quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O 4 de Fevereiro de 1961 -

Rui de Azevedo Teixeira, QN - Edição e Conteúdos, S. A.  pg 81. "A rebelião de 4 de Fevereiro, apresentada, ou melhor propagandeada, pelo MPLA como uma acção exclusivamente sua, não o foi defacto. O seu inspirador principal e alma foi o cónego português Manuel Mendes das Neves - mais tarde deportado para o convento de Soutelo, em Braga, e, quase simultaneamente, designado pela FNLA como seu presidente honorário - e a direcção operacional esteve a cargo de Neves Bendinha. Entre os executantes contavam-se simpatizantes, como Paiva, e quados do MPLA, como o comandante Tomás Ferreira ou Engrácia Francisca. Registe-se a ironia de boa parte dos executantes da acção subversiva violenta ser constituída por seminaristas do Seminário de São Domingos, digido por Manuel Mendes das Neves".

Autor, Reis Ventura
A SENTINELA
O bando concentrado no campo de futebol, nas vizinhanças do Muceque Lixeira, partiu-se em dois grupos, cabendo ao mais pequeno ir atacar o quartel da Brigada Móvel da Polícia. A todos fora distribuído o feitiço contra as balas. Todos tinham tomado o milongo da coragem. Todos acreditavam que o Deus dos brancos morrera e, por isso, eles já não tinham mais força. Bastava matar alguns e logo os outros fugiriam, como tinha acontecido no Congo Belga, donde viera o senhor Pierre mais o senhor Fernando.
O grupo destinado à Brigada Móvel levava um plano bem urdido. Os atacantes deviam meter ao Mercado da Pameli, atravessar pela Emissora Oficial (matando o guarda para que não desse o alarme) e avançar até à estrada do Catete, pelos eucaliptos. Aí, o grosso do bando escondia-se no capim, logo a seguir ao Bairro de Madame Berman, enquanto quatro homens iam liquidar a sentinela, daquela maneira que o «senhor Fernando» ensinara. E tudo o mais seria fácil.
Quando o grupo partiu, um dos que ficavam perguntou ao chefe:
— E nós?
— Nós vai todos junto na Estação do Bungo — 
declarou um preto alto, de vestuário mais cuidado e pronúncia afrancesada. — Mas, primeiro tem de arranjar uma coisa...Escolheu quatro homens, segredou-lhes rapidamente umas instruções e disse para os outros cabecilhas que aguardavam ordens:
— Toda a gente vai esconder nas barrocas, por baixo da casa do branco que trabalha nos mármore, e fica lá até a gente aparecer. Fica quieto e não faz barulho, mesmo se ouve tiros e confusão ... Andar!
Quando os outros acabaram de se sumir no carreiro que desce a falésia, os cinco negros, a um sinal do chefe, começaram a caminhar pelo asfalto, em direcção à cidade. Era uma noite de Fevereiro, quente, abafadiça, a prenunciar a primeira grande chuvada do ano. Devia passar das 2 horas da manhã. Pesadas nuvens de trovoada ocultavam o carão redondo e bolachudo da Lua cheia.
Terminadas desde há muito as sessões de cinema e abandonados, pelos últimos retardatários, os bares e esplanadas, a cidade adormecera, sob o céu, com a tranquila serenidade duma criança saudável. No silêncio impressionante, os cinco negros avançavam atentos, com as catanas curtas entaladas no cinto contra as costas, por dentro da camisa e com o cabo aflorando junto ao pescoço.
— Se calhar, a patrulha hoje não vem ... 
— opinou um ambuíla alto e espadaúdo.
— Vem sempre! — garantiu o cabecilha. 
— Há mais dum mês que eu a vejo passar, a esta mesma hora, vinda dos lados de S. Paulo. É uma «Station» verde ... Olha, ela aí vem!

Ouvia-se, efectivamente, ainda distante, o roncar dum motor de automóvel. E não tardou muito que, das bandas do posto da Boavista, surgisse o clarão dos faróis. O cabecilha, seguido dos comparsas, correu para a frente da viatura, agitando os braços. O carro da patrulha estacou de repente, com um aflitivo chiar dos pneus contra o asfalto.
— Que há? — perguntou paternalmente um guarda de rosto calmo e bonacheirão, que ia ao lado do motorista.
— Barulho, meu chefe! — disseram os cinco pretos ao mesmo tempo. — Barulho ali nas barrocas!
— Nós é estivador — acrescentou o cabecilha, adiantando-se.
— Vem agora do porto, onde teve serviço de noite. E foi atacado por uns bandido que estão nas barrocas, com facas. Parece é cabo-verdiano. Nós fugiu; mas outros ficou lá a lutar.
— Onde foi isso? — quis saber o guarda.
— Ali no frente. Por baixo daquele branco que tem loja de coisas de mármore, canteiro parece que chama. Nós pode ensinar...
— Salta para o estribo! — convidou singelamente o polícia.

O negro obedeceu, com um sorriso enigmático a arreganhar-lhe os beiços. E, agarrando-se com uma das mãos à ombreira da porta, com a outra, por cima do tejadilho, fez sinal aos parceiros para que seguissem atrás do carro.

— É já ali adiante! — informou depois, para dentro da viatura, com os olhos ávidos nas pistolas-metralhadoras dos guardas.
— Vamos lá, devagar... — disse o chefe da patrulha ao motorista. E acrescentou para o preto:
— Os bandidos eram muitos?
— Nós não reparou bem, meu chefe. Fugiu logo ...
— O carro pode chegar até lá?
— Até perto, meu chefe.

Sob a indicação do informador, o carro da patrulha rodou até muito perto da Oficina de Mármores e Cantarias, torcendo então para a esquerda, por um carreiro que levava a um quintalejo cheio de carros para reparação.

Deixando o carro, os três guardas, despreocupadamente, embora levando as suas armas, seguiram o informador. Atrás deles caminhavam os outros pretos.

— Parece eles esconderam mesmo ali...—segredou o cabecilha, indicando, alguns metros adiante, uma zona escura, circundada de tambores vazios.

Os guardas avançaram. Numa atitude de medo bem fingido, os cinco facínoras deixaram-se ficar para trás. E no momento em que os agentes da ordem, confiantes e desprevenidos, se curvavam a perscrutar a escuridão, atacaram-nos pelas costas, com as afiadíssimas catanas.

Atingidos com fundos e certeiros golpes na nuca, os três homens tombaram de borco, sem um gemido, jorrando sangue em borbotões. O cabecilha tirou-lhes rapidamente as armas e os sacos das munições.
— Vamos! — disse para os outros. — Depressa! Descendo em correria o barrocal, logo encontraram o bando, acaçapado entre os arbustos, perto dos muros da Mobil Oil.
— Já está? — perguntou aquele dos cabecilhas que dava pelo nome de «senhor Fernando».
— Já está! — respondeu sucintamente o recém-vindo. — Apanhámos duas metralhadoras. — E passou-lhe as armas.
— Uma é para ti — concedeu o outro generosamente. — Avante!

Seguiram até à passagem de nível, ao começo da estrada da Boavista, em frente dos armazéns da Junta do Café. Aí, o «senhor Fernando» destacou do grupo uns dez homens, que confiou a um negro atarracado, recomendando-lhe que fosse à estação do Caminho de Ferro, «para aquilo que ele sabia» ... Depois voltou-se para o resto do bando e, exibindo vaidosamente a pistola-metralhadora, informou:
— Nós vamos soltar os nossos irmãos que estão presos. À porta de armas da Casa da Reclusão, estava uma sentinela negra ... Com ela, vigiava também um cabo branco. Ambos naturais de Angola.
Tinham entrado de serviço à meia-noite, à hora da saída dos cinemas, quando a cidade oferece a sua última onda de vida e movimento, antes de adormecer. Durante meia hora, ouviram o roncar distante dos motores de automóveis na «Baixa» e viram as luzes dos faróis, desfilando pela Avenida Almirante Azevedo Coutinho, sobre a ferida gretada da falésia.

Ali perto, na Estação do Bungo, silvou repetidas vezes o apito duma locomotiva, na tarefa de agrupar a composição, que seguiria para Malange, ao romper da manhã. Depois, não houve mais apitos. Lá em cima, por trás do grande «écran» do «Miramar», apagaram-se as últimas luzes da esplanada. Pouco a pouco, foram cessando os mil ruídos da cidade. No cais, os guindastes, alinhados duma e doutra banda, erguiam-se, imóveis e hieráticos como grandes girafas dormindo em pé. De vez em quando, o feixe luminoso do farol das Lagostas varria a noite abafada no suadouro das nuvens baixas. E o farolim da ponta da ilha, dava-lhe, a espaços regulares, uma resposta acriançada, com o piscar da sua luzita de vaga-lume.

Durante segundos, a Lua cheia mostrou-se por entre um rasgão das nuvens, acendendo pálidos reflexos nos tanques prateados da refinaria do Alto da Mulemba. Mas logo se escondeu outra vez, deixando atrás de si uma escuridão mais espessa. Foi neste momento que os dois militares sentiram inexplicavelmente, nas suas almas iguais, sob o céu morno, a mesma sensação de opressivo silêncio.
— Eh! pá! — disse o cabo, que era de temperamento alegre e comunicativo. 
— Está uma noite de fazer sono ao diabo! Gaita! Até um homem sua a alma! ...
— É mesmo, meu cabo! — fez sucintamente a sentinela negra.
— Chateiam-me estas nuvens mesmo em riba da cabeça! — continuou o cabo, limpando, com um lenço, o suor do pescoço.
— Parecem cobertores de papa em cima da gente. Uf... Tu donde és?
— Eu é da Damba, meu cabo. Mas sentou praça aqui. Já vive há muito tempo em Luanda.
— Pois eu nasci no Bailundo. Terra bem acabada, pá! Pequena, mas sem este calor estuporado do litoral. No Bailundo, durante o cacimbo, faz frio a valer. Dizem que é quase como em Lisboa. Tu já foste no Puto?

