O general Gerarldo Abreu “Kamorteiro”, um dos signatários do Memorando de Paz de 4 de Abril de 2002, revela pormenores sobre a acção do Presidente José Eduardo dos Santos, para que o acordo se concretizasse e fosse o êxito hoje reconhecido internacionalmente.
Actual vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Angolanas, diz com orgulho que a paz lhe permitiu realizar o sonho de menino, ao voltar à escola em 2003 para concluir a licenciatura em História, na Universidade António Agostinho Neto.
Jornal de Angola - Há alguma coisa que considere não ter sido explorada ou valorizada no processo de paz?
General Kamorteiro - Talvez a autenticidade do processo. Nós fazemos parte de uma geração que viu surgir o 25 de Abril. A paz que tivemos de 1974 e 1975 foi efémera, porque não tardou e descambou em guerra. Tivemos depois mais 16 anos de guerra até Bicesse, que também descarrilou. Então viemos para o Memorando de Entendimento do Luena, cuja paz perdura até à data. Não há comparação possível. Só gente desmiolada pode duvidar.
JA - A quem se refere quando fala de gente desmiolada?
GK-Refiro-me às pessoas que apresentam argumentos sem qualquer sustentação e acabam por confundir outras pessoas com as coisas que dizem. O facto de termos a paz não significa que tudo esteja feito. Foram dados passos gigantescos desde que estamos em paz e isso é absolutamente inegável. É impossível ficar indiferente ao facto de Angola estar pela segunda vez como membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.Todos dias chegam a Angola delegações estrangeiras a querer investir. Angola é hoje uma referência mundial. Vejam a centralidade do Kilamba ou mesmo aquela que está no Dundo. Não havia no tempo colonial.
JA-Depois de assinar o memorando disse que os angolanos começavam uma nova era. O que o deixou tão confiante?
GK-Na sequência da morte do presidente da UNITA, Jonas Savimbi, dias depois morre também o vice-presidente. O terceiro homem na hierarquia era o general Paulo Lukamba Gato. E esse estava numa determinada área com outros membros da direcção. Tiveram a iniciativa de criar uma comissão de gestão que, através de canais apropriados, conseguiu entrar em contacto com o Governo. Foi uma análise muito rápida que levou a Comissão de Gestão do partido a concluir que havia predisposição do Governo para uma negociação séria. Nessa altura, uma delegação chefiada pelo actual chefe do Estado-Maior, general Nunda, foi ao local aonde se encontrava o general Lukamba Gato, para transmitir aquilo que espelhava o pensamento do Presidente da República e Comandante em Chefe. Até porque na altura, a 13 de Março, o Governo já tinha declarado cessar-fogo a partir do dia 14.
JA- Quando foi contactado?
GK- Eu vim para este processo no dia 12 de Março. No dia seguinte o general Nunda foi encontrar-se comigo e transmitiu-me aquilo que eram as ideias do Presidente da República. Achei muito interessante.
JA- Que mensagem foi essa?
GK-Disse-me que o Presidente da República desejava conversações sérias e profundas, numa primeira fase, somente entre angolanos. Fazia questão que não houvesse nenhuma interferência externa. Por isso é que às vezes digo que talvez antes nos tivesse faltado maturação e se calhar também tivesse havido excessiva interferência externa. Hoje digo sem medo de errar que a paz que vivemos é uma obra nossa.
JA- Reforçou a confiança?
GK-Recordo-me de um comentário do general Armando da Cruz Neto, estávamos no Lobito, onde também estavam o actual chefe do Estado-Maior general, o general Nunda, e o general Carlos Hendrick. Ao comentar o nosso processo de paz, ele sublinhou que foi bom ter-se feito finca pé naquela altura e seguirmos em frente com o processo sem interferências e com muita firmeza de ambos os lados.
JA-A UNITA tinha condições para prosseguir a guerra?
GK-Podia não ser uma guerra tão sustentável, mas uma confusão seria real. Imaginem aquela gente toda, sem uma orientação. Alguém que lhes dissesse vão para ali ou para lá. Era normal que pensassem em não arriscar e ir até às últimas consequências. Um homem completamente cercado resiste até às últimas consequências.
JA- O que dizer aos jovens sobre o valor da paz?
GK- Alguém me condene por esta expressão, mas vivemos num mundo que está de cabeça para baixo. É um mundo muito violento em que se fala do terrorismo, que se apropriou de certas religiões que historicamente até são pacíficas, para promover a violência. Daí a necessidade de termos muito cuidado. Mesmo os da minha geração que têm de passar o testemunho, devemos dar uma educação muito profunda à nossa juventude para não se perder.
JA- As Forças Armadas são o espelho da reconciliação?
GK-Em relação a essa questão, penso que, mais do que as próprias Forças Armadas, o próprio acordo de paz que se celebrou a 4 de Abril constitui hoje, não só para Angola, mas para África, um paradigma. Uma fonte de conhecimento. Porque são poucos casos de conflitos que terminaram como terminou o nosso. E recordo-me que no dia em que assinamos o memorando, o Presidente da República estendeu um abraço aos signatários deste processo, e minutos depois convidou o então chefe da comissão de gestão da UNITA, Paulo Lukamba Gato, eu e o brigadeiro Marcial Dachala, só mesmo para nos encorajar. Ainda depois disso, não faltaram bocas de alguns cépticos, questionando se aquilo estava mesmo a acontecer. Talvez com alguma razão pelo que se passou com Bicesse, que foi uma grande desilusão para os angolanos. Mas nós nas Forças Armadas fizemos finca pé e dizíamos, já naquela altura, que aqueles que não acreditassem ficariam sozinhos, porque nós iriamos para frente. E isso ajudou bastante o país, porque é uma grande referência naquilo que constitui a unidade ou mesmo coesão nacional. As FAA são uma grande referência, pelo que fizeram e o que têm feito para que esse processo se tornasse no êxito que é hoje.
JA- Recorda das palavras do Presidente da República no encontro após a assinatura do acordo?
GK-Recordo-me bem de uma passagem em que inclusive utilizou a expressão irmãos. E disse: Camaradas, chamei-os aqui como irmãos. O país está dilacerado mas com a vontade de todos vai para frente. O processo é irreversível se houver vontade patriótica. É uma das que me lembro e foi muito forte. Ouvir isso do próprio Presidente deixa marcas.
JA- É frequentemente convidado a falar no estrangeiro sobre o processo de paz angolano e a trajectória das forças armadas. Qual tem sido a reacção das pessoas que o ouvem?
GK- Como disse, o processo de paz angolano deve ser um caso de estudo para África e para o Mundo. Assim como as nossas Forças Armadas. Em Outubro estive em Adis Abeba para falar sobre a trajectória das Forças Armadas e muita gente ficou de boca aberta.Porque nem todos conheciam os pormenores do processo de criação das Forças Armadas Angolanas desde 1991. Foi um processo de avanços e recuos, progressos e retrocessos, mas que no fim deu certo. São processos políticos que não têm caminhos delineados, mas a coisa deu certo.
JA-O que a experiência de Angola pode valer ao Mundo?
GK- Angola praticamente tornou-se no mais requisitado conselheiro dos Estados na África Austral, Central, nos Grandes Lagos, Golfo da Guiné, etc. E também no Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde tenho acompanhado com muita atenção as nossas intervenções, Angola tem dado boas cartadas. Temos passado a nossa experiência e ninguém põe isso em causa.
JA- A experiência de Angola em resolução de conflitos, do Brasil em políticas de redução da pobreza, e de outros países em vários domínios, serviam melhor ao mundo com uma eventual reforma do Conselho de Segurança?
GK- Não tenho a menor dúvida que sim. Países tão importantes e de referência como Angola, África do Sul e Nigéria, dariam bons representantes de África nas Nações Unidas. O actual formato do Conselho de Segurança já vigora há muitos anos. Os tempos são outros, inclusive os próprios conceitos mudaram. Porque não reformular esse órgão? Estamos a caminhar para um mundo multipolar que obriga a que o Conselho de Segurança tenha um formato diferente da que representa hoje.
JA-Teve algum significado especial para si fazer a licenciatura?
GK- Formar-me em história vem desde o tempo do meu avô. E tão logo chegamos, comecei a comprar livros. Pensei que chegara a hora de fazer aquilo que não pude fazer durante os quase 30 anos de guerra. Tudo porque sempre acreditei. Desde a assinatura do processo de paz, disse-o publicamente que a paz em Angola era irreversível e quem não acreditasse ficaria pelo caminho. Do meu salário, todos os meses comprava dois ou três livros. Em 2003 comecei o curso de licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade António Agostinho Neto, e pouco tempo depois fiz o mestrado.
JA- Qual foi o tema do seu mestrado?
GK- Falei do impacto económico e social da ocupação colonial em Angola, o caso do Bié.
JA-Porque não a história do processo de paz?
GK-Houve quem sugerisse isso. Mas em história aprendemos que existem três tempos para se escrever. O tempo longo, que é de 50 a 10 anos, que é talvez o ideal para se escrever a História, o tempo intermédio, de uns 20 a 30 anos. E há o tempo imediato. E no meu caso, embora tenha vivido essa história, contá-la é muito mais difícil. O historiador francês Fernand Braudel chama a esses casos ‘histórias precipitadas’ ou ‘histórias que ainda sangram’, pois os seus protagonistas estão vivos e o que for contado pode ferir susceptibilidades.
JA-Conte-nos a história da sua alcunha?
GK- Essa história remonta o tempo em que pertencia ao Batalhão Fandango, comandado pelo general Kufuna-Yembe. Primeiro pertenci à sua unidade e depois agregou-me à sua segurança, como atirador de morteiro. Num episódio qualquer em Dezembro de 1975 achou que devia chamar-me Kamorteiro, que quer dizer ‘morteiro pequeno’. Decidiu baptizar-me assim porque tinha muita mestria. O nome ficou até 1979, altura em que fui para os meus treinos no exterior. Mas em 1998 ele foi informar a direcção do partido que o meu nome era Kamorteiro. E assim ficou até hoje.
Fonte: Jornal de Angola
Descreve Angola na adversidade e no plural, suas gentes, hábitos e costumes e não só. Sem filosofar e sem estrias nem sofismas, aqui você acompanha Angola e os angolanos no seu melhor.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
segunda-feira, 23 de março de 2015
A Batalha do Cuito Cuanavale - Assalto final ao triangulo do Tumpo
O mapa mostra o terceiro e último fracassado ataque da África do Sul e da UNITA às posições das forças armadas governamentais angolanas no Triângulo do Tumpo. na foto ao lado.
Toda a verdade.
Os angolanos travaram no Cuito Cuanavale a maior batalha militar no continente africano a sul do Sahara. A batalha teve um vencedor, o Povo Angolano, e um derrotado, o regime de apartheid da África do Sul e seus aliados. O comandante das tropas, general de Exército José Eduardo dos Santos, ao felicitar os seus homens lembrou que os combates que durante meses foram “o símbolo da determinação do nosso povo, de vencer ou morrer pela defesa da Pátria”.
Muitos angolanos morreram na Batalha do Cuito Cuanavale, mas o seu sacrifício não foi em vão. Angola libertou o planeta do mais grave crime que alguma vez se cometeu contra a Humanidade, ao esmagar um regime que tinha o racismo como política de Estado.
