quinta-feira, 29 de maio de 2025

 Carta Aberta: Em nome do mérito e da verdade



Ao acompanhar a divulgação dos nomes que irão receber honrarias por ocasião dos 50 anos de Independência de Angola, sinto-me compelido a partilhar uma reflexão que nasce, não da vaidade, mas da consciência do que representei — e continuo a representar — na construção desta Nação.


Durante décadas, servi Angola com dedicação e coragem, tanto nas forças de de defesa e segurança, onde enfrentei riscos de vida reais, como no setor civil, onde abracei causas maiores que o conforto pessoal. Dormi inúmeras vezes em viaturas para garantir, com o rigor técnico necessário, o sucesso de varios processos eleitorais cruciais para a nossa democracia. Fui ainda pioneiro na instalação da Internet a nível nacional — uma transformação silenciosa, mas de impacto profundo para o progresso e modernização do país.

Não busquei protagonismo, apenas cumpri, com zelo e patriotismo, as missões que me foram confiadas. Talvez a minha maior “falha”, aos olhos de alguns, tenha sido nunca ter pertencido ao partido que sustenta o regime mas militei nas suas organizações juvenis. Mas acredito e continuarei a acreditar que servir Angola deve ser critério suficiente para reconhecimento, independentemente de filiações políticas.

Não escrevo estas linhas em busca de reparações, mas em nome do mérito, da memória e da justiça. Que, ao celebrarmos 50 anos de independência, possamos também celebrar todos aqueles que, no silêncio ou nas sombras, deram o melhor de si por esta pátria.

Com respeito e esperança,
Artur Graça Cussendala
Funcionário público Reformado

terça-feira, 27 de maio de 2025

 

É, no mínimo, intrigante a ausência do Presidente de Angola no desfile do Dia da Vitória na Rússia. Ainda mais depois de ter aceitado o convite pessoal de Vladimir Putin em 2024. Para um líder conhecido por não perder uma boa oportunidade de viajar — às vezes sem que o país perceba qualquer retorno prático —, essa recusa de última hora chama atenção.

O que terá motivado essa mudança repentina?
Será que Angola está, discretamente, tentando alinhar-se ao bloco ocidental no conflito da Ucrânia? Ou teria sido o desconforto de dividir espaço com figuras como Ibrahim Traoré, do Burkina Faso, que também tem sido presença constante nas agendas russas?
É bom lembrar que os laços históricos entre Angola e a Rússia são profundos. Durante décadas, Moscovo foi um dos principais aliados do país — politicamente, militarmente e até academicamente. O próprio Presidente foi formado na então União Soviética. Recusar um convite simbólico como esse, ainda mais em tempos tão sensíveis, pode ser interpretado como uma mudança de rota diplomática.
Seja como for, a ausência não passou despercebida. E, vindo de quem vem, talvez diga mais do que qualquer discurso oficial.
08 MAI 3025

 A Diplomacia Angolana à Deriva

Por Artur Cussendala - Cusse Ndala

A ausência do Presidente João Lourenço nas comemorações do Dia da Vitória em Moscovo, um evento emblemático para a diplomacia internacional e para os aliados tradicionais da Rússia, revela muito mais do que uma simples escolha de agenda. É um sintoma de uma diplomacia fragilizada, hesitante e cada vez mais isolada no palco global.
O Presidente preferiu ligar ao seu homólogo do Azerbaijão — que estava precisamente em Moscovo — para falar de cooperação. A coincidência geográfica não passa despercebida. Teria sido uma tentativa indirecta de se fazer notar por Vladimir Putin? Em seguida, embarcou numa visita à Índia, que muitos interpretam como uma jogada para persuadir Narendra Modi a interceder junto da liderança russa. O gesto é revelador: Angola parece não conseguir mais falar directamente com os parceiros que antes tratava como estratégicos.
Este quadro expõe um momento de depressão diplomática profunda. A virada no xadrez geopolítico mundial agravou-se com o regresso de Donald Trump ao centro das decisões, trazendo incerteza e instabilidade às relações multilaterais. O Ocidente não conseguiu conter Putin na Ucrânia, e a influência russa continua firme. Ao mesmo tempo, a China dá sinais claros de desagrado com Angola. O convite para o Fórum de Cooperação China-África (FOCAC) nunca chegou, um gesto simbólico que não pode ser ignorado.
Agora, há rumores de um novo convite à nossa diplomacia, mas a confirmação oficial não veio. E, num momento tão delicado, o embaixador de Angola na Rússia parece estar ausente do país.
A diplomacia angolana vive dias de perplexidade. O país que, outrora, mediava conflitos regionais e se sentava à mesa com potências globais, hoje parece hesitar diante dos grandes dilemas da política externa. O silêncio torna-se ensurdecedor. E a ausência nos lugares-chave é mais eloquen
te do que qualquer discurso.
Se Angola quiser recuperar relevância internacional, precisará mais do que manobras de bastidores. Precisará de clareza estratégica, presença firme e coragem diplomática.