— Eu não. E o meu cabo?
— Também não. Mas os meus pais são de lá ...
— Atão um dia há-de lá ir — deduziu o soldado. — Eu tem um amigo que já foi no Lisboa. «Terra grande e bonita, mesmo» — diz ele. — O meu cabo quando vai lá?
— Falta o dinheiro — disse o branco melancolicamente. — E, além disso, já não tenho lá ninguém. Toda a minha família está no Bailundo há muitos anos. Daqui a dois meses, já volto para lá. Tenho a minha rapariga à espera, para casarmos. É tão bonita, pá! ...

Um ar sonhador perpassou no rosto moreno do militar. Por entre a doce névoa da sua incurável saudade, emergiu a carita engraçada da noiva, naquele seu jeito humilde e nostálgico de que ele, impulsivo e folgazão, tanto gostava, dentro da sábia lei das compensações com que a natureza determina a simpatia dos contrastes.

Ela era de Nova Lisboa; mas residia, desde criança, em Vila Teixeira da Silva, onde seu pai servia o Estado, como funcionário administrativo. Contrastavam no físico e no temperamento: ele alto e bravio, ela pequenina e submissa. Mas tinham uma coisa de comum: ambos adoravam crianças. «Havemos de arranjar, para nós, aí um rancho de dez!» — tinha ele dito maliciosamente pouco antes de vir para Luanda, numa tarde de namoro. E ela havia sorrido, concordando muito corada ...

— Tu não tens rapariga? — perguntou à sentinela negra, menos por curiosidade do que ao impulso dos próprios pensamentos.
— Eu é casado, meu cabo — informou o soldado. 
— Tem mulher e dois filho pequinino.
— Casado mesmo, ou é só companheira? — quis saber o branco.
— Casado mesmo, com propriamente pela igreja, meu cabo. E os filhos está todos baptizado. Nosso tenente é o padrinho ...
— Viva! — fez o cabo, admirado. — Não sabia que eras compadre do nosso comandante.
— Na igreja é compadre, mas aqui é só sordado — esclareceu a sentinela, numa subtil mistura de amizade e respeito. E, mostrando os dentes alvíssimos num largo riso vaidoso, acrescentou: — Todos os dias de Natal, nosso tenente dá prenda nos meus meninos ...
— Eh! eh! — continuou em tom diferente, retesando os músculos e segurando melhor a arma. 
— Olha os preto que vem acolá, meu cabo! ...

O branco seguiu a direcção indicada pelos olhos da sentinela. Um numeroso grupo de indígenas surgia silenciosamente dos lados do parque de minérios, entre uma composição ferroviária estacionada no desvio da linha e os armazéns da Junta do Café.

— São estivadores que voltam do porto — interpretou o cabo, depois de breve observação.
— Uhm! — desconfiou a sentinela, alongando os beiços em funil.
— Estivador fala muito e estes gajo vem calado! Repara já, meu cabo! Não é negros de Luanda, não ... Parece é mesmo matumbo. Eu vai ver que é que os gajo quer, meu cabo.
— Deixa-te estar no teu posto, pá! — ordenou o branco. — Eu é que vou saber donde vem esta malta.

E avançou para o bando ...
— Vocês deixa o branco chegar perto e ataca como eu ensinei — segredou o «senhor Fernando», empurrando para a sua frente dois dos companheiros, enquanto ele próprio recuava para detrás dum «jota» da composição ferroviária.
— Donde é a vinda, a estas lindas horas? — perguntou o cabo, em tom amigável, aproximando-se confiadamente, de mãos nos bolsos.

Mas, reparando, de repente, no cabecilha e na sua pistola-metra-Ihadora, acrescentou, siderado de espanto:
— Ele que raio de história é esta?!
E não teve tempo de dizer mais nada. Um dos bandidos arrancara a catana detrás das costas e atingira-o com uma cutilada na cabeça. E logo outra catanada, vibrada num braço, fez-lhe cair inerte a mão que buscava, no coldre, a coronha da pistola.

Tentou recuar, meio cego pelo sangue que lhe escorria da cabeça e rilhando os dentes a dominar a dor:

— Corre a avisar o Quartel General ! — gritou para a sentinela que vinha em seu auxílio — Ai ! ...
O gemido estertorou-se-lhe na garganta que uma catanada certeira cortara profundamente.

— Às armas! — bradou a sentinela. E já carregava sobre os facínoras, de baioneta em riste, quando sentiu que o seu camarada branco, tombado no chão, erguia para ele uma mão convulsa, num esforço derradeiro, a lembrar-lhe a ordem dada. E reparou também que o negro da pistola-metralhadora avançava para ele, convidando:
— Entrega a tua arma e vem combater do nosso lado. Não deves ficar do lado do branco. Tu é preto ...
— E tu é burro! — ripostou-lhe com desprezo. 
— Eu não entrego nada. Eu é sordado português!

Fez novamente menção de carregar à baioneta. Mas repentinamente recuou, em dois saltos bruscos, e largou numa rapidíssima corrida para o «jeep» do comandante, bradando outra vez, a toda a força dos pulmões:
— Às armas!
Passada a momentânea desorientação causada pela imprevista atitude do soldado, os facínoras correram sobre ele. Mas já o «jeep» arrancava e rompia a grande velocidade, por entre a malandragem que abria caminho, espavorida. Com uma das mãos no volante e a outra a segurar a velha «Mauser», a sentinela negra ainda viu, no turbilhão daqueles terríveis segundos, o rodopio das catanas de ambos os lados do carro; e sentiu uma dor aguda num ombro; e aguentou o embate de algumas pedradas nas costas; e percebeu vagamente que, por cima da porta de armas, na frontaria da fortaleza, se abria uma janela. ...
— «É o nosso comandante que já acordou ...» — pensou, contente de verificar que estava dado o alarme. E carregou mais no acelerador, distanciando-se rapidamente dos seus perseguidores.
Atravessava o parque dos minérios, quando ouviu, lá para trás, o estalar seco dos primeiros tiros. Era a pequena guarnição da fortaleza que se batia, resistindo galhardamente ao ataque. Recordou, por momentos, o «nosso cabo», aquele jovial camarada branco, retalhado e sangrento, escabujando no chão, sob as catanas dos assassinos. E acelerou ao máximo, com as mãos crispadas no volante e os dentes cerrados numa raivosa ânsia de chegar depressa.
Ante os seus olhos, desfilaram vertiginosamente as luzes da Avenida Marginal, desdobradas num rosário de missangas sobre o espelho sereno da baía. Numa curva apertada, em que os pneus gritaram aflitivamente, voltou para a esquerda, à esquina do Banco de Angola, e, logo depois, torceu para a direita junto da mercearia de Pinho & Arvela, meteu à Rua do Esquadrão e travou bruscamente à entrada do Quartel da Polícia, gritando para os guardas de piquete:
— Acudam à Casa da Reclusão! Está a ser atacada pelos bandidos!
— Como é isso? — perguntou um dos guardas.

Mas já o «jeep» arrancava novamente, em direcção à Avenida Álvaro Ferreira, rasgando o silêncio da noite com o roncar furioso do motor.
— Que há? — acudiu a perguntar um soldado cuanhama, quando o carro estacou junto do Quartel General.
— Há um ataque de negros à Casa da Reclusão. Avisa o nosso oficial de serviço. Depressa!

E rodou de novo, agora na intenção de voltar ao seu posto e gastar as cinco balas que, prudentemente, tinha guardado para quando fossem mais precisas. Mas pensou que talvez valesse a pena avisar também o regimento de Infantaria. Os bandidos traziam metralhadoras ... E, se calhar, eram muitos. Sim, porque só sendo muitos e bem armados é que se atreveriam a atacar os brancos. Lembrou-se, então, do seu comandante, tão amigo dos seus filhos, e que a essa hora estaria a lutar...
Sem mais hesitações, rumou para o alto da Maianga, abrandou ao passar pela sentinela da Companhia Indígena, a quem repetiu o aviso de alarme («Acorda o nosso Comandante, pá! Há confusão na Casa da Reclusão!») e seguiu a toda a velocidade até aos aquartelamentos do Regimento de Infantaria de Luanda. Aí, já havia notícia do assalto à Polícia Móvel e um pelotão preparava-se para seguir.
— Mais algum azar? — perguntou um capitão, aproximando-se do «jeep».
— Sim, senhor, meu capitão — declarou o soldado, descendo do carro e batendo a continência. — Os bandido está a atacar a Casa da Reclusão. Nosso cabo foi morto. Bandidos tem metralhadora ...

Com uma ruga de preocupação no rosto seco, o oficial deu rápidas ordens a um subalterno. Não tardou que mais dois carros, carregados de tropa, viessem juntar-se aos que iam partir em socorro da Polícia Móvel.
— Um motorista para este «jeep» — pediu o oficial, saltando para o «jeep» trazido pela sentinela.
— Vai eu mesmo! — acudiu a sentinela, sentando-se ao volante.
— Mas tu estás ferido! —objectou o oficial, apontando-lhe para a farda, toda ensanguentada num ombro.
— Não é nada, meu capitão! Eu nem sentiu ... Pode muito bem lutar com os bandidos.