No dia 23 de Março, segunda-feira, faz 27 anos que Angola, África e o Mundo triunfaram sobre os racistas de Pretória.
Muitos angolanos morreram na Batalha do Cuito Cuanavale, mas o seu sacrifício não foi em vão. Angola libertou o planeta do mais grave crime que alguma vez se cometeu contra a Humanidade, ao esmagar um regime que tinha o racismo como política de Estado.
No dia 23 de Março, segunda-feira, faz 27 anos que Angola, África e o Mundo triunfaram sobre os racistas de Pretória.
Um mau começo
O mês de Março de 1988 começou mal para os invasores. Impôs-se um tempo chuvoso e as chanas do Cuando Cubango ficaram alagadas.
Os invasores sul-africanos e as tropas da UNITA preparam nessa altura o assalto final ao Triângulo do Tumpo.
Aos primeiros minutos do dia 1 de Março, Mike Muller, comandante do 61º Batalhão Mecanizado sul-africano pede o adiamento do ataque porque considera as condições “muito adversas”. O seu superior, coronel McLoughlin, aceita. Às 7h30 a artilharia das FAPLA ataca a posição dos tanques sul-africanos. Mike Muller recua para posições mais seguras. Às oito da manhã, com o céu carregado de nuvens, quatro obuses de “BM21” das FAPLA atingem um camião de apoio “61 Koppie”. Há desorientação entre o inimigo. Às 11h25 os jactos Mig angolanos aproveitam uma aberta no tecto de nuvens baixas e atacam os invasores. Alguns minutos depois, os mísseis “Stinger”, fornecidos pelos Estados Unidos à UNITA, entram em acção e Mike Muller avança com os tanques em direcção ao Triângulo do Tumpo.
Todo este relato está detalhado no livro “War in Angola – The Final South Africa Phase” do especialista sul-africano em assuntos de defesa, Helmoed Roemer Heitman.
Às 13h55, a força de Mike Muller estava a pouco mais de dois quilómetros do Triângulo do Tumpo. Os invasores já viam a ponte sobre o rio Cuito e as árvores à entrada da aldeia de Samaria. Um veículo sapador sul-africano acciona várias minas. A reacção das FAPLA é contundente. Disparam com os morteiros de 120 milímetros, os canhões “D30” e os “BM21”. Um inferno de fogo e metralha envolveu os invasores e a tropa de Jonas Savimbi. Mike Muller responde com morteiros de 81 milímetros. Às 14h22, um super-tanque “Oliphant” detonou uma mina. As FAPLA disparam de frente e do flanco esquerdo.
Os sul-africanos e as unidades da UNITA estavam num campo de minas não convencionais criado pela engenharia angolana. Mais três tanques “Oliphant” detonam minas. Um fica imobilizado porque sofreu danos graves na esteira. Mike Muller entra em desespero e recua. Nessa ocasião, a tropa de Jonas Savimbi já tinha desaparecido. Para “abrir caminho”, a artilharia dos invasores dispara 500 obuses contra as posições das FAPLA. No auge da batalha o próprio tanque “Ratel” do comandate Mike Muller é atingido numa roda. Uma antena foi arrancada pelo fogo das FAPLA.
O tanque de outro sul-africano, Tim Rudman, também fica debaixo de fogo. Um obus de morteiro de 120 milímetros explodiu numa árvore, por cima da sua cabeça. Por sorte, instantes antes Rudman tinha entrado no tanque e baixado a escotilha. Um “Oliphant”, que avançava com soldados da UNITA sentados na parte de trás, à boleia, foi atingido e o canhão arrancado da torre. Os homens de Savimbi morreram.
Os invasores sul-africanos e as tropas da UNITA preparam nessa altura o assalto final ao Triângulo do Tumpo.
Aos primeiros minutos do dia 1 de Março, Mike Muller, comandante do 61º Batalhão Mecanizado sul-africano pede o adiamento do ataque porque considera as condições “muito adversas”. O seu superior, coronel McLoughlin, aceita. Às 7h30 a artilharia das FAPLA ataca a posição dos tanques sul-africanos. Mike Muller recua para posições mais seguras. Às oito da manhã, com o céu carregado de nuvens, quatro obuses de “BM21” das FAPLA atingem um camião de apoio “61 Koppie”. Há desorientação entre o inimigo. Às 11h25 os jactos Mig angolanos aproveitam uma aberta no tecto de nuvens baixas e atacam os invasores. Alguns minutos depois, os mísseis “Stinger”, fornecidos pelos Estados Unidos à UNITA, entram em acção e Mike Muller avança com os tanques em direcção ao Triângulo do Tumpo.
Todo este relato está detalhado no livro “War in Angola – The Final South Africa Phase” do especialista sul-africano em assuntos de defesa, Helmoed Roemer Heitman.
Às 13h55, a força de Mike Muller estava a pouco mais de dois quilómetros do Triângulo do Tumpo. Os invasores já viam a ponte sobre o rio Cuito e as árvores à entrada da aldeia de Samaria. Um veículo sapador sul-africano acciona várias minas. A reacção das FAPLA é contundente. Disparam com os morteiros de 120 milímetros, os canhões “D30” e os “BM21”. Um inferno de fogo e metralha envolveu os invasores e a tropa de Jonas Savimbi. Mike Muller responde com morteiros de 81 milímetros. Às 14h22, um super-tanque “Oliphant” detonou uma mina. As FAPLA disparam de frente e do flanco esquerdo.
Os sul-africanos e as unidades da UNITA estavam num campo de minas não convencionais criado pela engenharia angolana. Mais três tanques “Oliphant” detonam minas. Um fica imobilizado porque sofreu danos graves na esteira. Mike Muller entra em desespero e recua. Nessa ocasião, a tropa de Jonas Savimbi já tinha desaparecido. Para “abrir caminho”, a artilharia dos invasores dispara 500 obuses contra as posições das FAPLA. No auge da batalha o próprio tanque “Ratel” do comandate Mike Muller é atingido numa roda. Uma antena foi arrancada pelo fogo das FAPLA.
O tanque de outro sul-africano, Tim Rudman, também fica debaixo de fogo. Um obus de morteiro de 120 milímetros explodiu numa árvore, por cima da sua cabeça. Por sorte, instantes antes Rudman tinha entrado no tanque e baixado a escotilha. Um “Oliphant”, que avançava com soldados da UNITA sentados na parte de trás, à boleia, foi atingido e o canhão arrancado da torre. Os homens de Savimbi morreram.
Recuo organizado
Segundo Heitman, a situação era “muito grave”. Mas ia piorar para o lado dos racistas sul-africanos. Uma equipa de reconhecimento dos invasores informou que os tanques das FAPLA tinham acabado de abastecer na aldeia de Samaria e avançavam para o Triângulo do Tumpo.
A população de Samaria nunca abandonou a sua terra e teve um papel importante nos combates no Tumpo e na Batalha do Cuito Cuanavale. As Forças Armadas Angolanas (FAA) têm para sempre a gente Samaria entre aqueles a quem agredecem a ajuda.
O coronel McLoughlin ordenou ao 32º Batalhão que retirasse ordenadamente e aguardasse novas ordens. Mike Muller estava a enfrentar graves problemas mecânicos nos seus tanques e ordenou a retirada para longe do teatro de operações. Mas, para desgraça, um outro “Ratel” é atingido por uma salva de 23 milímetros. Às 14h50, Mike Muller pede nova retirada “para fazer uma reavaliação”. Menos de uma hora depois Muller informa o coronel McLoughlin que só já tem cinco tanques operacionais.
O coronel contacta de imediato os generais Liebenberg e Meyer e relata-lhe o desastre. A tropa da UNITA tinha desaparecido. A artilharia das FAPLA atacava com muita força. O comando ordena então a retirada de Mike Muller, que comandava a força principal. A derrota era evidente. “Mike Muller resumiu concisamente o resultado: o inimigo é forte e astuto. Apesar de não terem uma força poderosa na cabeça-de-ponte, as FAPLA possuíam um forte dispositivo de artilharia que fez a maior parte da luta. Planearam e executaram a sua defesa, seguramente de forma muito inteligente”, diz Heitman no livro. Às 17h00 o coronel McLoughlin desiste do ataque ao Triângulo do Tumpo e Mike Muller regressa ao ponto de partida.
A população de Samaria nunca abandonou a sua terra e teve um papel importante nos combates no Tumpo e na Batalha do Cuito Cuanavale. As Forças Armadas Angolanas (FAA) têm para sempre a gente Samaria entre aqueles a quem agredecem a ajuda.
O coronel McLoughlin ordenou ao 32º Batalhão que retirasse ordenadamente e aguardasse novas ordens. Mike Muller estava a enfrentar graves problemas mecânicos nos seus tanques e ordenou a retirada para longe do teatro de operações. Mas, para desgraça, um outro “Ratel” é atingido por uma salva de 23 milímetros. Às 14h50, Mike Muller pede nova retirada “para fazer uma reavaliação”. Menos de uma hora depois Muller informa o coronel McLoughlin que só já tem cinco tanques operacionais.
O coronel contacta de imediato os generais Liebenberg e Meyer e relata-lhe o desastre. A tropa da UNITA tinha desaparecido. A artilharia das FAPLA atacava com muita força. O comando ordena então a retirada de Mike Muller, que comandava a força principal. A derrota era evidente. “Mike Muller resumiu concisamente o resultado: o inimigo é forte e astuto. Apesar de não terem uma força poderosa na cabeça-de-ponte, as FAPLA possuíam um forte dispositivo de artilharia que fez a maior parte da luta. Planearam e executaram a sua defesa, seguramente de forma muito inteligente”, diz Heitman no livro. Às 17h00 o coronel McLoughlin desiste do ataque ao Triângulo do Tumpo e Mike Muller regressa ao ponto de partida.
Operação “Hooper”
No dia 2 de Março os invasores estavam a “digerir” a derrota. O brigadeiro Smith, o coronel McLoughlin e outros oficiais sul-africanos estão no posto de comando e discutem as operações para o futuro.
O brigadeiro e o coronel decidem voar para o Rundu. Regressam no dia seguinte e trazem ordens de retirar a Bateria “Quebeque”. As baterias “Romeo” e “Sierra” continuavam no teatro de operações, mas só atacavam de noite. De dia ficavam escondidas junto à nascente do rio Chambinga. No dia seguinte chega à nascente do Chambinga a 82ª Brigada para render o pessoal. O coronel McLoughlin sai de cena e entrega o comando táctico ao coronel Fouché. O derrotado passa a pasta a um perdido. Mike Muller tem o mesmo destino: volta para casa derrotado. No dia 6 de Março o 4º Batalhão de Infantaria da África do Sul retira. Os invasores são mais uma vez escorraçados e termina a Operação “Hooper”. O apartheid continua enterrado, desta vez nos pantanais do Triângulo do Tumpo.
Nas guerras a natureza é também um adversário ou aliado. “Hooper” é um pássaro dos pântanos. Naquele dia o pássaro não emprestou as suas asas aos invasores para voarem do Triângulo do Tumpo até à vila do Cuito Cuanavale. Estava do lado da humanidade e da justiça.