Artur Cussendala é angolano, analista independente e observador atento da política internacional e da diplomacia africana, gere um canal de informação #angolaeomundoaominuto. Com uma experiência de mais de 35 anos de serviço público, escreve regularmente sobre os rumos políticos e estratégicos de Angola no contexto global.


África, o Vaticano e o Papa que nunca virá: Pela construção de uma igreja africana autônoma

Por Artur Cussendala
Ao longo da história do cristianismo, especialmente dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, o papa tem sido tradicionalmente europeu — sobretudo italiano. De 266 papas ao longo de dois milênios, nenhum foi africano negro. Alguns papas do norte da África (como São Vítor I e São Gelásio I) viveram nos primeiros séculos do cristianismo, mas eram provavelmente berberes romanizados, não africanos negros de origem subsaariana. Isso levanta uma pergunta incômoda, mas necessária: há espaço para um papa negro na Igreja Romana?
Embora o cristianismo tenha florescido em África desde os seus primórdios, o continente continua relegado a posições marginais no centro de poder do Vaticano. A pergunta que ressoa, especialmente entre os fiéis africanos, é inquietante: por que, após dois mil anos de cristianismo, nunca houve um papa negro?
Com o símbolo da "fumaça branca" como anúncio do novo pontífice, permanece o paradoxo: nenhuma fumaça será verdadeiramente branca enquanto a exclusão persistir.
Desde a sua estrutura fundacional, a Igreja Católica concentrou o seu poder espiritual e político na Europa. A Cúria Romana, o Colégio de Cardeais, as Congregações e demais órgãos decisórios são, em sua maioria, compostos por membros europeus ou educados segundo a tradição teológica ocidental.
Apesar de contar com milhões de fiéis africanos — muitos dos quais vivem a fé com mais intensidade que os europeus secularizados — a África permanece representada de forma simbólica e raramente influente.
A evangelização da África foi frequentemente realizada em paralelo com os processos coloniais. A fé cristã, longe de ser neutra, tornou-se instrumento de destruição de culturas locais, línguas, espiritualidades ancestrais e modos de vida. A fé ensinada vinha acompanhada de uma mensagem implícita: salvação exige submissão.
Esse passado não pode ser ignorado quando se analisa a estrutura da Igreja hoje. A ausência de um papa africano é mais que acaso: é continuidade de um projeto histórico de dominação espiritual.
Diante deste quadro, é legítimo e urgente propor a criação de uma Igreja Católica Africana independente, com sua própria hierarquia, teologia, ritos e liderança espiritual. Uma igreja que:
- valorize a cultura africana como expressão legítima da fé;
- dialogue com tradições espirituais locais sem demonizá-las;
- forme seus próprios teólogos e líderes espirituais com base em realidades africanas;
- escolha o seu próprio chefe — um papa africano — que fale por e para os africanos.
Não se trata de cisma ou revolta, mas de autonomia e maturidade espiritual.
A construção de uma igreja africana enfrentará desafios: resistência interna (de membros apegados ao Vaticano), rejeição externa (por parte da Santa Sé) e o dilema da unidade da fé. No entanto, a história mostra que toda reforma começa com ruptura e coragem.
África precisa de uma igreja que cante com suas vozes, ore com seus ritmos, chore suas dores e celebre sua esperança. Um papa africano só surgirá quando a África decidir não esperar mais pelo fumo branco de Roma, mas acender sua própria chama.
A representatividade importa. O poder importa. A fé importa. A ausência de um papa negro não é um simples detalhe simbólico — é sintoma de uma estrutura desigual. Para curar essa ferida, talvez a solução não esteja em lutar por espaço no Vaticano, mas em construir um novo altar, sobre solo africano, com pedra africana e espírito africano.

10 MAI 2025
___________________________
Referências bibliográficas:
Mbiti, John. African Religions and Philosophy.
Tshaka, Rothney. African Theology and the Decolonization of the Christian Mind.
Vatican Archives: List of Popes.
Mudimbe, Valentin-Yves. The Invention of Africa.