O oficial teve um sorriso de agrado e o «jeep» arrancou mais uma vez ...Quando chegaram à Casa da Reclusão, já lá estavam reforços idos da 1.a Esquadra. E os assaltantes, falhada a sua tentativa de ataque à residência do sargento que tinha as chaves das celas dos presos e corajosamente repelidos pela pequena guarnição da fortaleza, batiam em debandada. Depois, foi durante o resto da noite e no dia seguinte, a caça aos facínoras foragidos por toda a área do Bungo, nas pregas dos barrocais e no formigueiro dos Muceques Rangel e Lixeira.
— Bravo, rapaz!—disse o comandante da Casa da Reclusão à sentinela negra quando, passado o perigo, ele se apresentou, ainda excitado da perseguição aos bandidos. — Foste um valente!
— Desculpa lá, meu comandante... — respondeu o soldado. 
— Mas valente foi o nosso cabo que morreu. Eu só cumpriu as ordens do nosso cabo ...


Funeral
Ainda não tinham soado as 4 horas da tarde e já a estrada de Catete, desde o seu início, nas vizinhanças do aeródromo velho, até aos escritórios da Petrangol, começava a encher-se de carros e de povo. Trinta minutos mais tarde, não cabia mais ninguém no largo fronteiro ao Cemitério Novo e nos terrenos adjacentes.
Milhares de automóveis estacionavam por toda a parte onde coubessem as quatro rodas dum veículo. E uma enorme multidão se comprimia nas bermas da estrada e contra o arruamento central do Largo do Cemitério, por onde deveriam passar os carros que transportavam, desde a Igreja do Carmo, os restos mortais das vítimas dos acontecimentos da véspera.

Era a 5 de Fevereiro de 1961, numa tórrida tarde de domingo, que muito poucos, nesse dia, quiseram aproveitar para o habitual passeio pelos arredores da cidade. Quase todos tinham preferido vir ali prestar uma derradeira e comovida homenagem aos que haviam tombado em defesa da ordem, retalhados à catana, num vil e selvático ataque de surpresa.

Tinham morrido sete homens; cinco da Polícia Móvel, um da P. S. P. e o cabo do exército abatido junto da Casa da Reclusão. Luanda estava ali, em peso, para lhes render o seu último preito, numa enternecida manifestação da fraternidade lusíada e de solidariedade humana. Gente de várias raças, de todas as idades e de todas as condições sociais. Muitas centenas de mulheres e crianças. Ricos e pobres, patrões e empregados, artífices e doutores. Todos dolorosamente surpreendidos com o sangue derramado na sua pacata cidade; mas ainda confiados, sem receios e sem armas.
Enquanto se aguardava a chegada do cortejo fúnebre, comentavam-se os acontecimentos, que eram, desde o amanhecer de sábado, o tema obrigatório de todas as conversas. Lamentavam-se os mortos e os feridos com espanto e horror («tão desfigurados tinham ficado, coitadinhos»), mas sem o mais ligeiro sintoma de pânico. A grande massa da população estava muito longe de adivinhar que era aquele o prelúdio sangrento dum hediondo terrorismo em Angola. Ninguém encarou a hipótese de que tal selvajaria tivesse continuação. Sabia-se vagamente que o plano dos assassinos, gizado e comandado por agitadores vindos do exterior, era roubar as armas existentes no quartel da Polícia Móvel e soltar os presos da Casa da Reclusão Militar e das cadeias civis, para depois irem ao saque e à carnagem. Mas, não obstante beneficiar das circunstâncias favoráveis duma confiada convivência euro-africana e dos efeitos duma completa surpresa, o plano falhara em todos os seus objectivos, saldando-se por sete vidas perdidas. E, para os luandenses, era tudo. Ninguém pensava que a cidade corresse o mais pequeno perigo.
Por isso mesmo, naquele mar de gente, em maré cheia de penosas e vivíssimas emoções, ninguém sentira qualquer necessidade de defesa. No calor abafadiço e húmido do entardecer, os civis tinham posto uma gravata preta no colarinho das camisas de meia manga. Os militares vinham de farda branca, desarmados. A polícia, para o acompanhamento dos camaradas, deixara em casa pistolas e cacetetes. As únicas armas eram as carabinas da guarda de honra, com munição de pólvora seca. Amargamente, mas sem medo, comentavam-se os traiçoeiros assassínios do dia anterior.
— Sabem vocês como abateram a sentinela da Polícia Móvel? — dizia um morador do Bairro Madame Berman.
— Por meio dum ardil nojentamente cobarde. Mandaram adiante dois parceiros, amparando um terceiro meliante de cabeça atada num trapo molhado em sangue de galinha a fingir de ferido. Quando o guarda lhe perguntou o que queriam, responderam que traziam ali um homem gravemente ferido, numa desordem. Que estava quase a morrer. — «Tragam o homem aqui para dentro, que já telefono a pedir a maca» — dissera a sentinela, na sua boa fé, encaminhando-se para dentro do quartel. Mas, logo que ele se voltou — zás! — um dos patifes vibrou-lhe uma catanada certeira no pescoço.
— Safardanas! — comentou um funcionário administrativo.
Outros grupos relacionavam os motins com o caso recente do assalto ao Santa Maria ou citavam pormenores horrorosos. Ao cabo da Casa da Reclusão, tinham-no cortado todo, com uma fúria selvagem e porca de hienas famintas. Um dos feridos internados no hospital tinha dois lanhos enormes na testa, com os miolos a descoberto. E um dos guardas que vinham agora a enterrar fora quase completamente degolado. Os homens sublinhavam com exclamações de raiva estes pormenores macabros. Entre as senhoras havia crispações de náusea.
Mas já o cortejo fúnebre chegava ao largo, rompendo a custo por entre a massa compacta do povo. As urnas dos guardas da polícia vinham alinhadas num grande camião todo coberto de crepes. Logo a seguir, o caixão do cabo era transportado num carro do Exército. Atrás, caminhavam a pé as mais altas entidades, religiosas, civis e militares da Província.
De repente, no silêncio impressionante rebentaram, aqui e além, irreprimíveis soluços de senhoras, que levavam os seus lenços bordados aos olhos marejados de lágrimas. É que, entre os guardas perfilados, em cima do camião, ao lado das urnas dos camaradas, um rapagão alto e bem talhado na sua farda cinzenta, levava a cabeça descoberta e pendente, com as mãos trémulas a cobrir o rosto seco, chorando alto como uma criança. Todos reparavam naquela cena. E ninguém podia olhar para aquilo sem se comover.
Poucos, todavia, se aperceberam de que também ao volante do carro do Exército, um soldado preto voltava repetidamente os olhos para trás, a contemplar o caixão do «nosso cabo». E esses olhos, enternecidos e leais, estavam rasos de água ...
Era o soldado que vira morrer aquele camarada branco. Era a sentinela negra da Casa da Reclusão.
Fonte: http://petrinus.com.sapo.pt/fevereiro.htm


sábado, 7 de novembro de 2015

Avaliação dos 40 anos de Independência de Angola

Nativos em trabalhos de contratados

Independência – Angola, desde 11 de Novembro de 1975 que saiu do domínio colonial português depois de quase 500 anos de um colonialismo cruel e quase “canibal”. Sabemos que não foi uma independência fácil ao estilo da maioria de outros Estados africanos que tiveram o ensejo de negociar com os colonos as suas independências e tiveram os processos concluídos de descolonização. Em Angola o processo de descolonização não existiu, o colono embrulhou a bandeira, colocou-a debaixo do braço e partiu. O país ficou a deriva e entregue na mão de carpinteiros, enfermeiros, marceneiros, sapateiros e meia dúzia licenciados sem experiencia absolutamente nenhuma de liderança ou gestão pública. E como se não bastasse esta amputação, ainda importamos uma guerra atroz que nos era alheio entre potências que lutavam para dominar o planeta e o universo. 
O Ultimo dia colonização

Na verdade descalçamos uma bota apertada e colocamos os pés num sapato justo mas cheio de espinhos e apesar dos esforços, galgamos pedra sobre pedra até que nos entendemos e juntamos as pedras e há 13 anos começamos a caminhar sobre uma calçada que ainda é íngreme e desnivelado mas já permite caminhar sem muitos tropeços. Portanto o que ganhamos hoje embora muito pouco é resultado das perdas que tivemos no passado. Neste momento vivemos um processo de identidade e afirmação, é como se tivéssemos regressado aos primeiros anos da independência. É mentira se dissermos que está tudo bem, também estaríamos a faltar com a verdade se dissermos que está tudo mal. Tivemos avanços e retrocessos e a principal barreira entre nós é a dos homens que têm imensas dificuldades de de adaptação e abandonar alguns vícios e hábitos adquiridos nestes 40 anos. Uns não conseguem se libertar da rebeldia cronica aprendida e ensaiada e outros têm dificuldades de se libertarem de uma hegemonia política e ideológica em que se deitaram por três décadas e agora tende a surgir uma geração que não galgou a estrada de pedra sobre pedras e que se acha solução de um problema bicudo e muito maior que qualquer vontade. 
A bandeira da nova República 

A independência é um processo e não uma obra acabada e ainda vamos galgar muitos quilômetros para que nos sintamos todos completamente saciados. Portanto ao olharmos para os 40 anos da “dipanda” e antes de criticarmos que houve precipitações e que não ganhamos nada, aconselho-vos sempre a olharmos antes para a floresta e só depois para as árvores. 

Artur Cussendala

O que ainda guardo na MEMORIA.