O brigadeiro e o coronel decidem voar para o Rundu. Regressam no dia seguinte e trazem ordens de retirar a Bateria “Quebeque”. As baterias “Romeo” e “Sierra” continuavam no teatro de operações, mas só atacavam de noite. De dia ficavam escondidas junto à nascente do rio Chambinga. No dia seguinte chega à nascente do Chambinga a 82ª Brigada para render o pessoal. O coronel McLoughlin sai de cena e entrega o comando táctico ao coronel Fouché. O derrotado passa a pasta a um perdido. Mike Muller tem o mesmo destino: volta para casa derrotado. No dia 6 de Março o 4º Batalhão de Infantaria da África do Sul retira. Os invasores são mais uma vez escorraçados e termina a Operação “Hooper”. O apartheid continua enterrado, desta vez nos pantanais do Triângulo do Tumpo.
Nas guerras a natureza é também um adversário ou aliado. “Hooper” é um pássaro dos pântanos. Naquele dia o pássaro não emprestou as suas asas aos invasores para voarem do Triângulo do Tumpo até à vila do Cuito Cuanavale. Estava do lado da humanidade e da justiça.
Pilotos ousados
No dia 9 de Março, ao fim da tarde, um Mig 23 bombardeou uma escolta dos invasores na nascente do rio Lomba. O comando sul-africano ficou “muito preocupado”, diz Heitman, pelo ataque inesperado, mas sobretudo “porque foi um ataque muito audacioso”. Os angolanos são génios e estava traçado o início dos graves problemas que os racistas de Pretória tinham de enfrentar no Triângulo do Tumpo. Já tinham os pés enterrados, mas haviam de ficar enterrados até ao pescoço.
“O general Meyer começou a ficar impaciente porque o próximo ataque contra o Triângulo do Tumpo podia nem ter lugar. A 9 de Março, ele manifestou a sua preocupação, ao enviar uma mensagem de desagrado aos homens no terreno, devido às demoras, tendo enfatizado que a situação só beneficiava as FAPLA, que podiam aproveitar o tempo para melhorar a sua defesa. Também estava preocupado com a situação internacional, que podia obrigá-los a retirarem-se do teatro das acções combativas antes que a missão tivesse sido levada a cabo” , recorda o especialista Heitman.
“O general Meyer começou a ficar impaciente porque o próximo ataque contra o Triângulo do Tumpo podia nem ter lugar. A 9 de Março, ele manifestou a sua preocupação, ao enviar uma mensagem de desagrado aos homens no terreno, devido às demoras, tendo enfatizado que a situação só beneficiava as FAPLA, que podiam aproveitar o tempo para melhorar a sua defesa. Também estava preocupado com a situação internacional, que podia obrigá-los a retirarem-se do teatro das acções combativas antes que a missão tivesse sido levada a cabo” , recorda o especialista Heitman.
Carne para canhão
O coronel Fouché decidiu fazer um ataque em força entre 20 e 22 de Março. Mas, na sua perspectiva, os oficiais e soldados “brancos” tinham de ficar de fora. Apenas entravam em combate aqueles que fossem indispensáveis. A lógica do chefe dos invasores era a seguinte: “é preciso evitar ao máximo que jovens boers continuem a morrer por uma causa nebulosa e pouco convincente”, escreve Heitman no seu livro.
Fouché apresentou o seu plano aos oficiais da UNITA que, como sempre, deram o seu acordo. Estava garantida a carne de cidadãos angolanos para os canhões do regime racista de Pretória. Assim, inutilmente e sem glória, se perderam muitas vidas humanas, que nunca seriam choradas na África do Sul do “apatrheid”.
No ataque ao Triângulo do Tumpo também participaram o Batalhão Búfalo, constituído por angolanos, e mais dois esquadrões de tanques do 61º Batalhão Mecanizado. Fouché e os oficiais da UNITA fizeram “um plano provisório” que depois entregam ao brigadeiro Smith, para aprovação superior.
Mas os invasores e a tropa de Savimbi têm uma surpresa reseervada. As FAPLA começam a pressionar a retaguarda das tropas inimigas, desferindo golpes mortíferos de aviação. Dois Mig atacam o Regimento Mooi Rivier na noite de 10 de Março.
No dia seguinte o posto de comando da 82ª Brigada sul-africana avança para o Cuito e o 61º Batalhão Mecanizado vai para a “área de desmobilização”. O Estado-Maior da 82ª Brigada separa-se do Estado-Maior da 20ª Brigada e no dia seguinte a 20ª Brigada retira-se em direcção ao Rundu, no então Sudoeste Africano, hoje Namíbia
A 13 de Março é declarado o fim oficial da Operação “Hooper”. Estava na hora de “embalar” tudo e regressar a casa. O Cuando Cubango já não era um “campo de treinos” para os cadetes boers das escolas militares.
Fouché apresentou o seu plano aos oficiais da UNITA que, como sempre, deram o seu acordo. Estava garantida a carne de cidadãos angolanos para os canhões do regime racista de Pretória. Assim, inutilmente e sem glória, se perderam muitas vidas humanas, que nunca seriam choradas na África do Sul do “apatrheid”.
No ataque ao Triângulo do Tumpo também participaram o Batalhão Búfalo, constituído por angolanos, e mais dois esquadrões de tanques do 61º Batalhão Mecanizado. Fouché e os oficiais da UNITA fizeram “um plano provisório” que depois entregam ao brigadeiro Smith, para aprovação superior.
Mas os invasores e a tropa de Savimbi têm uma surpresa reseervada. As FAPLA começam a pressionar a retaguarda das tropas inimigas, desferindo golpes mortíferos de aviação. Dois Mig atacam o Regimento Mooi Rivier na noite de 10 de Março.
No dia seguinte o posto de comando da 82ª Brigada sul-africana avança para o Cuito e o 61º Batalhão Mecanizado vai para a “área de desmobilização”. O Estado-Maior da 82ª Brigada separa-se do Estado-Maior da 20ª Brigada e no dia seguinte a 20ª Brigada retira-se em direcção ao Rundu, no então Sudoeste Africano, hoje Namíbia
A 13 de Março é declarado o fim oficial da Operação “Hooper”. Estava na hora de “embalar” tudo e regressar a casa. O Cuando Cubango já não era um “campo de treinos” para os cadetes boers das escolas militares.
Operação “Packer”
O alto comando sul-africano ordena então o início da “Operação Packer”. É o último folego dos invasores. A 82ª Brigada, cujas tropas fizeram treinos em Bloemfontein entre 10 e 26 de Fevereiro, recebe ordens para entrar em acção. A chuva, novamente ela, atrasou o seu avanço para Angola. Mas agora está no Cuando Cubango, pronta para atacar o Triângulo do Tumpo e a partir daí tomar a vila do Cuito Cuanavale e a sua base aérea.
O coronel Fouché assume pessoalmente o comando dos ataques ao Triângulo do Tumpo. O derrotado Mike Muller foi substituído por um tanquista experiente, o comandante Gerhard louw, e Boet Schoeman foi nomeado comandante adjunto. Mas o Triângulo do Tumpo era intransponível. Morteiros e canhões anti-tanque estavam prontos para rechaçar qualquer força que tentasse penetrar.
Nas posições principais das FAPLA estavam cinco “GRAD”. Por trás das forças de Infantaria estavam preparados dez tanques, escondidos nos refúgios. Os engenheiros angolanos fizeram campos de minas, algumas não convencionais, em todas as entradas possíveis.
O rio Tumpo e os seus afluentes eram obstáculos naturais intransponíveis num mês de Março particularmente chuvoso. A artilharia e infantaria angolanas tinham muito poder. As forças defensoras das FAPLA tornaram-se invencíveis.
O coronel Fouché assume pessoalmente o comando dos ataques ao Triângulo do Tumpo. O derrotado Mike Muller foi substituído por um tanquista experiente, o comandante Gerhard louw, e Boet Schoeman foi nomeado comandante adjunto. Mas o Triângulo do Tumpo era intransponível. Morteiros e canhões anti-tanque estavam prontos para rechaçar qualquer força que tentasse penetrar.
Nas posições principais das FAPLA estavam cinco “GRAD”. Por trás das forças de Infantaria estavam preparados dez tanques, escondidos nos refúgios. Os engenheiros angolanos fizeram campos de minas, algumas não convencionais, em todas as entradas possíveis.
O rio Tumpo e os seus afluentes eram obstáculos naturais intransponíveis num mês de Março particularmente chuvoso. A artilharia e infantaria angolanas tinham muito poder. As forças defensoras das FAPLA tornaram-se invencíveis.
Dia da decisão
Os invasores sul-africanos colocam no campo de batalha os artilheiros do Regimento da Universidade de Potchefstroom, a elite da sua artilharia. O derradeiro ataque ao triângulo do Tumpo recebe o nome de Operação “Packer”. O brigadeiro Smith marcou o ataque para 23 de Março. O coronel Fouché pede que a data seja adiada para o dia 25, porque enfrenta “grandes dificuldades logísticas”. Os Mig não descansam e atacavam com frequência as colunas de reabastecimento. O brigadeiro recusa.
No dia 18 de Março os sul-africanos perdem duas pontes móveis de engenharia, atingidas por “fogo amigo” dos canhões “G5”. A desorientação começa a apoderar-se dos sul-africanos. E foi nesse estado que partiram para a batalha final.
Os invasores atacaram com tudo: a 82ª Brigada, com mais dois esquadrões de tanques do Regimento Presidente Steyn, um esquadrão de carros blindados do Regimento Mooi Rivier, dois batalhões de infantaria motorizada do Regimento de La Rey e do Regimento Groot Karoo, artilharia do Regimento da Universidade de Potchefstroom com canhões “G5” e “G2”, 44ª Brigada de Paraquedistas e a Defesa Anti-Aérea. A UNITA entrou com os 3º, 4º e 5º batalhões regulares, o 66º e 75º batalhões semi-regulares, mais os “Stinger” oferecidos pelos EUA.
Os “Mirage” começaram a atacar no dia 19 de Março. Durante o ataque um “Mirage”, pilotado pelo major Willie van Coppenhagen, é atingido e despenha-se na área do Cavango. A 22 de Março a 82ª Brigada avança para o Triângulo do Tumpo. A infantaria da UNITA vai atrás. Às 22h45, o coronel Fouché move o comando para o planalto norte do rio Chambinga e chega à uma e meia da manhã de 23 de Março. Estavam à sua espera os generais Liebenberg e Meyer e os coronéis Deon Ferreira e Neil. Às quatro da manhã do dia 23 de Março de 1988 a força de ataque atinge a “área avançada de concentração”.
No dia 18 de Março os sul-africanos perdem duas pontes móveis de engenharia, atingidas por “fogo amigo” dos canhões “G5”. A desorientação começa a apoderar-se dos sul-africanos. E foi nesse estado que partiram para a batalha final.
Os invasores atacaram com tudo: a 82ª Brigada, com mais dois esquadrões de tanques do Regimento Presidente Steyn, um esquadrão de carros blindados do Regimento Mooi Rivier, dois batalhões de infantaria motorizada do Regimento de La Rey e do Regimento Groot Karoo, artilharia do Regimento da Universidade de Potchefstroom com canhões “G5” e “G2”, 44ª Brigada de Paraquedistas e a Defesa Anti-Aérea. A UNITA entrou com os 3º, 4º e 5º batalhões regulares, o 66º e 75º batalhões semi-regulares, mais os “Stinger” oferecidos pelos EUA.
