sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A oposição que se divide enquanto sonha governar



Por: Artur Cussendala Quinta, 19FEV2026


Há algo profundamente irónico na actual engenharia política da oposição angolana. Fala-se em alternância, mudança, viragem histórica… mas, internamente, reina uma fragmentação que faria corar qualquer estratega minimamente pragmático.

A UNITA, partido fundado por Jonas Malheiro Savimbi, construiu-se como estrutura de combate, identidade sólida e narrativa própria. Não nasceu para ser satélite de ninguém. Nasceu para disputar poder.

E agora? Fala-se em coligações com o Bloco Democrático e o Partido Liberal. Não por afinidade ideológica profunda, não por convergência estratégica estruturada, mas por necessidade matemática.


Quando um partido maior se junta a partidos que lutam pela própria sobrevivência institucional, não é altruísmo político, é cálculo defensivo. É contenção de danos.

O Bloco Democrático quer continuar a existir.

O Partido Liberal quer começar a existir.

E a UNITA quer continuar a parecer que está a crescer.

Mas crescer não é apenas somar siglas. Crescer é consolidar base, manter unidade e transmitir estabilidade. E é aqui que reside o verdadeiro problema.

A cada ciclo eleitoral, surge mais um dissidente, mais um “novo projecto”, mais uma liderança iluminada que decide que o problema nunca foi estrutural mas pessoal. E assim, a oposição fragmenta-se em pequenas capelas políticas, cada uma convencida de que carrega a verdadeira pureza ideológica.

Enquanto isso, quem observa de fora não vê estratégia. Vê desorganização.


Há um paradoxo curioso nisso tudo, critica-se o partido no poder por hegemonia prolongada mas oferece-se como alternativa uma constelação de egos concorrentes. E política, goste-se ou não, é também percepção. E percepção de instabilidade afasta eleitorado moderado.


Será desespero? Talvez não.

Será fragilidade? Possivelmente.

Será cálculo? Sem dúvida.


Mas há uma linha muito ténue entre estratégia inteligente e sinal de fraqueza estrutural.

Porque se uma coligação fortalece, ela amplia poder.

Se apenas preserva o que já existia, ela revela medo de perder.


2027 poderá não ser o ano do “milagre”. Milagres políticos raramente acontecem onde não há coesão interna. O que pode acontecer é algo mais silencioso, como a consolidação de uma oposição que fala alto, mas chega dividida.

E em política, quem chega dividido, governa dividido, quando governar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

ESTÃO MUDOS E CALADOS


Há ironias políticas que fariam rir, se não fossem tão reveladoras. Uma delas é assistir a certos sectores da UNITA, outrora um movimento de libertação com discurso soberano, a transformarem-se em fãs entusiasmados de agendas importadas da extrema-direita europeia, como se Angola fosse apenas uma extensão suburbana da política portuguesa.

De repente, surgem “analistas” improvisados, "militontos" digitais de ocasião e defensores fervorosos de figuras como André Ventura, líder do CHEGA, um partido cuja retórica política dificilmente teria espaço para muitos dos seus próprios apoiantes africanos, caso estes fossem apenas mais um rosto na fila da imigração aí na avenida de Portugal em Luanda. Mas nas redes sociais tudo é possível e a contradição vira coragem e a submissão ideológica passa por lucidez estratégica, tudo porque o "pula" lá da "Tuga" não tolera os gatunos do MPLA.

No centro deste fenómeno está uma certa elite luso-bujurra-angolano que tentou redesenhar a identidade do maior partido da  oposição, afastando-a da sua raiz histórica angolana para a aproximar de discursos importados, embalados como se fossem sinal de modernidade política. O resultado? Uma base militante barulhenta, repetitiva e cada vez mais desligada das preocupações reais dos angolanos, os famosissimos “combatentes de teclado” ou milicianos digitais como se queira, sempre prontos para a guerra virtual, mas silenciosos quando a realidade política bate à porta.