11 DE NOVEMBRO DE 1975 
7 de Novembro de 1975, véspera de final de semana, tinha eu 9 anos e aluno da 1ª Classe na aldeia de Cambau na comuna do Quissongo, município do Libolo/K.Sul. Era na verdade criança mas já muito lucido e já tinha comprado com o meu suor uma camisa com o salario de colheita de café na Roça do Amorim. Ainda lembro-me do mulato capataz que nos açoitava com prazer e gozo. Nós as crianças, nossa tarefa era apanhar o café que cai ao solo quando na colheita dos adultos estes bagos se escapassem dos cestos que colocavam a tira colo. Recordo-me ter trabalhado dois meses mas no segundo não fomos pagos porque o fazendeiro fugira depois de envenenar a refeição do almoço dos trabalhadores não “mbalundo” da fazenda. Naquele distante dia que nem tenho noção do mês e pior ainda do dia, despertei a consciência quando vi a população da aldeia inteira vindo com catanas, enxadas, paus e canhangulos atacar o fazendeiro e seus capatazes. Estes vendo a picada de entrada coberta de gente enfurecida, debandaram cafeeiro a dentro e com eles o nosso lindo e belo salário. Creio que nunca mais retornaram até ao dia da “dipanda”. Pois neste dia 7 de Novembro (sexta-feira) salvo erro, apareceu em Cambau um “kwemba” do MPLA que nos instruiu militarmente com uso de réplicas de armas de pau, a marchar, cambalhotar, rastejar e a cantar canções patrióticas bem como o hino do MPLA. A aldeia estava num alvoroço total, havia marcha de mulheres, homens, velhos e crianças. A independência, diziam que viria na terça-feira dia 11. Nós as crianças na verdade não sabíamos como viria essa independência (a pé, de motorizada ou de camião) mas sabíamos todos que tínhamos de nos preparar para receber a independência. Todos sabíamos que naquele dia tínhamos de estar preparados e os treinos e as marchas com canções revolucionários se haviam intensificado. Os brancos das lojas no mbuiza tinha ido embora para Calulo e o comércio fechado. Os trabalhadores “mbalundo” na margem oposta do rio futy também havia levantado o acampamento e só alguns permaneciam. Então tinha chegado a terça-feira (11), alguns foram a lavoras a busca de mantimentos e nós crianças estamos ansiosos e com os olhos postos na esquina da estrada a espera da “tal” independência. Foi então que perguntei ao primo Joaquim que já andava na 3ª classe, como seria a independência. Ele calmamente explicou-me que a independência iria chegar mas não era uma coisa ou pessoa mas sim um acto em que os brancos já não mandariam em nós nem nos submeteriam mais a castigos de palmatória e trabalhos nas fazendas ou pagamentos de impostos. Pouco confuso, tentei explicar a minha maneira aos outros “pioneiros” e uns até mais crescidos do que eu e por pouco iria levar uma valente sova porque ninguém acreditou em mim e me chamaram até de “contra revolução” (grande ofensa na época) e fui salvo pelo primo Joaquim. Todo o dia as pessoas tinha colado os ouvidos na radio a escutarem noticias e canções revolucionarias e finalmente caiu a noite eu eu caí no sono, porem as tantas fui acordado para ouvir o discurso do presidente Neto em Luanda, pois tinha chegado a hora da independência e tínhamos de içar a bandeira. Pasme-se mas a bandeira era uma folha dupla branca, arrancada do meio de um caderno e pintado de VERMELHO/PRETO e uma estrela mal desenhado no meio. Estava toda gente da aldeia em volta e enquanto se cantava o hino no rádio a pinhas, nós içávamos a bandeira no meio da aldeia num mastro de bambu improvisado para a ocasião. Depois foram abraços, gritos de alegria e rajadas de balas incendiarias rasgando o seu escuro da noite, vindas de bairros vizinhos do Bango, Gingi e até da Banza do Quissongo. Finalmente tinha chegado a “dipanda” que tanto ansiavamos e que obrigava “religiosamente” o meu pai a ouvir o Angola Combatente com o som do radio baixíssimo todas as noites e no quarto.
Artur Cussendala 7/11/2015

domingo, 10 de maio de 2015

Novo Espaço de Debates

Amigos e seguidores do facebook e twiter, enviei-vos um convite para aceitarem o novo espaço aonde vamos passar a fazer as nossas reflexões (‪#‎REFLITAM_COMIGO‬). Como não aceito amigos com (alguma) facilidade, muitos têm reclamado pois notam recusas constantes dos pedidos que fazem. Deste modo os debates vão para este espaço em que a unica condição para todos será «GOSTAR» do espaço. 
Desde já minhas desculpas pelo incomodo.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A vitória que mudou o mundo


A vitória que mudou o mundo

Artur Queiroz |
14 de Abril, 2015


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A Operação Displace, que teve início no dia 28 de Abril de 1988, marca o fim da invasão de Pretória e o início de negociações directas entre os governos de Angola, da África do Sul e de Cuba, sob mediação dos Estados Unidos.
O ponto final da Batalha do Cuito Cuanavale foi no Triângulo do Tumpo, ao longo do dia 23 de Março de 1988. A esmagadora derrota das tropas invasoras do regime de apartheid obrigou PW Botha a tomar medidas de emergência. Responsabilizou o seu ministro da Defesa, Magnus Mallan, e o comando das forças armadas em bloco. Acusou-os de o terem enganado. Numa reunião em Pretória mandatou o seu chefe dos serviços secretos (Neil Barnard) para tirar Nelson Mandela do cárcere.
No Sudeste de Angola as tropas invasoras retiravam penosamente, vergadas ao peso da derrota. Os soldados que chegaram à Namíbia escreveram nas paredes das casas onde pernoitaram: viemos do inferno.
O arco-íris começou de imediato a ser “pintado”. Era preciso garantir na África do Sul uma transição para a democracia, num clima de paz social. Neil Barnard, um radical do apartheid, revelou mais tarde que trocou confidências e deu todas as garantias a Mandela.
O futuro Presidente da África do Sul contou que já no fim das conversações com Neil Barnard, telefonou a PW Botha no dia do seu aniversário (12 de Janeiro) para lhe dar os parabéns. O chefe do apartheid, para retribuir a amabilidade, convidou-o para tomar chá e serviu-o. “Saí com a impressão de que tinha falado com um chefe de estado criativo, caloroso, que me tratou com todo o respeito e dignidade”, recordou depois Nelson Mandela.
No dia 29 de Março de 1988, os invasores punham-se a salvo rapidamente, temendo uma contra-ofensiva fulminante das FAPLA.
“Yet despite this, they came close to overrunning the badly over-extended 25-Brigade. Victory was within their grasp and they were about to clear FAPLA from the rear of their battalion positions”.  Contudo, apesar disso, eles quase conseguiam desalojar a 25ª Brigada mal posicionada no terreno. A vitória esteve ao seu alcance e estiveram a ponto de desalojar as FAPLA atacando por trás as posições do seu batalhão. (Coronel Jan Breytenbach  “The Buffalo Soldiers: The Story of South A­frica’s 32ºBattalion 1975-1993” página 268).
“However the brigadier – who had stationed himself 20km from to the rear and well clear of the battlefield – ordered an immediate withdrawal”. No entanto, o Brigadeiro – que tinha estacionado a 20 quilómetros da parte traseira e afastada do campo de batalha – ordenou uma retirada imediata. (Coronel Jan Breytenbach  “The Buffalo Soldiers: The Story of South Africa’s 32-Battalion 1975-1993” página 269). “They waited in vain. Brigadier Numa, instead of producing an encore, had decided that discretion was the better part of valour and had hurriedly withdrawn his brigade to position 20km farther back than the previous night”. Eles esperaram inutilmente. O Brigadeiro Numa, em vez de ressurgir, decidiu que a discrição era a melhor parte da operação e retirou, apressadamente, a sua brigada para uma posição 20 quilómetros mais distante em relação à posição da noite anterior. (Coronel Jan Breytenbach  “The Buffalo Soldiers: The Story of South Africa’s 32-Battalion 1975-1993” página 269).

Escrito nos anais


Abílio Numa e outros oficiais da UNITA, que no início dos combates derradeiros ­recuaram para 20 quilómetros do Tumpo, no dia 23 de Março já tinham recuado mais 20. Estavam a salvo e podiam chegar a Mavinga sem grandes sobressaltos.
Mas os militares da UNITA que não recuaram, pouco tempo se aguentaram nos combates. O coronel Jan Breytenbach, no seu livro “The Buffalo Soldiers  The Story of South Africa’s 32º Battalion 1975-1993” faz este relato impressionante: “Um cínico oficial americano, uma vez comentou que a missão de um soldado de infantaria é aproximar-se do inimigo e morrer com ele. Bem, muitos soldados da UNITA morreram, naquele dia 23 de Março, mesmo antes de entrarem em contacto com as FAPLA. Os canhões de 23mm eliminaram os ocupantes dos tanques como palha, enquanto os estilhaços da artilharia e os obuses dos morteiros faziam grandes estragos”. Esses militares das forças regulares de Savimbi não tiveram a sorte dos que iam recuando de 20 em 20 quilómetros, à medida que se desenrolavam os combates no Triângulo do Tumpo. A potência de fogo das FAPLA era tal, que só se via fumo e poeira, ainda que o céu estivesse limpo de nuvens.
O “pai” das forças da UNITA, Jan Breytenbach, foi uma testemunha privilegiada porque assistiu, desde o início, à derrocada das tropas invasoras. “Toda a potência defensiva das FAPLA foi dirigida contra o comando do Regimento do Presidente Steyn e contra uma UNITA já em fanicos”.
O comandante do célebre Batalhão Búfalo, do seu posto de observação, verifica que as forças de artilharia invasoras recuam para áreas mais seguras. Os comandantes perceberam que face à barragem de fogo das FAPLA e à intervenção dos MIG da Força Aérea Nacional, a derrota estava garantida. Só faltava saber a sua dimensão.  Jan Breytenvach dá uma indicação. Se os artilheiros se puseram ao fresco, “o mesmo não se pode dizer dos pobres soldados de infantaria da U­NITA, que entraram em acção encavalitados nos tanques Oliphant e nos Ratels. Os seus mortos ficaram espalhados em grande número pelo campo de batalha”. (The Buffalo Soldiers The Story of South Africa’s 32º Battalion 1975-1993. Página 309).