 AS MARCAS DE UM DITADOR

Esta imagem tem circulado nas redes sociais e mostra o presidente do Gabão em visita a uma zona afectada pelas intensas chuvas, caminhando pessoalmente pelas águas lamacentas. Para mim, trata-se de um gesto claramente populista, típico de certos líderes africanos que preferem encenar empatia em vez de promover mudanças estruturais. É preocupante ver esse tipo de atitude ser usada como espetáculo político, enquanto se constrói um caminho que pode levar à perpetuação no poder — como já vimos com outros regimes autoritários no continente.
Em vez de colocar tantas pessoas em risco num cenário desses, o presidente deveria concentrar-se na criação de políticas públicas eficazes que mitiguem os impactos desses desastres. É urgente investir na melhoria dos serviços de bombeiros e proteção civil, e implementar um plano nacional de gestão de catástrofes climáticas, com foco em prevenção, resposta rápida e apoio às populações afectadas. Liderança responsável exige mais acção concreta e menos encenação.
12MAI 2025


A Neth Nahara, desde que descobriu ser seropositiva, mergulhou num turbilhão de emoções contraditórias. Ao invés de procurar apoio e enfrentar a nova realidade com responsabilidade, ela decidiu seguir um caminho perigoso: o da negação e do ressentimento. Convencida de que alguém deveria pagar pelo seu estado de saúde, começou a agir de forma impulsiva, procurando a todo custo encontrar um culpado pela sua condição.

O comportamento da Neth tornou-se cada vez mais hostil. Ela passou a ignorar normas básicas de convivência, desrespeitando familiares, amigos e até as autoridades. Sua rebeldia não é silenciosa — pelo contrário, ela faz questão de registar tudo em vídeos ou a certeza que está a ser filmada. Pública conteúdos provocativos nas redes sociais, muitas vezes explorando temas sensíveis e expondo situações privadas, apenas para gerar engajamento e atrair a atenção do público.
A vaidade e o desejo por visibilidade digital cresceram a tal ponto que a Neth parece mais preocupada em conseguir monetização para os seus vídeos do que em cuidar de si mesma ou dos outros. Suas acções irresponsáveis colocam em risco não apenas sua própria saúde, mas também a daqueles que a rodeam.
O que poderia ser uma jornada de superação e consciencialização transformou-se num espetáculo de autodestruição transmitido em tempo real — e, para ela, quanto mais visualizações, melhor. Num mundo em que os "likes" se tornaram moeda emocional, a Neth optou por vender a sua dor como entretenimento, esquecendo que por trás de cada curtida, há vidas reais sendo afectadas.
QUAL É A SUA OPINIÃO?
11MAI 2025

A Ilusão do Aumento Salarial: Quando o Estado dá com uma mão e tira com as duas - Por Artur Cussendala

Recentemente, sob forte pressão sindical, o Estado angolano decidiu aumentar em 25% os salários da função pública. À primeira vista, esta medida pareceu uma vitória dos trabalhadores e um gesto de sensibilidade governamental diante da crescente carestia. No entanto, a realidade mostrou-se bem diferente. Logo após o anúncio do aumento, o preço do litro de gasóleo disparou de 160 Kz para 300 Kz, provocando um efeito cascata sobre os preços de praticamente tudo, especialmente nos transportes e nos bens essenciais.
Como se não bastasse, veio a notícia de que as tarifas de água e electricidade poderão sofrer aumentos de até 35%. Assim, a pergunta impõe-se: o que sobrará dos 25% de aumento salarial? Na prática, quase nada. O suposto benefício foi rapidamente engolido por uma espiral de aumentos que reduziram ainda mais o poder de compra da maioria dos cidadãos.
E os reformados? Estes continuam a ver suas pensões estagnadas, enquanto o custo de vida dispara. E os trabalhadores das pequenas empresas privadas? Estes nem sequer tiveram o “luxo” de um reajuste salarial. Estão a viver a mesma inflação, mas com os mesmos rendimentos. Isso não é só injusto – é cruel.
O que mais choca, no entanto, é a passividade com que a sociedade angolana assiste a tudo isso. Não há manifestações, não há debates públicos sérios, não há pressão organizada. A sensação é de resignação, como se tudo fosse normal. Mas não é.
Não é normal trabalhar o mês inteiro e não conseguir pagar contas básicas. Não é normal ver o Estado anunciar um aumento salarial e, ao mesmo tempo, implementar medidas que destroem qualquer ganho. Não é normal que os reformados sejam abandonados enquanto o custo de vida sobe descontroladamente. E não é normal que o povo aceite tudo isso em silêncio.
É urgente despertar. O silêncio da população é interpretado como consentimento. Se queremos justiça económica, precisamos participar, questionar, exigir. Só assim podemos mudar o rumo deste ciclo de ilusão e sacrifício.
16MAI 2025

MONUMENTO ÀS VÍTIMAS DOS CONFLITOS ARMADOS EM ANGOLA: HOMENAGEAR AS VÍTIMAS, NÃO OS CARRASCOS!

Há pessoas sem noção da História e, pior ainda, com propostas que revelam uma preocupante inversão de valores. Como é possível propor que s...