Os “Mirage” começaram a atacar no dia 19 de Março. Durante o ataque um “Mirage”, pilotado pelo major Willie van Coppenhagen, é atingido e despenha-se na área do Cavango. A 22 de Março a 82ª Brigada avança para o Triângulo do Tumpo. A infantaria da UNITA vai atrás. Às 22h45, o coronel Fouché move o comando para o planalto norte do rio Chambinga e chega à uma e meia da manhã de 23 de Março. Estavam à sua espera os generais Liebenberg e Meyer e os coronéis Deon Ferreira e Neil. Às quatro da manhã do dia 23 de Março de 1988 a força de ataque atinge a “área avançada de concentração”.
Resposta fulminante
As forças armadas respondem ao ataque do inimigo às sete da manhã, a norte da nascente do rio Dala. Dez minutos depois desta acção, entram em acção os artilheiros do Regimento da Universidade de Potchefstroom, que bombardeiam o Triângulo do Tumpo. Às oito, as FAPLA respondem com o flagelamento à força principal de ataque dos invasores. Às 8h35 um tanque “Oliphant”, no flanco direito da linha de ataque, acciona uma mina. Fica fora de combate. Entre as 11h30 e as 11h50 os “G5” disparam contra o posto de comando avançado das FAPLA em Nancova. Um aguaceiro intenso obriga a parar o fogo. O comandante Louw limpa com um “plofadder” um campo de minas. Avança em direcção ao Triângulo do Tumpo com dois esquadrões de tanques que levam à cabeça um draga-minas. As FAPLA reagem em força e às 12h45 Louw retira-se. O 5º batalhão regular da UNITA sofre severas baixas. Louw tenta avançar de novo, mas foi travado por uma barragem de fogo das FAPLA. A infantaria da UNITA é desbaratada. Às 13h46 os “Oliphant” entram num campo de minas. Dois ficam destruídos. Louw tenta atacar de novo, mas mais uma vez é travado. Às 13h48 Louw informa o comando que os tanques estão sem combustível. Andaram às voltas para evitar os campos de minas o que levou a um gasto anormal de combustível.
Contributo dos engenheiros
O excelente trabalho realizado pelos engenheiros das FAPLA na criação de obstáculos contra a infantaria mecanizada e a técnica blindada do inimigo atingiu o seu ponto culminante: os super-tanques “Oliphant” estavam confinados aos campos de minas, consumindo combustível, enquanto procuravam por uma saída, no labirinto, totalmente à mercê da artilharia e da aviação angolana. Louw viu vários “Oliphant” atingidos. Deu ordens para que todos fossem retirados. Mas apesar dos esforços, três foram abandonados. As FAPLA tinham ali os seus troféus e a prova de que tinham destroçado o regime de apartheid. O general Meyer enviou um telex ordenando que o Coronel Fouché se assegurasse que os três “Oliphant” abandonados eram destruídos. Mas isto já não era possível. Os invasores, derrotados, retiravam para Mavinga, vergados ao peso da derrota. Até final de Março, todas as unidades invasoras abandonaram Angola.
O regime de apartheid ficou enterrado no Triângulo do Tumpo. A Humanidade deve aos angolanos a libertação de Mandela, a instauração da democracia na África do Sul e a Independência da Namíbia. Março de 1988 foi o culminar do ano que mudou a face do continente africano.
Fonte JA
O regime de apartheid ficou enterrado no Triângulo do Tumpo. A Humanidade deve aos angolanos a libertação de Mandela, a instauração da democracia na África do Sul e a Independência da Namíbia. Março de 1988 foi o culminar do ano que mudou a face do continente africano.
Fonte JA
sábado, 7 de março de 2015
Memorias do tempo - O recomeço da guerra em Angola
Fonte: Rui Filipe Ramos in facebook
1992. Setembro/Outubro, há 23 anos, os labirintos da minha vida. Quando um dirigente da UNITA me disse «isto está por horas», eu perguntei-lhe porquê. A resposta: «Nós não vamos ganhar a segunda volta das presidenciais, por isso para nós a solução não passa pelas eleições mas pela via armada, o objectivo é tomar o bairro de Alvalade e o Futungo para prender os ministros». Ante o inexplicável laxismo e a passividade do Governo, horas depois, de repente, como se de uma acção planificada se tratasse, as forças militares da UNITA tomam a Caála e Dombe Grande e exercem uma pressão militar terrível sobre alvos governamentais no Huambo, Bié, Malanje, Mbanza Congo, Luena, Uige, Ndalatando, Lubango, Benguela, Lobito, tomam a Lunda Norte para vender diamantes utilizados na compra de armas e fazem um cerco militar a Luanda, um semi-arco que vai de Mbanza Congo a Malanje, Mussende, Nharea, Andulo e Huambo, com tropas avançadas em direcção a Caxito. As ofensivas militares da UNITA são acompanhadas da prisão e morte dos administradores, polícias, militantes e simpatizantes do MPLA, de quem até hoje ninguém fala, não sei porquê.
O Governo angolano tinha esta posição «esquisita»: não responder à UNITA, fosse o que fosse que ela fizesse, para evitar nova guerra. Por isso nunca fez nada para retirar da posse militar da UNITA, contra os acordos de Bicesse, zonas como Quimbele, Nharea, Likua, Mussende e Jamba, só para falar das mais conhecidas.
No dia 30/9/1992 a UNITA ocupa militarmente diversas embaixadas e residências de diplomatas no bairro Alvalade, em Luanda, onde Jonas Savimbi vivia em luxuosa mansão. O embaixador português António Monteiro tem de «saltar muros» mas a reacção lusa é «não empolar» a situação». Sentindo-se derrotado, Jonas Savimbi declara a 3 de Outubro de madrugada: «O CNE terá de tomar em consideração que todas as suas manobras em números falsificados levarão a UNITA a tomar posição, a qual poderá perturbar profundamente a situação deste país.» Salupeto Pena ameaça com o caos e a catástrofe se os resultados eleitorais forem publicados. Chivukuvuku fala em «somalização» de Angola. Jonas Savimbi manda os generais da UNITA abandonar o exército único nacional para regressarem às FALA. A contra-inteligência da UNITA, generais Uambo e Andrade, está em Luanda. Sean Clearly, o sul-africano branco que dirigia a UNITA na Jamba, também está. O golpe de Estado estava à vista.
Sete dias depois, domingo, dia 10, Salupeto Pena tem em seu poder alguns polícias, que as tropas de elite da UNITA capturaram quando eles iam investigar o rebentamento de uma bomba de madrugada, que eu próprio ouvi, Salupeto ameaça, na Rádio Nacional: «Se o governo tentar libertar os polícias, nós fuzilámo-los.» O Governo parece não ter forças militares, onde estão as FAA? A iniciativa militar é da UNITA em toda a sua totalidade. A seguir a UNITA «condena à morte» a representante da ONU Margareth Anstee. Há dirigentes do MPLA receosos, há quem pense em sair do país, a UNITA militarmente parece toda-poderosa, proíbe a circulação automóvel no bairro Alvalade, o povo critica estas e outras arbitrariedades…
As adormecidas forças militares governamentais acordam nesse mesmo dia 10 da letargia e começam timidamente a reagir à tomada militar do poder pela UNITA.
No dia 10 ao nascer do sol eu estava em frente do Hotel Turismo, em Luanda, onde polícias estavam reféns da UNITA e assisti pessoalmente ao recomeço da guerra, ao fim da manhã. As tropas de elite da UNITA, com boinas vermelhas, cercaram toda a área até ao Baleizão, os «ninjas» estavam expectantes, nos seus veículos de piso baixo, fora do cerco, no antigo largo D. Afonso Henriques.
A guerra recomeçou ali á minha frente, do seguinte modo: a Polícia estava furiosa com a prisão dos seus efectivos pela UNITA. Mantendo-se o impasse, um carro preto com polícias vem do Comando-geral perto da Lello em direcção à então bomba de combustível e vai até perto do Hotel Turismo. As tropas da UNITA reagem e começam a disparar. Sou apanhado pelo fogo cruzado de metralha e morteiros.
Assim que posso, saio do cerco, passo por «adormecidos» «ninjas» e corro para a Rádio Nacional, onde a guarnição militar «estava a dormir». Grito-lhes: a guerra recomeçou, acordem!!!
A acção militar da UNITA era para vir de Caxito, onde estavam as suas tropas de elite e foi para lá que todos tentaram fugir quando as Forças Armadas Angolanas reagiram. «O MPLA não está a ganhar, o MPLA não pode ganhar as eleições, se ganhar, nem daqui a 50 anos abandona o poder», ouvi na Rádio Vorgan a voz amargurada de Jonas Savimbi na madrugada daquele dia de Outubro de 1992, recusando a segunda volta das eleições presidenciais, uma atitude de fuga que considero não-inteligente e não-própria de um dirigente, que abandonou os seus correligionários em Luanda e fugiu para a mata para desencadear a «guerra maldita» 1992-2002 que culminou com a sua morte. Um erro do Governo: avaliou mal a força militar e as intenções da UNITA, deixando «adormecer» as Forças Armadas Nacionais. Dois erros de Jonas Savimbi: em 1992 abandonou os seus homens em Luanda, eles não gostaram. Em 2002 descalçou as suas botas e foi apanhado descalço.
1992. Setembro/Outubro, há 23 anos, os labirintos da minha vida. Quando um dirigente da UNITA me disse «isto está por horas», eu perguntei-lhe porquê. A resposta: «Nós não vamos ganhar a segunda volta das presidenciais, por isso para nós a solução não passa pelas eleições mas pela via armada, o objectivo é tomar o bairro de Alvalade e o Futungo para prender os ministros». Ante o inexplicável laxismo e a passividade do Governo, horas depois, de repente, como se de uma acção planificada se tratasse, as forças militares da UNITA tomam a Caála e Dombe Grande e exercem uma pressão militar terrível sobre alvos governamentais no Huambo, Bié, Malanje, Mbanza Congo, Luena, Uige, Ndalatando, Lubango, Benguela, Lobito, tomam a Lunda Norte para vender diamantes utilizados na compra de armas e fazem um cerco militar a Luanda, um semi-arco que vai de Mbanza Congo a Malanje, Mussende, Nharea, Andulo e Huambo, com tropas avançadas em direcção a Caxito. As ofensivas militares da UNITA são acompanhadas da prisão e morte dos administradores, polícias, militantes e simpatizantes do MPLA, de quem até hoje ninguém fala, não sei porquê.
O Governo angolano tinha esta posição «esquisita»: não responder à UNITA, fosse o que fosse que ela fizesse, para evitar nova guerra. Por isso nunca fez nada para retirar da posse militar da UNITA, contra os acordos de Bicesse, zonas como Quimbele, Nharea, Likua, Mussende e Jamba, só para falar das mais conhecidas.