Explicação dos cemitérios


O comandante do Batalhão Búfalo revela o porquê da existência de um grande cemitério, junto ao terceiro tanque Oliphant recentemente encontrado no meio da mata, numa colina do Triângulo do Tumpo. A tropa de Savimbi “ficou em fanicos” e os mortos “estavam espalhados em grande número”. Foram enterrados à pressa, perto do tanque Oliphant que ficou fora de combate, ao início da tarde do dia 23 de Março.
Os oficiais das forças invasoras quiseram destruir os tanques, mas foram impedidos pelo alto comando. Naquele momento ainda acreditavam que iam ganhar a batalha. Acabaram por deixar o material de guerra e os seus mortos.
Face à estrondosa derrota, começou o jogo do “passa culpas” entre os oficiais do alto comando. O coronel Jan Breytenbach aponta muitos factores para o desastre militar. Mas mais uma vez implica a tropa de Savimbi. E escreve: “O oficial de inteligência da UNITA, Caxito, forneceu estimativas incorrectas da situação geral. Ele baseou-se na opinião exagerada que Jonas Savimbi tinha de si mesmo, segundo a qual era o mestre da guerra de guerrilha no continente Africano. Se qualquer um dos seus generais ousasse apontar os pontos fracos da estratégia de guerra de Savimbi, isso era considerado um insulto imperdoável. Essa audácia era geralmente recompensada com uma bala na nuca.”

Diário do desastre

De acordo com Helmoed Römer Heitman no livro “WAR IN ANGOLA: The Final South African Phase” (págs. 283-286), os sul-africanos já não sabiam o que haviam de fazer com a cabeça-de-ponte das FAPLA, a leste do rio Cuito. As tentativas para ludibriar as FAPLA com uma falsa retirada tinham falhado e elas responderam com ataques deliberados, realizados pelas suas forças firmemente desdobradas nas duas margens do rio Cuito: a oeste e a leste. Dada a natureza do terreno (totalmente alagado), um ataque a leste com uma força ainda maior era impraticável.
No dia 1 de Abril, às 10h00 horas, os MIG23 atacaram uma das posições de fogo da patrulha sul-africana de reconhecimento. A retirada era cada vez mais penosa. O moral das tropas invasoras estava de rastos.
Um soldado sul-africano foi ferido por estilhaços e um rebocador de artilharia ficou danificado. O regimento também perdeu um teodolito. À pressa, os artilheiros retiraram-se para as suas posições alternativas, logo depois de se confirmar que a precisão incomum deste ataque dos MIG não tinha sido um mero acaso.
Os elementos do 13º Regimento de Campanha passaram o dia 1 de Abril a efectuar operações de reconhecimento ao traçado pretendido para os campos de minas. O Regimento de Groot Karoo mudou a sua base para uma nova área. Estava muito vulnerável aos ataques da Força Aérea Nacional.
No dia 2 de Abril, os MIG estiveram continuamente no ar entre o nascer do Sol e as 18h35. O inimigo sentia-se cada vez mais acossado. Das forças regulares da UNITA não havia notícia. Como Numa tinha recuado de 20 em 20 quilómetros, provavelmente já estava perto de Mavinga.
No dia 3 de Abril, os MIG atacaram as posições dos canhões G-5 da patrulha de reconhecimento. No dia seguinte, registou-se mais actividade aérea e uma tentativa fracassada para atrair os MIG para uma armadilha antiaérea, em torno de uma posição de G-5 simulada. Os nossos pilotos já tinham muita experiência.
Durante a noite de 5 de Abril, o 13º Regimento de Campanha deslocou-se para uma posição, 15 quilómetros a Leste do Cuito Cuanavale para, em cooperação com tropas da UNITA sobreviventes, transportarem as minas que iam ser colocadas a Sul do rio Tumpo, para atrasar ou impedir a contra-ofensiva.

Vigiados de perto

As FAPLA não lançaram a contra-ofensiva porque sabiam que o terreno estava minado pelos seus engenheiros mas também pela engenharia dos invasores sul-africanos. No dia 7 de Abril, uma companhia de infantaria das FAPLA foi observada perto da estrada de Mavinga, precisamente a Sul do acampamento do 13º Regimento sul-africano.
Os militares angolanos vigiavam de perto os movimentos dos engenheiros sul-africanos. Depois da retumbante vitória no dia 23 de Março no Triângulo do Tumpo, era preciso evitar surpresas.
De 8 a 10 de Abril, a artilharia sul-africana entrou num duelo com a artilharia angolana valendo-se do maior alcance dos seus canhões, agora instalados nos limites do rio Chambinga.
No dia 14 de Abril, foram retiradas da frente as principais unidades sul-africanas. Mas o alto comando sul-africano decidiu que fosse realizada uma acção contra as forças das FAPLA no Triângulo do Tumpo, para criar a impressão de que os invasores ainda se encontravam lá e com toda a força. A simulação também implicava manter activas as estações das unidades já ausentes nas redes de comando e logística.

O adeus às armas

No dia 15 de Abril, o 1º Batalhão do Regimento De La Rey e o Esquadrão B do Regimento Presidente Steyn despediram-se do campo de desmobilização do outro lado do Kavango para o Rundo. No mesmo dia, o comandante Paul Fouché tomou conhecimento que o seu sogro tinha morrido. Concederam-lhe uma semana para ir a casa e o coronel Hennie Blou, da 7ª Divisão, assumiu o comando da 82ª Brigada Sul-Africana, em retirada.
Enquanto a operação de simulação estava a ser preparada, o brigadeiro Fido Smit e o coronel Robbie Roberts, comandante do Centro de Mobilização da 7ª Divisão, visitaram o 45º Posto de Observação A e uma das posições de artilharia.
No dia 20 de Abril, visitaram as antigas posições da 16ª Brigada. À medida que se distanciavam de um dos tanques que haviam inspeccionado, o seu Ratel detonou uma mina, que destruiu uma das rodas do meio.
Às 07h:00 do dia 21 de Abril, Hennie Blou começou a sua acção de diversão contra as posições das FAPLA que se encontravam no Cuito Cuanavale e no planalto entre o Cuito e o Cuanavale (36ª Brigada). As companhias A e B do Regimento Groot Karoo e o Esquadrão A do Regimento Presidente Steyn dispararam contra as FAPLA a partir das posições, a Norte da confluência, no espaço confinado pelos rios Cuatir e Cuanavale. Os resultados foram nulos.

As últimas baixas

No dia 23 de Abril, a operação de colocação de minas ao longo da anhara Lipanda resultou nas últimas baixas para os sul-africanos. Um dos sapadores morreu quando detonou uma armadilha das FAPLA. Outros três sapadores e sete soldados da UNITA ficaram feridos.
O sapador Johannes Badenhorst entrou no campo minado, numa zona que não ajudou a implantar, e não sabia o que fazer para recuperar o soldado gravemente ferido. Mesmo assim, voltou e desactivou várias minas para permitir que o corpo do homem, já morto, fosse recuperado.
No dia seguinte, Badenhorst mostrou novamente a sua coragem, quando o motor do Ratel do sapador pegou fogo. Incapazes de extinguir as chamas, os sapadores abandonaram o veículo. Badenhorst foi ao local e atirou os equipamentos e as munições para fora do veículo até as primeiras explosões o obrigarem a sair. No dia 28 de Abril, chegaram as primeiras tropas da “Operação Displace” e do esquadrão antitanque do major Hannes Nortmann do 32º Batalhão. O objectivo da “Operação Displace” era “manter a linha” ao longo do Rio Cuito para dar tempo a eventuais negociações e enquanto o traçado do obstáculo estava a ser preparado.
Às 19h:00 do dia 30 de Abril de 1988, as restantes unidades da 82ª Brigada Sul-africana estavam prontas para a retirada. Foram para a Área Administrativa da Brigada, às 20h00. A “Operação Packer” estava terminada. A derrota humilhante sofrida no Triângulo do Tumpo em breve ia acabar com o regime de apartheid.
O Coronel Jan Breytenbach, no seu livro “The Buffalo Soldiers The Story of South Africa’s 32º Battalion 1975-1993” escreve o epitáfio: “o dia 30 de Abril de 1998, marcou o início da ‘Operação Displace’, quando o comando mudou do coronel Fouché para o comandante Piet Nel, um célebre pára-quedista, conhecido nos círculos castrenses como ‘Piet Graspol’ (Piet Tufo de Capim). Assumiu o comando de uma força que foi designada, erradamente, por 20º Grupo de Combate. A unidade devia ser designada por Grupo de Batalha 20. O grupo incluía o esquadrão antitanque do major Hannes Nortmann, uma companhia motorizada de fuzileiros do 32º Batalhão, duas secções de engenheiros e uma bateria G-5 de 155mm. A UNITA forneceu três batalhões para ocupar o sistema defensivo projectado para manter as FAPLA à distância”.
Em Pretória, PW Botha nem queria acreditar que as suas forças estavam derrotadas, quando os chefes militares lhe relatavam grandes êxitos no terreno e os jornalistas apresentavam Savimbi como um chefe militar imbatível.
O derrotado presidente do regime de apartheid terminou seu mandato a 15 de Agosto de 1989, pouco mais de um ano depois da vitória das FAPLA no Triângulo do Tumpo e como resultado do Acordo de Nova Iorque. Entregou o poder a Frederik de Klerk, o presidente da transição.
 
