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terça-feira, 18 de agosto de 2026
SERÃO ELES?! ONDE ANDAM AS "BÓFIAS"?
Não acredito em coincidências, mas a sucessão de incêndios em autocarros de transportes públicos em Angola já é grande demais para ser tratada simplesmente como uma série de acidentes isolados. A cada nova notícia de um autocarro em chamas, aumentam as dúvidas e, com elas, a desconfiança dos cidadãos.
É evidente que existem explicações técnicas que devem ser investigadas, a exemplo de falhas mecânicas, problemas eléctricos, falta de manutenção preventiva, combustível ou outros factores relacionados com o estado dos veículos. Mas, perante a repetição dos casos e a proximidade de períodos politicamente sensíveis, também é legítimo perguntar se existe alguma coisa para além do que está à vista.
Não seria a primeira vez que, às vésperas de eleições, surgem acontecimentos que alimentam a insegurança e a desconfiança. Já vimos, em anos anteriores, incêndios ou destruição de armazéns de víveres e veículos privados por este país profundo. Isso não prova que os acontecimentos actuais tenham uma origem criminosa ou política, mas é precisamente por existir esse histórico que as autoridades deveriam investigar cada caso com o máximo de rigor e transparência.
O problema é que, quando não há respostas oficiais convincentes, o espaço deixado pela investigação é rapidamente ocupado pela especulação. E, nesse ambiente, misturam-se factos, rumores, teorias e acusações sem provas. Quando a "bófia" falha em esclarecer, o cidadão começa a construir a sua própria versão dos acontecimentos, algumas vezes acertada, outras completamente equivocada.
Por isso, mais do que apontar o dedo a supostos mandantes sem provas, é preciso exigir respostas para se saber por que razão tantos autocarros estão a incendiar-se? Há um padrão comum entre os casos? As viaturas estavam devidamente mantidas? As causas dos incêndios foram determinadas por perícias independentes? Existem indícios de sabotagem?
Se forem apenas falhas técnicas, que se diga claramente. Se houver negligência, que os responsáveis sejam responsabilizados. E, se houver mão criminosa por detrás destes acontecimentos, que os mandantes e executores sejam identificados e levados à Justiça.
Transportes públicos são um serviço essencial e, em período pré-eleitoral, qualquer fenómeno desta natureza pode ter consequências que vão muito além da perda de um autocarro. Pode afectar a mobilidade, aumentar o medo e alimentar a desconfiança nas instituições.
Não devemos transformar suspeitas em certezas, mas também não devemos tratar como mera coincidência aquilo que merece uma investigação séria. O fogo pode destruir um autocarro em minutos; a falta de respostas pode incendiar a confiança de uma sociedade inteira.
Artur Cussendala 18AGO 2026
domingo, 9 de agosto de 2026
A CULPA NÃO PODE MORRER SOLTEIRA
Um palco daquela dimensão não aparece por magia. Não foi montado num quintal, escondido dos olhos de todos, para depois ser levado de reboque até ao local do evento. A sua montagem exigiu tempo, meios e logística. E, durante esse processo, muita gente terá visto o que estava a acontecer.
É precisamente por isso que, perante o que aconteceu no Uíge, não podemos discutir apenas o acto que desencadeou o tumulto. É preciso perguntar também, onde estavam as autoridades enquanto tudo era preparado? Que medidas preventivas foram tomadas? Quem avaliou os riscos? E por que razão se permitiu que uma situação potencialmente perigosa chegasse àquele ponto?
Eu reprovo o acto de impedir o direito de ir e vir dos citadinos do Uíge e compreendo que as autoridades tenham de garantir a ordem pública. Mas uma coisa não pode servir para esconder a outra. Se havia informações de que o acto era ilícito e propenso a ocorrer tumultos, aglomerações ou outros incidentes, cabia às autoridades agir preventivamente para proteger os cidadãos.
O mais preocupante é que, pelas imagens que nos chegaram, quem acabou por pagar a factura foram cidadãos inocentes. Vêem-se senhoras idosas aflitas, no meio do tumulto, algumas a serem pisoteadas e a tentar desesperadamente escapar. São imagens difíceis de digerir e que deveriam interpelar a consciência de todos nós.
Por isso, considero legítimo exigir responsabilidades a todos os níveis. Se uma investigação confirmar negligência ou falhas graves na prevenção e gestão da situação, deverão ser responsabilizados os responsáveis pela segurança e pela administração local, incluindo o Governador do Uíge, o comandante provincial da PNA, o delegado do MININT e o administrador municipal, cada um dentro das suas competências e responsabilidades.
Da mesma forma, os organizadores do evento devem responder perante a Justiça caso se confirme que violaram a lei ou ignoraram determinações das autoridades.
Não se trata de proteger a UNITA, o MPLA ou qualquer outra força política. Trata-se de proteger o cidadão. A ordem pública não pode ser aplicada selectivamente, nem podemos aceitar que as autoridades permaneçam inertes perante uma situação previsivelmente perigosa para depois aparecerem apenas quando o conflito já começou.
Precisamos de uma sociedade normalizada, em que a prevenção seja mais importante do que a punição posterior. O Estado deve ser capaz de antecipar os riscos, dialogar com os organizadores, estabelecer condições de segurança e impedir que uma disputa política termine com cidadãos inocentes a correr pela vida.
E há uma lição que não podemos ignorar, não basta descobrir quem provocou o incêndio; também é preciso saber quem viu o fumo, tinha obrigação de agir e não agiu.
As imagens do Uíge exigem mais do que indignação nas redes sociais. Exigem uma investigação séria, independente e transparente, capaz de determinar responsabilidades políticas, administrativas e criminais, se existirem.
Porque, no fim, repito 'a culpa não pode morrer solteira'.
@destacar
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