No dia 30/9/1992 a UNITA ocupa militarmente diversas embaixadas e residências de diplomatas no bairro Alvalade, em Luanda, onde Jonas Savimbi vivia em luxuosa mansão. O embaixador português António Monteiro tem de «saltar muros» mas a reacção lusa é «não empolar» a situação». Sentindo-se derrotado, Jonas Savimbi declara a 3 de Outubro de madrugada: «O CNE terá de tomar em consideração que todas as suas manobras em números falsificados levarão a UNITA a tomar posição, a qual poderá perturbar profundamente a situação deste país.» Salupeto Pena ameaça com o caos e a catástrofe se os resultados eleitorais forem publicados. Chivukuvuku fala em «somalização» de Angola. Jonas Savimbi manda os generais da UNITA abandonar o exército único nacional para regressarem às FALA. A contra-inteligência da UNITA, generais Uambo e Andrade, está em Luanda. Sean Clearly, o sul-africano branco que dirigia a UNITA na Jamba, também está. O golpe de Estado estava à vista.
Sete dias depois, domingo, dia 10, Salupeto Pena tem em seu poder alguns polícias, que as tropas de elite da UNITA capturaram quando eles iam investigar o rebentamento de uma bomba de madrugada, que eu próprio ouvi, Salupeto ameaça, na Rádio Nacional: «Se o governo tentar libertar os polícias, nós fuzilámo-los.» O Governo parece não ter forças militares, onde estão as FAA? A iniciativa militar é da UNITA em toda a sua totalidade. A seguir a UNITA «condena à morte» a representante da ONU Margareth Anstee. Há dirigentes do MPLA receosos, há quem pense em sair do país, a UNITA militarmente parece toda-poderosa, proíbe a circulação automóvel no bairro Alvalade, o povo critica estas e outras arbitrariedades…
As adormecidas forças militares governamentais acordam nesse mesmo dia 10 da letargia e começam timidamente a reagir à tomada militar do poder pela UNITA.
No dia 10 ao nascer do sol eu estava em frente do Hotel Turismo, em Luanda, onde polícias estavam reféns da UNITA e assisti pessoalmente ao recomeço da guerra, ao fim da manhã. As tropas de elite da UNITA, com boinas vermelhas, cercaram toda a área até ao Baleizão, os «ninjas» estavam expectantes, nos seus veículos de piso baixo, fora do cerco, no antigo largo D. Afonso Henriques.
A guerra recomeçou ali á minha frente, do seguinte modo: a Polícia estava furiosa com a prisão dos seus efectivos pela UNITA. Mantendo-se o impasse, um carro preto com polícias vem do Comando-geral perto da Lello em direcção à então bomba de combustível e vai até perto do Hotel Turismo. As tropas da UNITA reagem e começam a disparar. Sou apanhado pelo fogo cruzado de metralha e morteiros.
Assim que posso, saio do cerco, passo por «adormecidos» «ninjas» e corro para a Rádio Nacional, onde a guarnição militar «estava a dormir». Grito-lhes: a guerra recomeçou, acordem!!!
A acção militar da UNITA era para vir de Caxito, onde estavam as suas tropas de elite e foi para lá que todos tentaram fugir quando as Forças Armadas Angolanas reagiram. «O MPLA não está a ganhar, o MPLA não pode ganhar as eleições, se ganhar, nem daqui a 50 anos abandona o poder», ouvi na Rádio Vorgan a voz amargurada de Jonas Savimbi na madrugada daquele dia de Outubro de 1992, recusando a segunda volta das eleições presidenciais, uma atitude de fuga que considero não-inteligente e não-própria de um dirigente, que abandonou os seus correligionários em Luanda e fugiu para a mata para desencadear a «guerra maldita» 1992-2002 que culminou com a sua morte. Um erro do Governo: avaliou mal a força militar e as intenções da UNITA, deixando «adormecer» as Forças Armadas Nacionais. Dois erros de Jonas Savimbi: em 1992 abandonou os seus homens em Luanda, eles não gostaram. Em 2002 descalçou as suas botas e foi apanhado descalço.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
''Operação Kerslig'' abalou a economia nacional mas a vitória foi dos angolanos"
Fonte: José Ribeiro | Jornal de Angola
30 de Novembro, 2014
30 de Novembro, 2014
A “Operação Savana”, destinada a impedir a Independência de Angola, terminou com uma pesada derrota das forças invasoras da África do Sul em Março de 1976.
Mas o regime racista de Pretória não se deu por vencido e aproveitou os “restos” dos seus aliados angolanos para criar uma nova força invasora que não falhasse.
As FAPLA estavam cada vez mais activas no apoio à luta de libertação da Namíbia e da África do Sul. O regime racista começou a temer pelo menos o fim da sua hegemonia na região austral e viu que estava muito perto da verdade. No Triângulo do Tumpo, foi mesmo o seu fim.
Apenas cinco anos depois da retirada das tropas que participaram na “Operação Savana” e dois anos após o Presidente José Eduardo dos Santos assumir a liderança de Angola e das suas forças armadas, o regime de Pretória montou a “Operação Kerslig” (Candelabro) para sabotar os depósitos de combustível situados no Porto de Luanda e pertencentes à refinaria da Petrangol, numa zona de grande comcentração populacional.
O sul-africano Peter Stiff, no seu livro “The Silent War” conta todos os pormenores desta agressão dos racistas de Pretória a Angola.
Antes desta nova fase da desestabilização dos países da Linha da Frente, a comunicação social internacional começou a dar visibilidade a Jonas Savimbi e seus homens, treinados e municiados por oficiais sul-africanos. O objectivo não era reforçar as forças militares da África do Sul, legitimando as acções com o apoio da UNITA.
Peter Stiff explica cruamente qual o papel que estava atribuído ao caudilho: “a Operação Kerslig e todas as outras realizadas pela África do Sul em Angola eram atribuídas à UNITA”.
De facto, logo no dia seguinte ao acto de sabotagem, Jonas Savimbi apareceu nos jornais de Nova Iorque a dizer que foram as FALA que puseram a refinaria de Luanda em fogo. O chefe da UNITA da altura chegou mesmo a especificar que o ataque foi realizado por três de cinco homens com a utilização de uma “bazooka”.
Situação da África do Sul
O regime de apartheid estava sujeito a sanções e aqueles que o apoiavam por baixo da mesa, ficavam numa situação delicada se ficasse comprovado que Pretória continuava a ter tropas em Angola e desenrolava operações militares de grande envergadura, num Estado soberano membro da ONU e da OUA, hoje União Africana.
O alto comando das forças de defesa e segurança da África do Sul decidiu mobilizar o navio de guerra “Tafelberg” para transportar os sabotadores e o material explosivo. O “Protea” seguiu para a operação como navio-mãe, onde estava o comando. Ancoraram a mais de 50 quilómetros da costa angolana, em frente a Luanda.
Ao fim da tarde do dia 26 de Novembro uma embarcação rápida de casco rígido navegou na direcção da capital.
Às primeiras horas da madrugada, foram desembarcados nos terrenos contíguos aos depósitos de combustíveis, o sargento Jack Greef e o cabo Sam Fourie, ambos das tropas especiais de Pretória.
No livro “The Silent War” Peter Steef revela o objectivo dos dois invasores: “Eles foram fazer o levantamento operativo do alvo e recolher dados para orientar posteriormente as equipas de assalto”. Como a “Operação Kerslig” era “oficialmente” uma acção de Savimbi, os militares sul-africanos que participaram, ficaram por conta própria. Se algo corresse mal eles apenas podiam dizer que estavam às ordens do chefe da UNITA que decidiu trair os seus próprios irmãos africanos. Até hoje os familiares dos militares sul-africanos que morreram na sabotagem reclamam os corpos. O sargento Greef e o cabo Fourie estiveram na área dos depósitos de combustíveis três noites e dois dias.
A noite da sabotagem
Durante a noite recolhiam elementos e de dia escondiam-se. Os sabotadores conseguiram definir com precisão os pontos de ataque e deram-lhes nomes de código: “Alpha” e “Bravo”.
Quando recolheram todos os elementos necessários enviaram um sinal via rádio para o navio-mãe “Protea” e nessa noite foram recolhidos com os “Ski Boats”. Na noite de 30 de Novembro, o sargento Greef e o cabo Fourie regressam ao Porto de Luanda, mas desta vez para orientarem três grupos de assalto constituídos por tropas especiais da África do Sul. Em terra tomaram as posições e o capitão ATP De Kock, o cabo Kloppers Kloppies e mais um soldado chegaram aos depósitos de combustíveis da refinaria de Luanda.
De Kock começou a colocar os explosivos nos depósitos enquanto os outros dois ficaram de vigia. O capitão deu sinal que a sabotagem estava quase no fim. Os outros dois começaram a preparar a retirada. Mas de repente ouviu-se uma explosão e acto contínuo os depósitos de combustível começaram a arder. As chamas transformaram a noite em dia. De Kock teve morte imediata. Os outros dois invasores ficaram gravemente feridos.
Recolha dos feridos
O cabo Kloppies ficou com queimaduras graves mas não perdeu os sentidos. Viu que o soldado estava gravemente ferido mas não conseguiu tirá-lo do local. Partiu em direcção ao “ponto de emergência”, a 600 metros dos depósitos, onde estavam todos os outros à espera dos sabotadores. Pediu ajuda para o soldado que ficou ferido no terreno e informou que o capitão De Kock tinha “explodido” com os depósitos.
O tenente Franz Fourie e o cabo Sam Fourie partiram em direcção aos depósitos em chamas. Mas não encontraram o ferido. Peter Steef conta no seu livro o que aconteceu:
“O soldado gravemente ferido recuperou os sentidos e arrastou-se em direcção a um ponto onde já estavam os combatentes das FAPLA. O tenente conseguiu encontrá-lo antes de ser feito prisioneiro. Depois carregou com ele até ao ponto de emergência, local definido para o caso de algo correr mal”.
Com a sabotagem, os invasores conseguiram causar graves danos à economia angolana, debilitada pelo tremendo esforço de guerra. Mas a “Operação Kerslig” acabou por correr mal, porque morreu o capitão De Kock e mais dois homens ficaram gravemente feridos. Os três grupos de assalto abandonaram a área dos depósitos em chamas e conseguiram chegar aos navios de guerra, a 50 quilómetros da costa.
Sabotadores condecorados
O sul-africano Peter Stiff, no seu livro “The Silent War” explica a razão que levou o alto comando dos racistas de Pretória a deixarem os navios de guerra a 50 quilómetros da costa: “Assim fugiam aos radares costeiros e as patrulhas da força aérea angolana não se afastavam tanto da costa”.
A imprensa internacional deu grande destaque a esta “operação de Savimbi”, mas o livro “The Silent War” de Peter Stiff revela a verdade dos factos com tantos pormenores, que não oferecem qualquer dúvida.
No dia 30 de Novembro de 1981, tropas especiais sul-africanas, apoiadas por dois navios de guerra, desembarcaram à noite na área dos depósitos de combustíveis do Porto de Luanda e sabotaram-nos.
Savimbi foi apresentado como o “herói”. Mas os militares sul-africanos que participaram no atentado foram reconhecidos por Pretória e os familiares procuram por eles. Mas nunca mais voltam porque “explodiram” naquela noite em que causaram graves dados à economia nacional, ao apoio logístico às Forças Armadas de Angola e puseram em risco a vida das populações que vivem na zona limitrofe da Petrangol.