Versão de Chester Crocker

Chester Crocker, o chefe da diplomacia de Washington na época, no seu livro “High Noon in Southern Africa: Making Peace in a Rough Neighbourhood”, faz muita ficção mas revela elementos que permitem uma leitura mais abrangente do que se passou no Triângulo do Tumpo.
Sobre a situação militar no Cuito Cuanavale escreve: “As operações das forças sul-africanas/UNITA, de Janeiro a Março de 1988, foram projectadas para remover as FAPLA do seu refúgio na margem Leste do rio. Quando a defensiva das FAPLA se tornou mais consistente, em Fevereiro e Março, Pretória decidiu que uma vitória política no Cuito não valia a pena, e especialmente o custo humano em efectivos de raça branca que esta acção podia exigir”. Esta é a versão que lhe “venderam”. A realidade foi diferente.
Chester Crocker também diz que a “missão do embaixador Neil van Heerden a Washington, em Março de 1988, acabou por marcar o ponto de viragem na política externa sul-africana”. Mas depois reconhece que “nós soubemos da decisão sul-africana de reunir com os cubanos e os angolanos em meados de Abril. Não havia necessidade de uma etapa intermédia de negociações de proximidade: este era um encontro directo”.
A mudança na política externa de Pretória foi tão grande que deixou Washington de fora e PW Botha, face à derrota militar, decidiu negociar directamente com Angola e Cuba. Só mais tarde a diplomacia norte-americana voltou a ganhar protagonismo. Quem nunca esteve, nem de perto nem de longe, nas negociações, foi a UNITA.
Pretória escondeu Savimbi na Jamba ou no Gabão e rapidamente esqueceu os seus aliados. Washington, no dia da Independência da Namíbia, meteu “uma cunha” ao Presidente José Eduardo dos Santos, para dar uma mão aos derrotados. Assim se chegou a Bicesse, uma oportunidade de ouro que Savimbi desperdiçou.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

"Paz única no Mundo"

O general Gerarldo Abreu “Kamorteiro”, um dos signatários do Memorando de Paz de 4 de Abril de 2002, revela pormenores sobre a acção do Presidente José Eduardo dos Santos, para que o acordo se concretizasse  e fosse o êxito hoje reconhecido internacionalmente.

Actual vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Angolanas, diz com orgulho que a paz lhe permitiu realizar o  sonho de menino, ao voltar à escola em 2003 para concluir a licenciatura em História, na Universidade António Agostinho Neto.

Jornal de Angola - Há alguma coisa que considere não ter sido explorada ou  valorizada no processo de paz?

General Kamorteiro
 - Talvez a autenticidade do processo. Nós  fazemos parte de uma geração que viu surgir o 25 de Abril. A paz que tivemos de 1974 e 1975 foi efémera, porque não tardou e descambou em guerra. Tivemos depois mais 16 anos de guerra até Bicesse, que também descarrilou. Então viemos para o Memorando de Entendimento do Luena, cuja paz perdura até à data. Não há comparação possível. Só gente desmiolada pode duvidar.

JA - A quem se refere quando fala de gente  desmiolada?

GK
-Refiro-me às pessoas que apresentam argumentos sem qualquer sustentação  e acabam por confundir outras pessoas com as coisas que dizem. O facto de termos a paz não significa que tudo esteja feito. Foram dados passos gigantescos desde que estamos em paz e isso é absolutamente inegável.  É impossível ficar indiferente ao facto de Angola estar pela segunda vez como membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.Todos dias chegam a Angola delegações estrangeiras a querer investir. Angola é hoje uma referência mundial.  Vejam a centralidade do Kilamba ou mesmo aquela que está no Dundo. Não havia no tempo colonial. 

JA-Depois de assinar o memorando disse que os angolanos começavam uma nova era. O que o deixou tão confiante?

GK-
Na sequência da morte do presidente da UNITA, Jonas  Savimbi, dias depois morre também o vice-presidente. O terceiro homem na hierarquia era o general Paulo Lukamba Gato. E esse estava numa determinada área com outros membros da direcção. Tiveram a iniciativa de criar uma comissão de gestão que, através de canais apropriados, conseguiu entrar em contacto com o Governo. Foi uma análise muito rápida que levou a Comissão de Gestão do partido a concluir que havia predisposição do Governo para uma negociação séria. Nessa altura, uma delegação chefiada pelo actual chefe do Estado-Maior, general Nunda, foi ao local aonde se encontrava o general Lukamba Gato, para transmitir aquilo que espelhava o pensamento do Presidente da República e Comandante em Chefe. Até porque na altura, a 13 de Março, o Governo já tinha declarado cessar-fogo a partir do dia 14.

JA- Quando foi contactado?

GK-
 Eu vim para este processo no dia 12 de Março. No dia seguinte o general Nunda foi encontrar-se comigo e transmitiu-me aquilo que eram as ideias do Presidente da República. Achei muito interessante. 

JA- Que mensagem foi essa?

GK-
Disse-me que o Presidente da República desejava conversações sérias e profundas, numa primeira fase, somente entre angolanos. Fazia questão que não houvesse nenhuma interferência externa. Por isso é que às vezes digo que talvez antes nos tivesse faltado maturação e se calhar também tivesse havido excessiva interferência externa. Hoje digo sem medo de errar que a paz que vivemos é uma obra nossa. 

JA- Reforçou a confiança?

GK-
Recordo-me de um comentário do general Armando da Cruz Neto, estávamos no Lobito,  onde também estavam o actual chefe do Estado-Maior general, o general Nunda, e o general Carlos Hendrick. Ao comentar o nosso processo de paz, ele sublinhou que foi bom ter-se feito finca pé naquela altura e seguirmos em frente com o processo sem interferências e com muita firmeza de ambos os lados. 

JA-A UNITA tinha condições para prosseguir  a guerra?

GK-
Podia não ser uma guerra tão sustentável, mas uma confusão seria real. Imaginem aquela gente toda, sem uma orientação. Alguém que lhes dissesse vão para ali ou para lá. Era normal que pensassem em não arriscar e ir até às últimas consequências. Um homem completamente cercado resiste até às últimas consequências. 

JA- O que dizer aos jovens sobre o valor da paz?

GK-
  Alguém me condene por esta expressão, mas vivemos  num mundo que está de cabeça para baixo. É um mundo muito violento em que se fala do terrorismo, que se apropriou de certas religiões que historicamente até são pacíficas, para promover a violência. Daí a necessidade de termos muito cuidado. Mesmo os da minha geração que têm de passar o testemunho, devemos dar uma educação muito profunda à nossa juventude para não se perder.

JA- As Forças Armadas são o espelho da reconciliação?

GK-
Em relação a essa questão, penso que, mais do que as próprias Forças Armadas,  o próprio acordo de paz que se celebrou a 4 de Abril constitui hoje, não só para Angola, mas para África, um paradigma. Uma fonte de conhecimento. Porque são poucos casos de conflitos que terminaram como terminou o nosso. E recordo-me que no dia em que assinamos o memorando, o Presidente da República estendeu um abraço aos signatários deste processo, e minutos depois convidou o então chefe da comissão de gestão da UNITA, Paulo Lukamba Gato, eu e o brigadeiro Marcial Dachala, só mesmo para nos encorajar. Ainda depois disso, não faltaram bocas de alguns cépticos, questionando se aquilo estava mesmo a acontecer. Talvez com alguma razão pelo que se passou com Bicesse, que foi uma grande desilusão para os angolanos. Mas nós nas Forças Armadas fizemos finca pé e dizíamos, já naquela altura, que aqueles que não acreditassem ficariam sozinhos, porque nós iriamos para frente. E isso ajudou bastante o país, porque é uma grande referência naquilo que constitui a unidade ou mesmo coesão nacional. As FAA são uma grande referência, pelo que fizeram e o que têm feito para que esse processo se tornasse no êxito que é hoje.

JA- Recorda das palavras do Presidente da República no encontro após a assinatura do acordo?

GK-
Recordo-me bem de uma passagem em que inclusive utilizou a expressão irmãos. E disse: Camaradas, chamei-os aqui como irmãos. O país está dilacerado mas com a vontade de todos vai para frente. O processo é irreversível se houver vontade patriótica. É uma das que me lembro e foi muito forte. Ouvir isso do próprio Presidente deixa marcas.

JA- É frequentemente convidado a falar no estrangeiro sobre o processo de paz angolano e a trajectória das forças armadas. Qual tem sido a reacção das pessoas que o ouvem?

GK-
 Como disse, o processo de paz angolano deve ser um caso de estudo para África e para o Mundo. Assim como as nossas Forças Armadas. Em Outubro estive em Adis Abeba para falar sobre a trajectória das Forças Armadas e muita gente ficou de boca aberta.Porque nem todos conheciam os pormenores do processo de criação das Forças Armadas Angolanas desde 1991. Foi um processo de avanços e recuos, progressos e retrocessos, mas que no fim deu certo. São processos políticos que não têm caminhos delineados, mas a coisa deu certo.

JA-O que a experiência de Angola pode valer ao Mundo?

GK-
 Angola praticamente tornou-se no mais requisitado conselheiro dos Estados na África Austral, Central, nos Grandes Lagos, Golfo da Guiné, etc. E também no Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde tenho acompanhado com muita atenção as nossas intervenções, Angola tem dado boas cartadas. Temos passado a nossa experiência e ninguém põe isso em causa.

