sábado, 31 de outubro de 2026

ESCREVER COM RIGOR NUM PAÍS CARENTE DE INFORMAÇÃO

Escrever com o rigor que determinados assuntos exigem constitui um desafio não apenas para os jornalistas e fazedores de opinião, mas também para todos os que cultivam o gosto pela escrita e procuram interpretar os fenómenos sociais. O problema começa, muitas vezes, na escassez de referências bibliográficas, na dificuldade de acesso a fontes credíveis e, sobretudo, na ausência de estudos científicos que permitam fundamentar determinadas abordagens. Num contexto em que a investigação científica ainda não ocupa o espaço que deveria na produção do conhecimento, e em que a informação institucional é escassa ou de difícil acesso, muitos acabam por recorrer à observação empírica, às experiências individuais e até a deduções pessoais para tentar explicar fenómenos sobre os quais pouco ou nada se sabe. Não necessariamente por falta de vontade de investigar, mas porque, frequentemente, faltam os instrumentos e as fontes indispensáveis para o fazer com o rigor desejado. Estas reflexões surgiram durante uma conversa particularmente enriquecedora com o ilustre Raimundo Salvador, a propósito do meu último texto, no qual procurei compreender e problematizar os relatos de casos de AVC que algumas pessoas associam à administração das vacinas contra a COVID-19, desenvolvidas e aplicadas num contexto de emergência sanitária mundial. A questão merece investigação séria, sem preconceitos nem conclusões precipitadas. É verdade que nenhuma vacina está absolutamente isenta de efeitos adversos. Também é verdade que a segurança das vacinas deve ser permanentemente monitorizada, mesmo depois da sua introdução nos programas de vacinação. Contudo, importa distinguir uma associação temporal de uma relação comprovada de causa e efeito. Concordo o Raimundo quando diz que o facto de determinados casos de AVC terem ocorrido depois da vacinação não significa necessariamente, por si só, que tenham sido provocados por ela. É precisamente aqui que reside uma das nossas maiores dificuldades enquanto sociedade. Em Angola, continuamos a deparar-nos com uma preocupante insuficiência de dados estatísticos acessíveis, estudos epidemiológicos e informações institucionais que permitam acompanhar e compreender determinados fenómenos de saúde pública. Quantos casos foram registados? Qual é a sua distribuição por idade e região? Que estudos foram realizados para investigar eventuais relações entre a vacinação e determinados acontecimentos adversos? Onde estão os relatórios das entidades competentes? Sem respostas documentadas para estas perguntas, torna-se difícil produzir análises consistentes e separar factos, percepções e especulações. Não se trata de exigir que todos os cidadãos sejam investigadores científicos, mas de reconhecer que uma sociedade que não produz conhecimento, não organiza os seus dados e não disponibiliza informação pública acaba por condenar os seus próprios cidadãos à interpretação empírica da realidade. O problema não está em questionar; está em não termos informação suficiente para fundamentar as respostas. E questionar a segurança de uma vacina não deve ser confundido com negacionismo, da mesma forma que defender a vacinação não deve significar ignorar a necessidade de investigar os seus possíveis efeitos adversos. Escrever com responsabilidade exige fontes, dados, investigação e espírito crítico. Mas exige também instituições que compreendam que a informação pública não é um favor que prestam aos cidadãos mas sim, um dever. Artur Cussendala, 31OUT 2026

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