Peter Stiff foi aos arquivos do regime de apartheid e encontrou lá a verdade: “O tenente Franz Fourie, o sargento Jack Greef e os cabos Sam Fourie e Kloppers Kloppies foram condecorados com a Honoris Crux”. É uma das mais altas condecorações militares da África do Sul.
O acto de sabotagem e a libertação de gases tóxicos dos depósitos em chamas criaram o perigo de poluição que afecta a saúde, sobretudo as vias respiratórias. Grupos mais vulneráveis, como crianças e idosos, nos dias que se seguiram ao gigantesco incêndio, tiveram que receber assistência hospitalar.
A população que vivia a Norte de Luanda teve de abandonar os seus lares e muitas famílias perderam os seus haveres. Além da catástrofe económica, também se registou um grande problema social, com repercussão evidente no Ambiente. O Govern o angolano acusou, na altura, a África do Sul de tentar sabotar toda a Refinaria de Luanda, pertencente a investidores estrangeiros. Em conferência de imprensa alargada, o ministro dos Petróleos, Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, afirmou que o ataque danificou tanques de combustível e “pipelines” mas não afectou o complexo da refinaria proprimanente dita. “Os trabalhadores angolanos da refinaria mostraram uma coragem excepcional, retirando milhares de barris com substâncias aditivas que estavam armazenados”, afirmou alguém que acompanhou o combate ao incêndio. “Se não tivessem feito isso num espaço de tempo muito curto, e no meio de temperaturas elevadíssimas, o pior tinha acontecido”, diz hoje um técnico que na altura combateu fogo. O pior era, seguramte, um desastre ecológico de proporções inimagináveis, que punha em risco a vida de milhares e milhares de luandenses. Os danos causados a Angola ainda hoje estão por ressarcir, sobretudo por parte dos sul-africanos.
As FAPLA estavam cada vez mais activas no apoio à luta de libertação da Namíbia e da África do Sul. O regime racista começou a temer pelo menos o fim da sua hegemonia na região austral e viu que estava muito perto da verdade. No Triângulo do Tumpo, foi mesmo o seu fim.
Apenas cinco anos depois da retirada das tropas que participaram na “Operação Savana” e dois anos após o Presidente José Eduardo dos Santos assumir a liderança de Angola e das suas forças armadas, o regime de Pretória montou a “Operação Kerslig” (Candelabro) para sabotar os depósitos de combustível situados no Porto de Luanda e pertencentes à refinaria da Petrangol, numa zona de grande comcentração populacional.
O sul-africano Peter Stiff, no seu livro “The Silent War” conta todos os pormenores desta agressão dos racistas de Pretória a Angola.
Antes desta nova fase da desestabilização dos países da Linha da Frente, a comunicação social internacional começou a dar visibilidade a Jonas Savimbi e seus homens, treinados e municiados por oficiais sul-africanos. O objectivo não era reforçar as forças militares da África do Sul, legitimando as acções com o apoio da UNITA.
Peter Stiff explica cruamente qual o papel que estava atribuído ao caudilho: “a Operação Kerslig e todas as outras realizadas pela África do Sul em Angola eram atribuídas à UNITA”.
De facto, logo no dia seguinte ao acto de sabotagem, Jonas Savimbi apareceu nos jornais de Nova Iorque a dizer que foram as FALA que puseram a refinaria de Luanda em fogo. O chefe da UNITA da altura chegou mesmo a especificar que o ataque foi realizado por três de cinco homens com a utilização de uma “bazooka”.
Situação da África do Sul
O regime de apartheid estava sujeito a sanções e aqueles que o apoiavam por baixo da mesa, ficavam numa situação delicada se ficasse comprovado que Pretória continuava a ter tropas em Angola e desenrolava operações militares de grande envergadura, num Estado soberano membro da ONU e da OUA, hoje União Africana.
O alto comando das forças de defesa e segurança da África do Sul decidiu mobilizar o navio de guerra “Tafelberg” para transportar os sabotadores e o material explosivo. O “Protea” seguiu para a operação como navio-mãe, onde estava o comando. Ancoraram a mais de 50 quilómetros da costa angolana, em frente a Luanda.
Ao fim da tarde do dia 26 de Novembro uma embarcação rápida de casco rígido navegou na direcção da capital.
Às primeiras horas da madrugada, foram desembarcados nos terrenos contíguos aos depósitos de combustíveis, o sargento Jack Greef e o cabo Sam Fourie, ambos das tropas especiais de Pretória.
No livro “The Silent War” Peter Steef revela o objectivo dos dois invasores: “Eles foram fazer o levantamento operativo do alvo e recolher dados para orientar posteriormente as equipas de assalto”. Como a “Operação Kerslig” era “oficialmente” uma acção de Savimbi, os militares sul-africanos que participaram, ficaram por conta própria. Se algo corresse mal eles apenas podiam dizer que estavam às ordens do chefe da UNITA que decidiu trair os seus próprios irmãos africanos. Até hoje os familiares dos militares sul-africanos que morreram na sabotagem reclamam os corpos. O sargento Greef e o cabo Fourie estiveram na área dos depósitos de combustíveis três noites e dois dias.
A noite da sabotagem
Durante a noite recolhiam elementos e de dia escondiam-se. Os sabotadores conseguiram definir com precisão os pontos de ataque e deram-lhes nomes de código: “Alpha” e “Bravo”.
Quando recolheram todos os elementos necessários enviaram um sinal via rádio para o navio-mãe “Protea” e nessa noite foram recolhidos com os “Ski Boats”. Na noite de 30 de Novembro, o sargento Greef e o cabo Fourie regressam ao Porto de Luanda, mas desta vez para orientarem três grupos de assalto constituídos por tropas especiais da África do Sul. Em terra tomaram as posições e o capitão ATP De Kock, o cabo Kloppers Kloppies e mais um soldado chegaram aos depósitos de combustíveis da refinaria de Luanda.
De Kock começou a colocar os explosivos nos depósitos enquanto os outros dois ficaram de vigia. O capitão deu sinal que a sabotagem estava quase no fim. Os outros dois começaram a preparar a retirada. Mas de repente ouviu-se uma explosão e acto contínuo os depósitos de combustível começaram a arder. As chamas transformaram a noite em dia. De Kock teve morte imediata. Os outros dois invasores ficaram gravemente feridos.
Recolha dos feridos
O cabo Kloppies ficou com queimaduras graves mas não perdeu os sentidos. Viu que o soldado estava gravemente ferido mas não conseguiu tirá-lo do local. Partiu em direcção ao “ponto de emergência”, a 600 metros dos depósitos, onde estavam todos os outros à espera dos sabotadores. Pediu ajuda para o soldado que ficou ferido no terreno e informou que o capitão De Kock tinha “explodido” com os depósitos.
O tenente Franz Fourie e o cabo Sam Fourie partiram em direcção aos depósitos em chamas. Mas não encontraram o ferido. Peter Steef conta no seu livro o que aconteceu:
“O soldado gravemente ferido recuperou os sentidos e arrastou-se em direcção a um ponto onde já estavam os combatentes das FAPLA. O tenente conseguiu encontrá-lo antes de ser feito prisioneiro. Depois carregou com ele até ao ponto de emergência, local definido para o caso de algo correr mal”.
Com a sabotagem, os invasores conseguiram causar graves danos à economia angolana, debilitada pelo tremendo esforço de guerra. Mas a “Operação Kerslig” acabou por correr mal, porque morreu o capitão De Kock e mais dois homens ficaram gravemente feridos. Os três grupos de assalto abandonaram a área dos depósitos em chamas e conseguiram chegar aos navios de guerra, a 50 quilómetros da costa.
Sabotadores condecorados
O sul-africano Peter Stiff, no seu livro “The Silent War” explica a razão que levou o alto comando dos racistas de Pretória a deixarem os navios de guerra a 50 quilómetros da costa: “Assim fugiam aos radares costeiros e as patrulhas da força aérea angolana não se afastavam tanto da costa”.
A imprensa internacional deu grande destaque a esta “operação de Savimbi”, mas o livro “The Silent War” de Peter Stiff revela a verdade dos factos com tantos pormenores, que não oferecem qualquer dúvida.
No dia 30 de Novembro de 1981, tropas especiais sul-africanas, apoiadas por dois navios de guerra, desembarcaram à noite na área dos depósitos de combustíveis do Porto de Luanda e sabotaram-nos.
Savimbi foi apresentado como o “herói”. Mas os militares sul-africanos que participaram no atentado foram reconhecidos por Pretória e os familiares procuram por eles. Mas nunca mais voltam porque “explodiram” naquela noite em que causaram graves dados à economia nacional, ao apoio logístico às Forças Armadas de Angola e puseram em risco a vida das populações que vivem na zona limitrofe da Petrangol.
Peter Stiff foi aos arquivos do regime de apartheid e encontrou lá a verdade: “O tenente Franz Fourie, o sargento Jack Greef e os cabos Sam Fourie e Kloppers Kloppies foram condecorados com a Honoris Crux”. É uma das mais altas condecorações militares da África do Sul.
O acto de sabotagem e a libertação de gases tóxicos dos depósitos em chamas criaram o perigo de poluição que afecta a saúde, sobretudo as vias respiratórias. Grupos mais vulneráveis, como crianças e idosos, nos dias que se seguiram ao gigantesco incêndio, tiveram que receber assistência hospitalar.
A população que vivia a Norte de Luanda teve de abandonar os seus lares e muitas famílias perderam os seus haveres. Além da catástrofe económica, também se registou um grande problema social, com repercussão evidente no Ambiente. O Govern o angolano acusou, na altura, a África do Sul de tentar sabotar toda a Refinaria de Luanda, pertencente a investidores estrangeiros. Em conferência de imprensa alargada, o ministro dos Petróleos, Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, afirmou que o ataque danificou tanques de combustível e “pipelines” mas não afectou o complexo da refinaria proprimanente dita. “Os trabalhadores angolanos da refinaria mostraram uma coragem excepcional, retirando milhares de barris com substâncias aditivas que estavam armazenados”, afirmou alguém que acompanhou o combate ao incêndio. “Se não tivessem feito isso num espaço de tempo muito curto, e no meio de temperaturas elevadíssimas, o pior tinha acontecido”, diz hoje um técnico que na altura combateu fogo. O pior era, seguramte, um desastre ecológico de proporções inimagináveis, que punha em risco a vida de milhares e milhares de luandenses. Os danos causados a Angola ainda hoje estão por ressarcir, sobretudo por parte dos sul-africanos.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Batalha de tanques ditou uma das mais importantes vitórias.
Novembro de 1987. Junto à nascente do rio Chambinga as tropas angolanas, ainda sem o saberem, estão a construir os alicerces da nova Angola e a libertar África do apartheid.
No Triângulo do Tumpo, milhares de angolanos, quase todos jovens com o máximo de 25 anos, incluindo os oficiais que comandavam as forças, fizeram renascer o espírito indomável de um povo que acompanhou Agostinho Neto no exaltante combate pela Independência Nacional. E apoiou os esforços de guerra dirigida pelo Comandante em Chefe, José Eduardo dos Santos, o líder que nunca foi vencido.