JA- A experiência de Angola em resolução de conflitos, do Brasil em políticas de redução da pobreza, e de outros países em vários domínios, serviam melhor ao mundo com uma eventual reforma do Conselho de Segurança?

GK-
 Não tenho a menor dúvida que sim. Países tão importantes e de referência como Angola, África do Sul e Nigéria, dariam bons representantes de África nas Nações Unidas. O actual formato do Conselho de Segurança já vigora há muitos anos. Os tempos são outros, inclusive os próprios conceitos mudaram. Porque não reformular esse órgão? Estamos a caminhar para um mundo multipolar que obriga a que o Conselho de Segurança tenha um formato diferente da que representa hoje.

JA-Teve algum significado especial para si fazer a licenciatura?

GK- 
Formar-me em história vem desde o tempo do meu avô. E tão logo chegamos, comecei a comprar livros. Pensei que chegara a hora de fazer aquilo que não pude fazer durante os quase 30 anos de guerra. Tudo porque sempre acreditei. Desde a assinatura do processo de paz, disse-o publicamente que a paz em Angola era irreversível e quem não acreditasse ficaria pelo caminho. Do meu salário, todos os meses comprava dois ou três livros. Em 2003 comecei o curso de licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade António Agostinho Neto, e pouco tempo depois fiz o mestrado. 

JA- Qual foi o tema do seu mestrado?

GK- 
Falei do impacto económico e social da ocupação colonial em Angola, o caso do Bié.

JA-Porque não a história do processo de paz?

GK
-Houve quem sugerisse isso. Mas em história aprendemos que existem três tempos para se escrever. O tempo longo, que é de 50 a 10 anos, que é talvez o ideal para se escrever a História, o tempo intermédio, de uns 20 a 30 anos. E há o tempo imediato. E no meu caso, embora tenha vivido essa história, contá-la é muito mais difícil. O historiador francês Fernand Braudel chama a esses casos ‘histórias precipitadas’ ou ‘histórias que ainda sangram’, pois os seus protagonistas estão vivos e o que for contado pode ferir susceptibilidades.

JA-Conte-nos a história da sua alcunha?

GK-
 Essa história remonta o tempo em que pertencia ao Batalhão Fandango, comandado pelo general Kufuna-Yembe. Primeiro pertenci à sua unidade e depois agregou-me à sua segurança, como atirador de morteiro. Num episódio qualquer em Dezembro de 1975 achou que devia chamar-me Kamorteiro, que quer dizer ‘morteiro pequeno’. Decidiu baptizar-me assim porque tinha muita mestria. O nome ficou até 1979, altura em que fui para os meus treinos no exterior. Mas em 1998 ele foi informar a direcção do partido que o meu nome era Kamorteiro. E assim ficou até hoje.

