindo o Governador do Uíge, o comandante provincial da PNA, o delegado do MININT e o administrador municipal, cada um dentro das suas competências e responsabilidades. Da mesma forma, os organizadores do evento devem responder perante a Justiça caso se confirme que violaram a lei ou ignoraram determinações das autoridades. Não se trata de proteger a UNITA, o MPLA ou qualquer outra força política. Trata-se de proteger o cidadão. A ordem pública não pode ser aplicada selectivamente, nem podemos aceitar que as autoridades permaneçam inertes perante uma situação previsivelmente perigosa para depois aparecerem apenas quando o conflito já começou. Precisamos de uma sociedade normalizada, em que a prevenção seja mais importante do que a punição posterior. O Estado deve ser capaz de antecipar os riscos, dialogar com os organizadores, estabelecer condições de segurança e impedir que uma disputa política termine com cidadãos inocentes a correr pela vida. E há uma lição que não podemos ignorar, não basta descobrir quem provocou o incêndio; também é preciso saber quem viu o fumo, tinha obrigação de agir e não agiu. As imagens do Uíge exigem mais do que indignação nas redes sociais. Exigem uma investigação séria, independente e transparente, capaz de determinar responsabilidades políticas, administrativas e criminais, se existirem. Porque, no fim, repito 'a culpa não pode morrer solteira'. @destacar

A CULPA NÃO PODE MORRER SOLTEIRA

Um palco daquela dimensão não aparece por magia. Não foi montado num quintal, escondido dos olhos de todos, para depois ser levado de rebo...