E o silêncio de hoje nas redes sociais? Não é um acaso. É o eco de uma derrota estrondosa de André Ventura ontem em Portugal. O esvaziamento do novo "mito", o cansaço da narrativa, a queda do “discípulo” que prometia regeneração moral e acabou prisioneiro das próprias contradições e punido nas urnas pelos portugueses de bem. Quando o líder perde aura, os seguidores perdem voz. E quando o marketing político se desfaz, resta apenas o embaraço colectivo (Savimbi deve estar a se revirar na tumba lá em Lopitanga).

O problema não é a UNITA ser de direita ou de esquerda, afinal os partidos evoluem, ideias mudam. O problema é transformar a oposição angolana numa sucursal ideológica de agendas estrangeiras que pouco compreendem a realidade histórica, social e cultural do nosso país e do nosso povo. Uma coisa é cooperação internacional; outra bem diferente é trocar a soberania intelectual por aplausos importados.

A quem serve esta transformação do Galo-Negro? Ao povo angolano que precisa de propostas sérias e enraizadas na sua realidade  ou a um pequeno círculo que prefere parecer moderno lá fora, mesmo que isso signifique perder o rumo cá dentro?

Pronto! Falei mbora...

Artur Cussendala Segunda, 09FEV2026

sábado, 7 de fevereiro de 2026

SALVEM A UNITA PARA O BEM DA DEMOCRACIA


Por Artur Cussendala SEXTA, 07FEV2026

A decisão da filha do fundador da UNITA de avançar para a criação de um novo partido político, rompendo com a liderança de Adalberto Costa Júnior, não pode ser analisada como um facto isolado nem como simples “diversão política”. Trata-se de mais um episódio num longo histórico de fracturas internas que têm marcado a UNITA desde o desaparecimento físico de Jonas Savimbi.



Desde 2002, o partido nunca conseguiu resolver de forma definitiva a tensão entre legado histórico, liderança efectiva e adaptação ao novo contexto político angolano. As sucessivas disputas internas, ora ideológicas, ora personalistas, têm produzido cisões que, em vez de fortalecerem a oposição, a fragmentam e a tornam politicamente previsível e eleitoralmente frágil.

Invocar a “mudança” como justificação para mais uma divisão soa contraditório. A experiência política angolana demonstra que a fragmentação da UNITA não cria alternativas reais ao poder dominante mas sim micro-partidos sem implantação nacional, dependentes de figuras simbólicas e incapazes de disputar o poder de forma séria. Dividir não é reformar; dividir, neste contexto, é enfraquecer.


A ideia de que poderão emergir dois grandes pilares simbólicos, um em torno do nome Savimbi e outro associado aos ideias de Mungai, ignora uma realidade elementar, já que o capital político da UNITA não é hereditário. Não se transmite por laços de sangue nem por apelos emocionais à memória do fundador. Constrói-se com unidade, organização, disciplina interna e ligação real às aspirações populares. Sem isso, o legado transforma-se apenas num instrumento retórico.

Enquanto a oposição se ocupa em disputas internas e projectos paralelos, quem observa tudo com tranquilidade estratégica é o MPLA. Não por virtude própria, mas porque quase todos os partidos recém-criados vão buscar os seus quadros, militantes e eleitorado à UNITA. O efeito prático é a erosão contínua da única força política com capacidade histórica e estrutural para disputar o poder central.

Este padrão repete-se há anos com cisões justificadas em nome da renovação acabam por produzir partidos sem expressão eleitoral, líderes sem base social e uma oposição cada vez mais dispersa. O resultado é uma falsa pluralidade que apenas legitima a manutenção do statu quo.


Angola não carece de mais siglas políticas; carece de uma oposição forte, coesa e estrategicamente madura. Enquanto a UNITA continuar a dividir-se em pequenos projectos personalistas, a chamada “mudança” permanecerá um slogan vazio e o poder continuará exactamente onde sempre esteve.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Os moralistas sem moral

 Depois de ler milhares de páginas, relatórios, depoimentos e investigações ligadas ao caso Jeffrey Epstein, torna-se impossível continuar a fingir inocência ou surpresa. O que este escândalo expõe não é um “caso isolado”, mas o funcionamento real do poder no mundo ocidental.