Fonte: Jornal de Angola

segunda-feira, 23 de março de 2015

A Batalha do Cuito Cuanavale - Assalto final ao triangulo do Tumpo

O mapa mostra o terceiro e último fracassado ataque da África do Sul e da UNITA às posições das forças armadas governamentais angolanas no Triângulo do Tumpo. na foto ao lado.
Toda a verdade.
Os angolanos travaram no Cuito Cuanavale a maior batalha militar no continente africano a sul do Sahara. A batalha teve um vencedor, o Povo Angolano, e um derrotado, o regime de apartheid da África do Sul e seus aliados. O comandante das tropas, general de Exército José Eduardo dos Santos, ao felicitar os seus homens lembrou que os combates que durante meses foram “o símbolo da determinação do nosso povo, de vencer ou morrer pela defesa da Pátria”.
Muitos angolanos morreram na Batalha do Cuito Cuanavale, mas o seu sacrifício não foi em vão. Angola libertou o planeta do mais grave crime que alguma vez se cometeu contra a Humanidade, ao esmagar um regime que tinha o racismo como política de Estado.
No dia 23 de Março, segunda-feira, faz 27 anos que Angola, África e o Mundo triunfaram sobre os racistas de Pretória.
Um mau começo
O mês de Março de 1988 começou mal para os invasores. Impôs-se um tempo chuvoso e as chanas do Cuando Cubango ficaram alagadas.
Os invasores sul-africanos e as tropas da UNITA preparam nessa altura o assalto final ao Triângulo do Tumpo.
Aos primeiros minutos do dia 1 de Março, Mike Muller, comandante do 61º Batalhão Mecanizado sul-africano pede o adiamento do ataque porque considera as condições “muito adversas”. O seu superior, coronel McLoughlin, aceita. Às 7h30 a artilharia das FAPLA ataca a posição dos tanques sul-africanos. Mike Muller recua para posições mais seguras. Às oito da manhã, com o céu carregado de nuvens, quatro obuses de “BM21” das FAPLA atingem um camião de apoio “61 Koppie”. Há desorientação entre o inimigo. Às 11h25 os jactos Mig angolanos aproveitam uma aberta no tecto de nuvens baixas e atacam os invasores. Alguns minutos depois, os mísseis “Stinger”, fornecidos pelos Estados Unidos à UNITA, entram em acção e Mike Muller avança com os tanques em direcção ao Triângulo do Tumpo.
Todo este relato está detalhado no livro “War in Angola – The Final South Africa Phase” do especialista sul-africano em assuntos de defesa, Helmoed Roemer Heitman.
Às 13h55, a força de Mike Muller estava a pouco mais de dois quilómetros do Triângulo do Tumpo. Os invasores já viam a ponte sobre o rio Cuito e as árvores à entrada da aldeia de Samaria. Um veículo sapador sul-africano acciona várias minas. A reacção das FAPLA é contundente. Disparam com os morteiros de 120 milímetros, os canhões “D30” e os “BM21”. Um inferno de fogo e metralha envolveu os invasores e a tropa de Jonas Savimbi. Mike Muller responde com morteiros de 81 milímetros. Às 14h22, um super-tanque “Oliphant” detonou uma mina. As FAPLA disparam de frente e do flanco esquerdo.
Os sul-africanos e as unidades da UNITA estavam num campo de minas não convencionais criado pela engenharia angolana. Mais três tanques “Oliphant” detonam minas. Um fica imobilizado porque sofreu danos graves na esteira. Mike Muller entra em desespero e recua. Nessa ocasião, a tropa de Jonas Savimbi já tinha desaparecido. Para “abrir caminho”, a artilharia dos invasores dispara 500 obuses contra as posições das FAPLA. No auge da batalha o próprio tanque “Ratel” do comandate Mike Muller é atingido numa roda. Uma antena foi arrancada pelo fogo das FAPLA.
O tanque de outro sul-africano, Tim Rudman, também fica debaixo de fogo. Um obus de morteiro de 120 milímetros explodiu numa árvore, por cima da sua cabeça. Por sorte, instantes antes Rudman tinha entrado no tanque e baixado a escotilha. Um “Oliphant”, que avançava com soldados da UNITA sentados na parte de trás, à boleia, foi atingido e o canhão arrancado da torre. Os homens de Savimbi morreram.
Recuo organizado
Segundo Heitman, a situação era “muito grave”. Mas ia piorar para o lado dos racistas sul-africanos. Uma equipa de reconhecimento dos invasores informou que os tanques das FAPLA tinham acabado de abastecer na aldeia de Samaria e avançavam para o Triângulo do Tumpo.
A população de Samaria nunca abandonou a sua terra e teve um papel importante nos combates no Tumpo e na Batalha do Cuito Cuanavale. As Forças Armadas Angolanas (FAA) têm para sempre a gente Samaria entre aqueles a quem agredecem a ajuda.
O coronel McLoughlin ordenou ao 32º Batalhão que retirasse ordenadamente e aguardasse novas ordens. Mike Muller estava a enfrentar graves problemas mecânicos nos seus tanques e ordenou a retirada para longe do teatro de operações. Mas, para desgraça, um outro “Ratel” é atingido por uma salva de 23 milímetros. Às 14h50, Mike Muller pede nova retirada “para fazer uma reavaliação”. Menos de uma hora depois Muller informa o coronel McLoughlin que só já tem cinco tanques operacionais.
O coronel contacta de imediato os generais Liebenberg e Meyer e relata-lhe o desastre. A tropa da UNITA tinha desaparecido. A artilharia das FAPLA atacava com muita força. O comando ordena então a retirada de Mike Muller, que comandava a força principal. A derrota era evidente. “Mike Muller resumiu concisamente o resultado: o inimigo é forte e astuto. Apesar de não terem uma força poderosa na cabeça-de-ponte, as FAPLA possuíam um forte dispositivo de artilharia que fez a maior parte da luta. Planearam e executaram a sua defesa, seguramente de forma muito inteligente”, diz Heitman no livro. Às 17h00 o coronel McLoughlin desiste do ataque ao Triângulo do Tumpo e Mike Muller regressa ao ponto de partida.
Operação “Hooper”
No dia 2 de Março os invasores estavam a “digerir” a derrota. O brigadeiro Smith, o coronel McLoughlin e outros oficiais sul-africanos estão no posto de comando e discutem as operações para o futuro.
O brigadeiro e o coronel decidem voar para o Rundu. Regressam no dia seguinte e trazem ordens de retirar a Bateria “Quebeque”. As baterias “Romeo” e “Sierra” continuavam no teatro de operações, mas só atacavam de noite. De dia ficavam escondidas junto à nascente do rio Chambinga. No dia seguinte chega à nascente do Chambinga a 82ª Brigada para render o pessoal. O coronel McLoughlin sai de cena e entrega o comando táctico ao coronel Fouché. O derrotado passa a pasta a um perdido. Mike Muller tem o mesmo destino: volta para casa derrotado. No dia 6 de Março o 4º Batalhão de Infantaria da África do Sul retira. Os invasores são mais uma vez escorraçados e termina a Operação “Hooper”. O apartheid continua enterrado, desta vez nos pantanais do Triângulo do Tumpo.
Nas guerras a natureza é também um adversário ou aliado. “Hooper” é um pássaro dos pântanos. Naquele dia o pássaro não emprestou as suas asas aos invasores para voarem do Triângulo do Tumpo até à vila do Cuito Cuanavale. Estava do lado da humanidade e da justiça.
Pilotos ousados
No dia 9 de Março, ao fim da tarde, um Mig 23 bombardeou uma escolta dos invasores na nascente do rio Lomba. O comando sul-africano ficou “muito preocupado”, diz Heitman, pelo ataque inesperado, mas sobretudo “porque foi um ataque muito audacioso”. Os angolanos são génios e estava traçado o início dos graves problemas que os racistas de Pretória tinham de enfrentar no Triângulo do Tumpo. Já tinham os pés enterrados, mas haviam de ficar enterrados até ao pescoço.
“O general Meyer começou a ficar impaciente porque o próximo ataque contra o Triângulo do Tumpo podia nem ter lugar. A 9 de Março, ele manifestou a sua preocupação, ao enviar uma mensagem de desagrado aos homens no terreno, devido às demoras, tendo enfatizado que a situação só beneficiava as FAPLA, que podiam aproveitar o tempo para melhorar a sua defesa. Também estava preocupado com a situação internacional, que podia obrigá-los a retirarem-se do teatro das acções combativas antes que a missão tivesse sido levada a cabo” , recorda o especialista Heitman.
Carne para canhão
O coronel Fouché decidiu fazer um ataque em força entre 20 e 22 de Março. Mas, na sua perspectiva, os oficiais e soldados “brancos” tinham de ficar de fora. Apenas entravam em combate aqueles que fossem indispensáveis. A lógica do chefe dos invasores era a seguinte: “é preciso evitar ao máximo que jovens boers continuem a morrer por uma causa nebulosa e pouco convincente”, escreve Heitman no seu livro.
Fouché apresentou o seu plano aos oficiais da UNITA que, como sempre, deram o seu acordo. Estava garantida a carne de cidadãos angolanos para os canhões do regime racista de Pretória. Assim, inutilmente e sem glória, se perderam muitas vidas humanas, que nunca seriam choradas na África do Sul do “apatrheid”.
No ataque ao Triângulo do Tumpo também participaram o Batalhão Búfalo, constituído por angolanos, e mais dois esquadrões de tanques do 61º Batalhão Mecanizado. Fouché e os oficiais da UNITA fizeram “um plano provisório” que depois entregam ao brigadeiro Smith, para aprovação superior.
Mas os invasores e a tropa de Savimbi têm uma surpresa reseervada. As FAPLA começam a pressionar a retaguarda das tropas inimigas, desferindo golpes mortíferos de aviação. Dois Mig atacam o Regimento Mooi Rivier na noite de 10 de Março.
No dia seguinte o posto de comando da 82ª Brigada sul-africana avança para o Cuito e o 61º Batalhão Mecanizado vai para a “área de desmobilização”. O Estado-Maior da 82ª Brigada separa-se do Estado-Maior da 20ª Brigada e no dia seguinte a 20ª Brigada retira-se em direcção ao Rundu, no então Sudoeste Africano, hoje Namíbia
A 13 de Março é declarado o fim oficial da Operação “Hooper”. Estava na hora de “embalar” tudo e regressar a casa. O Cuando Cubango já não era um “campo de treinos” para os cadetes boers das escolas militares.
Operação “Packer”
O alto comando sul-africano ordena então o início da “Operação Packer”. É o último folego dos invasores. A 82ª Brigada, cujas tropas fizeram treinos em Bloemfontein entre 10 e 26 de Fevereiro, recebe ordens para entrar em acção. A chuva, novamente ela, atrasou o seu avanço para Angola. Mas agora está no Cuando Cubango, pronta para atacar o Triângulo do Tumpo e a partir daí tomar a vila do Cuito Cuanavale e a sua base aérea.
O coronel Fouché assume pessoalmente o comando dos ataques ao Triângulo do Tumpo. O derrotado Mike Muller foi substituído por um tanquista experiente, o comandante Gerhard louw, e Boet Schoeman foi nomeado comandante adjunto. Mas o Triângulo do Tumpo era intransponível. Morteiros e canhões anti-tanque estavam prontos para rechaçar qualquer força que tentasse penetrar.
Nas posições principais das FAPLA estavam cinco “GRAD”. Por trás das forças de Infantaria estavam preparados dez tanques, escondidos nos refúgios. Os engenheiros angolanos fizeram campos de minas, algumas não convencionais, em todas as entradas possíveis.
O rio Tumpo e os seus afluentes eram obstáculos naturais intransponíveis num mês de Março particularmente chuvoso. A artilharia e infantaria angolanas tinham muito poder. As forças defensoras das FAPLA tornaram-se invencíveis.
Dia da decisão
Os invasores sul-africanos colocam no campo de batalha os artilheiros do Regimento da Universidade de Potchefstroom, a elite da sua artilharia. O derradeiro ataque ao triângulo do Tumpo recebe o nome de Operação “Packer”. O brigadeiro Smith marcou o ataque para 23 de Março. O coronel Fouché pede que a data seja adiada para o dia 25, porque enfrenta “grandes dificuldades logísticas”. Os Mig não descansam e atacavam com frequência as colunas de reabastecimento. O brigadeiro recusa.
No dia 18 de Março os sul-africanos perdem duas pontes móveis de engenharia, atingidas por “fogo amigo” dos canhões “G5”. A desorientação começa a apoderar-se dos sul-africanos. E foi nesse estado que partiram para a batalha final.
Os invasores atacaram com tudo: a 82ª Brigada, com mais dois esquadrões de tanques do Regimento Presidente Steyn, um esquadrão de carros blindados do Regimento Mooi Rivier, dois batalhões de infantaria motorizada do Regimento de La Rey e do Regimento Groot Karoo, artilharia do Regimento da Universidade de Potchefstroom com canhões “G5” e “G2”, 44ª Brigada de Paraquedistas e a Defesa Anti-Aérea. A UNITA entrou com os 3º, 4º e 5º batalhões regulares, o 66º e 75º batalhões semi-regulares, mais os “Stinger” oferecidos pelos EUA.
Os “Mirage” começaram a atacar no dia 19 de Março. Durante o ataque um “Mirage”, pilotado pelo major Willie van Coppenhagen, é atingido e despenha-se na área do Cavango. A 22 de Março a 82ª Brigada avança para o Triângulo do Tumpo. A infantaria da UNITA vai atrás. Às 22h45, o coronel Fouché move o comando para o planalto norte do rio Chambinga e chega à uma e meia da manhã de 23 de Março. Estavam à sua espera os generais Liebenberg e Meyer e os coronéis Deon Ferreira e Neil. Às quatro da manhã do dia 23 de Março de 1988 a força de ataque atinge a “área avançada de concentração”.
Resposta fulminante
As forças armadas respondem ao ataque do inimigo às sete da manhã, a norte da nascente do rio Dala. Dez minutos depois desta acção, entram em acção os artilheiros do Regimento da Universidade de Potchefstroom, que bombardeiam o Triângulo do Tumpo. Às oito, as FAPLA respondem com o flagelamento à força principal de ataque dos invasores. Às 8h35 um tanque “Oliphant”, no flanco direito da linha de ataque, acciona uma mina. Fica fora de combate. Entre as 11h30 e as 11h50 os “G5” disparam contra o posto de comando avançado das FAPLA em Nancova. Um aguaceiro intenso obriga a parar o fogo. O comandante Louw limpa com um “plofadder” um campo de minas. Avança em direcção ao Triângulo do Tumpo com dois esquadrões de tanques que levam à cabeça um draga-minas. As FAPLA reagem em força e às 12h45 Louw retira-se. O 5º batalhão regular da UNITA sofre severas baixas. Louw tenta avançar de novo, mas foi travado por uma barragem de fogo das FAPLA. A infantaria da UNITA é desbaratada. Às 13h46 os “Oliphant” entram num campo de minas. Dois ficam destruídos. Louw tenta atacar de novo, mas mais uma vez é travado. Às 13h48 Louw informa o comando que os tanques estão sem combustível. Andaram às voltas para evitar os campos de minas o que levou a um gasto anormal de combustível.
Contributo dos engenheiros
O excelente trabalho realizado pelos engenheiros das FAPLA na criação de obstáculos contra a infantaria mecanizada e a técnica blindada do inimigo atingiu o seu ponto culminante: os super-tanques “Oliphant” estavam confinados aos campos de minas, consumindo combustível, enquanto procuravam por uma saída, no labirinto, totalmente à mercê da artilharia e da aviação angolana. Louw viu vários “Oliphant” atingidos. Deu ordens para que todos fossem retirados. Mas apesar dos esforços, três foram abandonados. As FAPLA tinham ali os seus troféus e a prova de que tinham destroçado o regime de apartheid. O general Meyer enviou um telex ordenando que o Coronel Fouché se assegurasse que os três “Oliphant” abandonados eram destruídos. Mas isto já não era possível. Os invasores, derrotados, retiravam para Mavinga, vergados ao peso da derrota. Até final de Março, todas as unidades invasoras abandonaram Angola.
O regime de apartheid ficou enterrado no Triângulo do Tumpo. A Humanidade deve aos angolanos a libertação de Mandela, a instauração da democracia na África do Sul e a Independência da Namíbia. Março de 1988 foi o culminar do ano que mudou a face do continente africano.
Fonte JA

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