Um punhado de jovens angolanos escreveu, naquele Novembro de 1987, páginas que vão ficar gravadas a ouro no livro de honra daqueles que lutaram pela liberdade. Quando se fizer a chamada dos que aniquilaram o regime racista de Pretória, os sobreviventes dos combates de Mavinga, do Chambinga, do Tumpo e do Cuito Cuanavale estão na primeira linha, mostrando o seu orgulho de serem angolanos.
Um punhado de jovens angolanos escreveu, naquele Novembro de 1987, páginas que vão ficar gravadas a ouro no livro de honra daqueles que lutaram pela liberdade. Quando se fizer a chamada dos que aniquilaram o regime racista de Pretória, os sobreviventes dos combates de Mavinga, do Chambinga, do Tumpo e do Cuito Cuanavale estão na primeira linha, mostrando o seu orgulho de serem angolanos.
Batalha de tanques ditou uma das mais importantes vitórias.
Novembro de 1987. Junto à nascente do rio Chambinga as tropas angolanas, ainda sem o saberem, estão a construir os alicerces da nova Angola e a libertar África do apartheid.
No dia 11 de Novembro de 1987, em plenos combates na zona da nascente do rio Chambinga, o jornal “Star” de Joanesburgo noticiava que “Cuba nega que as suas tropas estejam a combater contra os sul-africanos”.
O jornal “Granma” em Havana escreveu em editorial de primeira página, no dia anterior, 18 de Novembro de 1987, que “são falsos e infundados os relatos sul-africanos que referem o envolvimento de cubanos e soviéticos nos combates do sul de Angola”. Era a verdade nua e crua.
O comandante Fidel de Castro, no livro “Cuba e Angola lutando pela liberdade de África e a nossa”, página 80, escreve: “Uma situação verdadeiramente crítica foi criada no Cuito Cuanavale, onde não estavam cubanos, porque a unidade cubana mais próxima, estava 200 quilómetros a Oeste”. A História só pode ser escrita por homens verdadeiramente honrados e com verdade.
No Triângulo do Tumpo, milhares de angolanos, quase todos jovens com o máximo de 25 anos, incluindo os oficiais que comandavam as forças, fizeram renascer o espírito indomável de um povo que acompanhou Agostinho Neto no exaltante combate pela Independência Nacional. E apoiou os esforços de guerra dirigida pelo Comandante em Chefe, José Eduardo dos Santos, o líder que nunca foi vencido.
Um punhado de jovens angolanos escreveu, naquele Novembro de 1987, páginas que vão ficar gravadas a ouro no livro de honra daqueles que lutaram pela liberdade. Quando se fizer a chamada dos que aniquilaram o regime racista de Pretória, os sobreviventes dos combates de Mavinga, do Chambinga, do Tumpo e do Cuito Cuanavale estão na primeira linha, mostrando o seu orgulho de serem angolanos. No dia 9 de Novembro de 1987, junto à nascente do rio Chambinga, começaram os heróicos combates dos angolanos. O jornal “Star” de Joanesburgo, na sua edição do dia 11, noticia que “Pretória reconhece que 25 dos seus soldados foram mortos em confrontos nas últimas três semanas, quando apoiavam a UNITA contra uma ofensiva governamental”. Helmoed Roemer Heitman descreve com pormenores precisos como decorreu a “Operação Moduler”, na sua terceira e última fase, e como terminou a 26 de Novembro, com a retirada das tropas sul-africanas vergadas ao peso de derrota.
O jornal “Granma” em Havana escreveu em editorial de primeira página, no dia anterior, 18 de Novembro de 1987, que “são falsos e infundados os relatos sul-africanos que referem o envolvimento de cubanos e soviéticos nos combates do sul de Angola”. Era a verdade nua e crua.
O comandante Fidel de Castro, no livro “Cuba e Angola lutando pela liberdade de África e a nossa”, página 80, escreve: “Uma situação verdadeiramente crítica foi criada no Cuito Cuanavale, onde não estavam cubanos, porque a unidade cubana mais próxima, estava 200 quilómetros a Oeste”. A História só pode ser escrita por homens verdadeiramente honrados e com verdade.
No Triângulo do Tumpo, milhares de angolanos, quase todos jovens com o máximo de 25 anos, incluindo os oficiais que comandavam as forças, fizeram renascer o espírito indomável de um povo que acompanhou Agostinho Neto no exaltante combate pela Independência Nacional. E apoiou os esforços de guerra dirigida pelo Comandante em Chefe, José Eduardo dos Santos, o líder que nunca foi vencido.
Um punhado de jovens angolanos escreveu, naquele Novembro de 1987, páginas que vão ficar gravadas a ouro no livro de honra daqueles que lutaram pela liberdade. Quando se fizer a chamada dos que aniquilaram o regime racista de Pretória, os sobreviventes dos combates de Mavinga, do Chambinga, do Tumpo e do Cuito Cuanavale estão na primeira linha, mostrando o seu orgulho de serem angolanos. No dia 9 de Novembro de 1987, junto à nascente do rio Chambinga, começaram os heróicos combates dos angolanos. O jornal “Star” de Joanesburgo, na sua edição do dia 11, noticia que “Pretória reconhece que 25 dos seus soldados foram mortos em confrontos nas últimas três semanas, quando apoiavam a UNITA contra uma ofensiva governamental”. Helmoed Roemer Heitman descreve com pormenores precisos como decorreu a “Operação Moduler”, na sua terceira e última fase, e como terminou a 26 de Novembro, com a retirada das tropas sul-africanas vergadas ao peso de derrota.
Nascente do rio Chambinga
Dia 9 de Novembro de 1987, dois dias antes do 12º aniversário da Independência Nacional. Após os combates de Mavinga, as Brigadas das FAPLA agrupam-se na zona do rio Chambinga e preparam a “limpeza do terreno” para retomarem a ofensiva. Mas o alto comando das tropas sul-africanas decidiu também passar à ofensiva.
O objectivo era empurrar as tropas angolanas para a margem Oeste do rio Cuito, tomar a vila do Cuito Cuanavale e isolar as nossas Brigadas.
Helmoed Roemer Heitman revela a composição das forças da África do Sul: 3.000 soldados, 500 viaturas, batalhões da UNITA, centenas de canhões e outras armas pesadas. A força atacante era constituída pelo 4º Batalhão de Infantaria, 61º Batalhão de Infantaria Mecanizada (tanques) com três companhias, um esquadrão de tanques “Oliphant”, uma bateria de canhões G5 (oito peças), uma secção de canhões G6 (três peças) - uma versão auto-propulsada do canhão G5. Tinha ainda um grupo de lança-roquetes múltiplos Valkyrie, os “Shindungus”, dois grupos mecanizados de combate, e a Task Force “Delta”, unidade de reconhecimento, informação e infiltração.
Também estavam “embebidos” nas tropas dos racistas vários batalhões da UNITA de Jonas Savimbi.
O objectivo era empurrar as tropas angolanas para a margem Oeste do rio Cuito, tomar a vila do Cuito Cuanavale e isolar as nossas Brigadas.
Helmoed Roemer Heitman revela a composição das forças da África do Sul: 3.000 soldados, 500 viaturas, batalhões da UNITA, centenas de canhões e outras armas pesadas. A força atacante era constituída pelo 4º Batalhão de Infantaria, 61º Batalhão de Infantaria Mecanizada (tanques) com três companhias, um esquadrão de tanques “Oliphant”, uma bateria de canhões G5 (oito peças), uma secção de canhões G6 (três peças) - uma versão auto-propulsada do canhão G5. Tinha ainda um grupo de lança-roquetes múltiplos Valkyrie, os “Shindungus”, dois grupos mecanizados de combate, e a Task Force “Delta”, unidade de reconhecimento, informação e infiltração.
Também estavam “embebidos” nas tropas dos racistas vários batalhões da UNITA de Jonas Savimbi.
Primeiros combates
As FAPLA estavam em grande desvantagem em homens e meios. A proporção era de um para quatro. O inimigo avançou sobre a 16ª Brigada, que se defendeu heroicamente numa mata cerrada na nascente do rio Chambinga. Os invasores organizaram as tropas em Força A, que atacou pelo Sudoeste, a Força B, que atacou no sentido Sul-Norte, e a Força C, mais as unidades da UNITA, que atacaram pelo Norte.
Dia 9 de Novembro de 1987, às cinco da manhã. Começa um intenso bombardeamento de artilharia pesada sobre as posições da 16ª Brigada das FAPLA. Pela primeira vez são utilizados pelo inimigo os canhões G6. Logo a seguir entram em acção os aviões “Mirage”. A Força A chega rapidamente ao pé da “linha de contacto”. A resposta das tropas angolanas é violenta e o inimigo recua ficando de reserva na retaguarda. As FAPLA detectam nesta manobra uma armadilha e ficam nas suas posições.
A Norte, a Força C move-se para o ataque. As tropas da UNITA marcham à frente, mas logo que entram em combate retiram desordenadamente. Os oficiais sul-africanos estavam convencidos de que iam encontrar as forças angolanas divididas, com unidades na perseguição à Força A. Este erro foi fatal. O comando “lamentou” ter enviado a tropa da UNITA à frente dos tanques, porque foram confundidos com as FAPLA.
Dia 9 de Novembro entre as oito e as nove da manhã. Cinco tanques das tropas angolanas lançam-se contra os tanques “Oliphant” e transportadores blindados “Ratel”. O fogo é intenso. Uma hora mais tarde, ao avançar sobre a 16ª Brigada, a Força C fica inutilizada. Os apontadores angolanos estavam em cima das árvores e de lá orientavam o tiro dos morteiros.
Uma secção de desembarque das forças do apartheid, ao saltar de um tanque “Ratel”, é dizimada pelo fogo dos morteiros.
Em desespero de causa, a Companhia D do Batalhão Búfalo tenta entrar nas linhas de defesa da 16ª Brigada, e é rechaçada. A Companhia B do Batalhão Búfalo fica inviabilizada face ao fogo preciso das forças angolanas
Dia 9 de Novembro de 1987, às cinco da manhã. Começa um intenso bombardeamento de artilharia pesada sobre as posições da 16ª Brigada das FAPLA. Pela primeira vez são utilizados pelo inimigo os canhões G6. Logo a seguir entram em acção os aviões “Mirage”. A Força A chega rapidamente ao pé da “linha de contacto”. A resposta das tropas angolanas é violenta e o inimigo recua ficando de reserva na retaguarda. As FAPLA detectam nesta manobra uma armadilha e ficam nas suas posições.
A Norte, a Força C move-se para o ataque. As tropas da UNITA marcham à frente, mas logo que entram em combate retiram desordenadamente. Os oficiais sul-africanos estavam convencidos de que iam encontrar as forças angolanas divididas, com unidades na perseguição à Força A. Este erro foi fatal. O comando “lamentou” ter enviado a tropa da UNITA à frente dos tanques, porque foram confundidos com as FAPLA.