Por: Artur Cussandala 


Epstein não era um excêntrico rico que se desviou do caminho. Era uma peça funcional de um sistema, frequentado por presidentes, primeiros-ministros, membros da realeza, chefes de serviços secretos, magnatas financeiros e figuras centrais da academia e dos media. O que está documentado é suficiente para concluir que crimes gravíssimos, incluindo a exploração sexual de menores, foram cometidos com conhecimento e cobertura de sectores do Estado.

O mais chocante não é apenas o crime, é o encobrimento organizado. A justiça foi selectiva, as investigações travadas, os processos abafados, as provas desapareceram e os nomes mais poderosos foram cuidadosamente protegidos. Num sistema que se diz democrático e defensor dos direitos humanos, ninguém relevante foi condenado. Isto não é falha: é método.

Fica claro que existe uma elite política e financeira que opera acima da lei, protegida por redes de chantagem, favores cruzados e cumplicidade mútua. Quem entra nesses círculos aceita regras não escritas e aceita silêncio, obediência e lealdade ao sistema. A moral pública é apenas um discurso para consumo das massas.

Não é preciso provar rituais macabros para entender a profundidade da podridão. O simples facto de uma rede de abuso de crianças ter funcionado durante décadas, envolvendo gente do topo do poder mundial, sem consequências reais, já demonstra que o sistema está moralmente falido. Quando a justiça só cai sobre os fracos, deixa de ser justiça e passa a ser instrumento de dominação.

O caso Epstein é um aviso claro para o resto do mundo, incluindo África: o Ocidente não é o árbitro moral que finge ser. Por detrás do discurso civilizacional, dos direitos humanos e da democracia exemplar, existe um poder cínico, violento e hipócrita, disposto a tudo para se manter intacto.

Quem ainda acredita que estas elites governam com base em valores, e não em interesses, chantagem e impunidade, ou não leu os documentos — ou prefere continuar a dormir tranquilo.

sábado, 31 de janeiro de 2026

 


MINHA OPINIÃO SOBRE O FIM DO CONFLITO NA UCRÂNIA 


Há uma verdade que o discurso oficial insiste em esconder. A guerra na Ucrânia nunca foi apenas entre a Ucrânia e a Rússia. Desde o primeiro dia e que passei a reportar, sempre achei que trata-se de uma guerra de procuração, cuidadosamente arquitetada por Washington do velhote "João Bidon", onde os ucranianos forneceram o território, o sangue e a devastação, enquanto os Estados Unidos forneceram armas, inteligência e a agenda estratégica.

Se o ministro ucraniano das relações exteriores admite que Kiev assinará um plano de paz de 20 pontos com os EUA, enquanto Washington negoceia separadamente com Moscovo, excluindo a União Europeia, isso não é traição nem surpresa. É apenas a confirmação tardia de quem sempre mandou no conflito.

Vou tentar me explicar:

A Ucrânia não tinha autonomia real para iniciar a guerra com a Rússia, nem a tem agora para a encerrar. Foi empurrada para um confronto impossível de vencer, com a promessa ilusória de integração euro-atlântica e proteção total da NATO, promessas que nunca passaram de retórica útil. Agora, exaurida militarmente, esvaziada demograficamente e economicamente hipotecada por décadas, cancela a procuração, porque já não serve o objectivo inicial.

A Rússia, por seu lado, nunca combateu verdadeiramente a Ucrânia. Combateu a expansão da NATO, a humilhação estratégica pós-Guerra Fria e a presença americana nas suas fronteiras. Por isso, o interlocutor real de Moscovo sempre foi Washington e não Bruxelas, nem Kiev.

Quanto à União Europeia, o seu afastamento das assinaturas finais apenas confirma o óbvio, a Europa financiou a guerra, sofreu as consequências económicas e energéticas, mas não teve palavra estratégica. Reduzida a apêndice diplomático dos EUA, pagou caro por uma guerra que não controlou e que agora não consegue encerrar.

O eventual acordo não significará paz justa nem vitória moral. Será apenas o fecho pragmático de uma fase de confronto entre impérios, onde a Ucrânia foi usada como tampão geopolítico e descartada quando deixou de ser funcional.

Em termos crus, a Ucrânia não perdeu a guerra, foi consumida por ela.

