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sexta-feira, 16 de outubro de 2026
O MUNDO MANIFESTA-SE, MAS ONDE ESTÃO OS ESTUDANTES ANGOLANOS?
Enquanto a atenção da comunicação social internacional se concentra nas manifestações estudantis que, em diferentes partes do mundo, levam milhares de jovens às ruas para reivindicar direitos, exigir reformas e contestar decisões que comprometem o seu futuro, Angola parece assistir a este fenómeno à distância, envolvida num silêncio que merece uma reflexão séria.
Por: Artur Cussendala, 16OUT 2026
Este é um daqueles momentos em que a mobilização estudantil internacional pode servir de inspiração e demonstrar que a juventude, quando consciente dos seus direitos e organizada em torno de causas comuns, pode tornar-se uma força incontornável de transformação social. As oportunidades históricas nem sempre se repetem com a mesma intensidade. Por isso, importa perguntar, onde estão os estudantes angolanos perante os desafios que afectam o seu presente e ameaçam o seu futuro?
Estarão satisfeitos com as condições de ensino, as dificuldades de acesso às universidades, a insuficiência de bolsas de estudo, os problemas de transporte, a precariedade das infra-estruturas escolares e as incertezas quanto à sua inserção no mercado de trabalho? Ou estaremos perante uma juventude condicionada pelo medo, pela descrença na eficácia dos protestos, pela falta de organização e pela ausência de lideranças estudantis verdadeiramente comprometidas com os interesses da classe?
Não seria justo generalizar nem ignorar os jovens que, em Angola, se mobilizam e intervêm publicamente. Existem estudantes que levantam a voz e assumem riscos em defesa dos seus direitos. Contudo, a questão permanece e resta saber o apor que razão essa energia não se traduz numa mobilização estudantil mais ampla, consistente e capaz de colocar os problemas da classe na agenda nacional?
Talvez uma parte da resposta resida na fragilidade das estruturas de representação estudantil, na excessiva proximidade de algumas lideranças ao poder político, no receio de represálias ou, simplesmente, na convicção de que protestar pouco adianta quando as decisões parecem tomadas à margem daqueles que mais directamente serão afectados por elas.
Entretanto, não podemos continuar a invocar, de forma quase automática, o carácter «heróico e generoso» do povo angolano como se a resistência às adversidades fosse, por si só, uma solução. A capacidade de suportar dificuldades é uma virtude quando acompanhada de coragem para as enfrentar; quando se transforma em resignação, corre o risco de perpetuar os mesmos problemas que deveria ajudar a superar.
A universidade não deve ser apenas um espaço de formação académica. Deve também ser um lugar de pensamento crítico, consciência cívica, debate livre e participação na vida nacional. Um estudante que aprende a interpretar o mundo, mas se sente incapaz de questionar a realidade que o rodeia, vê limitada uma dimensão fundamental da sua própria formação.
Naturalmente, não se trata de importar mecanicamente os métodos de protesto de outros países, nem de transformar os estudantes em instrumentos de disputas partidárias. Trata-se de reconhecer que reivindicar melhores condições de ensino, defender a liberdade académica e exigir respostas às preocupações da juventude são direitos legítimos, que podem ser exercidos de forma pacífica, responsável e organizada.
O silêncio dos estudantes angolanos não prova que tudo esteja bem, tal como a ausência de manifestações não significa necessariamente ausência de descontentamento. Mas, se os problemas existem e são sentidos diariamente, é legítimo questionar o que impede a sua transformação em reivindicações colectivas consequentes.
Num momento em que jovens de diferentes geografias demonstram que a participação cívica continua a ser uma ferramenta de pressão e mudança, Angola precisa de reflectir sobre o papel da sua juventude universitária. Não para que os estudantes saiam às ruas por imitação, mas para que compreendam que nenhum futuro colectivo se constrói plenamente sem participação, organização e capacidade de reivindicação.
A pergunta, portanto, não é apenas por que razão os estudantes angolanos não se manifestam. É também esta: quem os representa, quem lhes dá voz e que condições lhes são oferecidas para exercerem, sem medo, o direito de exigir um futuro melhor?
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