Dia 9 de Novembro entre as oito e as nove da manhã. Cinco tanques das tropas angolanas lançam-se contra os tanques “Oliphant” e transportadores blindados “Ratel”. O fogo é intenso. Uma hora mais tarde, ao avançar sobre a 16ª Brigada, a Força C fica inutilizada. Os apontadores angolanos estavam em cima das árvores e de lá orientavam o tiro dos morteiros.
Uma secção de desembarque das forças do apartheid, ao saltar de um tanque “Ratel”, é dizimada pelo fogo dos morteiros.
Em desespero de causa, a Companhia D do Batalhão Búfalo tenta entrar nas linhas de defesa da 16ª Brigada, e é rechaçada. A Companhia B do Batalhão Búfalo fica inviabilizada face ao fogo preciso das forças angolanas
Inimigo desmoralizado
No auge da batalha, uma antiaérea ZU de 33 milímetros atingiu um tanque “Ratel”. Um sul-africano morre. Um “Ratel” paralisa um tanque T54 das FAPLA, mas um T55 passa-lhe por cima. São esmagados o comandante e o condutor. Outro ocupante tentou fugir a pé e foi abatido.
Às dez da manhã, um tanque T55 põe fora de combate um “Oliphant”. Numa pausa dos combates os oficiais do comando sul-africano manifestam desalento e culpam os “Oliphant” da derrota. De melhor tanque do mundo, o “Oliphant” passou a ter pouca capacidade de manobra, o depósito do combustível com baixa autonomia e pouco preciso no tiro. Os invasores começaram a perceber que para chegarem ao Cuito Cuanavale tinham muito que penar e muito soldado para morrer.
Os combates terminaram às 14h30. Os sul-africanos contam as baixas e ficam desmoralizados. As terras pantanosas e sagradas do Cuando Cubango estavam a ser um autêntico cemitério dos soldados do apartheid.
11 de Novembro de 1987 às seis horas da manhã. A 16ª Brigada está na parte Sul da nascente do rio Chambinga em posições muito favoráveis. De repente, começam os bombardeamentos de artilharia que duraram até às nove horas. Quando se calaram os canhões, um grupo de diversão ataca e retira-se para Leste. As FAPLA percebem que era mais uma armadilha e não se movem. Passados 30 minutos, a força principal ataca as forças angolanas.
Fonte:JA 15 de Novembro, 2014
Às dez da manhã, um tanque T55 põe fora de combate um “Oliphant”. Numa pausa dos combates os oficiais do comando sul-africano manifestam desalento e culpam os “Oliphant” da derrota. De melhor tanque do mundo, o “Oliphant” passou a ter pouca capacidade de manobra, o depósito do combustível com baixa autonomia e pouco preciso no tiro. Os invasores começaram a perceber que para chegarem ao Cuito Cuanavale tinham muito que penar e muito soldado para morrer.
Os combates terminaram às 14h30. Os sul-africanos contam as baixas e ficam desmoralizados. As terras pantanosas e sagradas do Cuando Cubango estavam a ser um autêntico cemitério dos soldados do apartheid.
11 de Novembro de 1987 às seis horas da manhã. A 16ª Brigada está na parte Sul da nascente do rio Chambinga em posições muito favoráveis. De repente, começam os bombardeamentos de artilharia que duraram até às nove horas. Quando se calaram os canhões, um grupo de diversão ataca e retira-se para Leste. As FAPLA percebem que era mais uma armadilha e não se movem. Passados 30 minutos, a força principal ataca as forças angolanas.
Fonte:JA 15 de Novembro, 2014
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Após o Acordo do Alvor
Em finais de Janeiro de 1975 toma posse perante o Alto Comissário Gen. Silva Cardoso o governo de Transição com pastas distribuídas pelos três movimentos e por Portugal, não fazendo Portugal parte do Colégio Presidencial (Lopo do Nascimento/Johny Eduardo Pinóqui/N’Dele). As reuniões do Governo de Transição tornam-se palco de permanentes agressões verbais, quando não de tentativas de agressão física. [11]
A situação interna não cessa de se deteriorar, chegando-se a uma situação de guerra aberta entre o MPLA e a FNLA que entra no limiar da guerra civil no interior da cidade de Luanda.
As forças militares mistas como embrião do exército nacional angolano previstas no Acordo do Alvor, não avançam dada a situação de confronto permanente entre os Movimentos apesar dos esforços da parte portuguesa.
A atitude de “neutralidade passiva” do Alto Comissário, pelo menos no que às atitudes inconvenientes da FNLA que violavam o Acordo de Alvor, o que provocava um confronto permanente entre o MFA de Angola e o Alto Comissário.
Proibição de entrada de forças militares em Luanda não respeitada pela FNLA e MPLA que continuam a introduzir na capital homens e armamento que serve para o confronto urbano.
Em finais de Abril o MFA de Angola elabora um estudo de situação que envia para o Conselho de Revolução que se tinha institucionalizado em Portugal depois do golpe do 11 de Março, no qual apresenta os principais problemas com que a descolonização de Angola se debate:
◦Governo de Transição paralisado;
◦Forças militares mistas não avançam [12] . Presume-se mesmo a presença de militares zairenses entre os elementos da FNLA, falando apenas o francês;
◦Constantes violações do Acordo do Alvor por parte dos movimentos;
◦Incapacidade anímica do Alto Comissário português para dominar a situação;
O MFA de Angola já então designado por CCPA [13] , propõe:
◦A “neutralidade activa” [14] por contraponto à “neutralidade passiva” do Alto Comissário;
◦A aliança MPLA/UNITA para se poder recuperar o essencial do Alvor, face à auto-marginalização da FNLA. Esta proposta não foi em frente porque o MPLA a recusou à partida;
◦A substituição do A. C. que se distanciava cada vez mais da CCPA;
◦O reforço do papel do MFA só possível com a sua institucionalização como acontecera em Portugal com o C. R.;
Estava bem delineada a confrontação para a conquista do poder. Os confrontos MPLA/FNLA agravavam-se em Luanda e alastraram a outros distritos.
De novo o MFA de Angola vem a Portugal em finais de Maio expor a gravidade da situação, sugerindo a necessidade de uma nova cimeira, para a qual o MPLA e a UNITA não se opunham totalmente. Este Movimento ocupava uma posição fortalecida em Nova Lisboa, endurecendo o seu discurso contra Portugal.
Os três movimentos encontram-se em Nakuru entre 16/21 de Junho, sem a presença de representante português, em princípio o Alto Comissário, em clara violação dos Acordos do Alvor. O comunicado final, «...omite, ostensivamente qualquer referência a Portugal, mas tinha aspectos positivos nomeadamente uma análise da situação que podia ser encarada, sem esforço, como uma séria autocrítica e que nos seus pontos fundamentais coincidia com os estudos que a CCPA vinha fazendo [15] .
Embora este Acordo de Nakuru declarasse que os três presidentes «...afirmam solenemente renunciar ao uso da força como meio de solucionar os problemas e honrar os compromissos resultantes do Acordo...» [16] , os resultados práticos foram nulos e caminhava-se para a guerra civil generalizada.
O MPLA lança a batalha de Luanda para expulsar a FNLA da capital, o que consegue. A FNLA, de acordo com Pezarat Correia, «tinha concentrado no Norte um forte exército, já com unidades do tipo convencional incluindo algumas forças do exército regular zairense, e inicia uma manobra para sul cujo objectivo é a ocupação de Luanda» [17] , ocupando nos finais de Julho os distritos do Zaire e do Uíge. A UNITA domina o planalto central expulsando as forças do MPLA e da FNLA dos distritos do Huambo e do Bié.
É a escalda da guerra civil com os movimentos a ocuparem partes do território, o que podia conduzir à balcanização de Angola. As forças militares portuguesas ainda espalhadas pelo território foram concentradas nas principais cidades para evitar serem envolvidas nos conflitos entre movimentos e em relação a Luanda é dada ordem de impedir qualquer tentativa de entrada da FNLA na capital. Ao pedido da parte portuguesa a Lisboa de reforço de meios, apenas é disponibilizada uma companhia de pára-quedistas (cerca de 120 homens).
Portugal vivia um processo complicado e era difícil, sobretudo os partidos políticos colocarem nas suas listas de prioridade o problema de Angola. Não dava votos. É o Presidente da República que assume o controlo mais directo do processo, para o que sentiu a necessidade de criar junto a si um Gabinete de Angola a fim de ter uma ligação mais directa com Luanda e ter disponível informação em tempo oportuno. Eu vim integrar esse Gabinete como elemento ligado ao processo desde o princípio e conhecedor da situação que se vivia em Angola (finais de Junho de 1975) onde, juntamente com o Cor. Passos Ramos que como elemento da Comissão Nacional de Descolonização estivera no Alvor, passámos a assessorar o P.R. no que à descolonização de Angola dizia respeito.
Em 30 de Julho o Alto Comissário, General Silva Cardoso, demite-se sendo substituído pelo Almirante Leonel Cardoso. Perante o não funcionamento dos órgãos previstos no Acordo do Alvor e a permanente violação do acordado, Portugal decide suspender parcialmente o Acordo de Alvor, o que levantou delicados problemas em termos de direito internacional, tendo sido incumbidos de estudar uma solução jurídica para o assunto a Professora Magalhães Colaço da Faculdade de Direito de Lisboa e o Dr. Miguel Galvão Teles. Entretanto no território, verifica-se a internacionalização do conflito: Zaire, África do Sul e Cuba intervêm em apoio aos diferentes movimentos
Em vésperas da independência estava iminente o ataque a Luanda em duas frentes. Mas o MPLA/Cubanos resistiram e a capital permaneceu em poder do MPLA graças à destruição da ponte sobre o rio Queve que deteve a coluna que se aproximava de sudeste e da coluna do FNLA, integrando mercenários portugueses, ter sido derrotada na batalha do Kifandongo. [18]
Em reunião da Comissão Nacional de Descolonização de dia 09 de Novembro é decidido o envio de uma Delegação a Luanda em representação de Portugal no momento da declaração de independência de Angola, chefiada pelo Almirante Victor Crespo e na qual eu me integrava. Por decisão do Governo foi travada a ida dessa delegação a Luanda, pelo que a independência da República Popular de Angola foi proclamada sem a presença de qualquer representante da antiga potência colonizadora, Portugal.
A 10 de Novembro, pelas dezoito horas, o Alto Comissário leu uma proclamação em nome da República Portuguesa, reconhecendo a independência do Estado Angolano e a entrega da soberania ao povo angolano a quem compete decidir das formas do exercício da soberania, após o que a última bandeira portuguesa símbolo da soberania portuguesa em África foi arriada e o Alto Comissário e comitiva embarcaram numa fragata da Marinha de Guerra Portuguesa [19] . Às zero horas de dia 11 de Novembro de 1975 estava fora das águas territoriais angolanas, navegando rumo a Portugal, enquanto o Dr. Agostinho Neto proclamava solenemente a República Popular de Angola, enquanto a FNLA e A UNITA proclamavam no Uíge e no Huambo a República Democrática de Angola, sem sucesso.
Foi a única ex-colónia onde se proclamou a independência sem a presença de representantes oficiais de Portugal. Lamento o que considero um grave erro histórico que teve consequências no relacionamento entre os dois países, vindo Portugal a ser o 83.º país a reconhecer, tardiamente, o país independente que nascera da sua antiga colónia. """
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