E a Europa não foi derrotada, foi irrelevante.

Qual é a sua opinião?

Comente aí e não deixe de me seguir e compartilhar.


Artur Cussendala Quinta, 29JAN2026

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O CLIMA

 Actualmente, em Luanda, a sensação térmica é de um calor infernal, algo que muitos moradores da cidade nunca experienciaram antes. No Chile, a situação é igualmente dramática, onde incêndios que parecem saídos de cenas dantescas estão consumindo grandes áreas de vegetação e ameaçando comunidades inteiras, como se o próprio inferno estivesse se manifestando na Terra. Enquanto isso, no extremo oriente russo, o clima não deixa de surpreender, com uma nevasca extremamente severa e apocalíptica, que isola regiões e complica a vida das pessoas locais. Já na África do Sul e em Moçambique, o quadro igualmente preocupante é composto por chuvas intensas e diluvianas, trazendo à memória imagens bíblicas e causando enchentes que desabrigam inúmeras famílias. Se eu fosse uma pessoa religiosa ou acreditasse em divindades celestiais, certamente veria tudo isso como um sinal indiscutível do fim dos tempos profetizado por tantos. No entanto, agnóstico e com base nas evidências científicas, fica claro que o problema em questão é algo palpável e terrestre, algo está profundamente errado com o clima do nosso planeta, balançando o equilíbrio natural de muitos ecossistemas.


Artur Cussendala Quinta, 22JAN2026


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

AS AVENTURAS DO VENTURA É A RELAÇÃO COM ANGOLA


Por Artur Cussendala



A minha análise começa a confirmar-se e, mais importante do que o resultado eleitoral em Portugal, confirma-se o impacto que esse resultado poderá ter sobre Angola. Quem leu com atenção os meus textos anteriores percebeu que a ascensão de André Ventura não é um fenómeno isolado, nem meramente interno à política portuguesa. Ela insere-se num movimento mais amplo de ruptura com um sistema que, durante décadas, foi permissivo, cúmplice e confortável para interesses externos pouco transparentes — muitos deles com origem em África, e em particular em Angola.
É preciso dizê-lo sem rodeios: André Ventura representa uma direita radical, com traços autoritários e populistas, e não é alguém por quem eu nutra simpatia política. No entanto, análise política séria não se faz com gostos pessoais, faz-se com leitura fria da realidade e avaliação de consequências. E, desse ponto de vista, a eventual vitória de Ventura pode produzir efeitos que, paradoxalmente, beneficiem Angola mais do que prejudicam.
Durante anos, Portugal funcionou como extensão informal do sistema angolano de extracção de riqueza: capitais desviados, investimentos de fachada, compras de imóveis de luxo, tratamentos médicos, lazer e ostentação. Tudo feito com uma facilidade quase obscena, sustentada por uma elite política portuguesa que confundiu relações históricas com promiscuidade financeira. Portugal foi menos parceiro e mais lavandaria.
Se André Ventura chegar ao poder e cumprir, ainda que parcialmente, o que promete — maior controlo financeiro, escrutínio de capitais estrangeiros, fim do “vale tudo” — isso representará um travão objectivo a esse circuito viciado. Não por amor a Angola, evidentemente, mas por interesse interno português. E é precisamente aí que Angola ganha.
Um Portugal menos permissivo obriga as elites angolanas a fazerem o que sempre evitaram: investir em casa, responder internamente, prestar contas ao seu próprio povo. O fim da fuga confortável de capitais e da impunidade externa pode funcionar como mecanismo indirecto de moralização nacional. Não por virtude, mas por constrangimento.
Convém também desfazer uma narrativa conveniente: o crescimento de Ventura não nasce do racismo nem da ignorância popular, como muitos gostam de repetir. Ele nasce do fracasso das elites tradicionais portuguesas, que normalizaram abusos, fecharam os olhos à corrupção e transformaram o Estado num espaço capturado por interesses cruzados. Ventura é sintoma, não causa.
Do ponto de vista angolano, a continuidade desse sistema seria muito mais prejudicial do que uma ruptura desconfortável. A estabilidade aparente beneficiou sempre os mesmos: políticos, empresários oportunistas e intermediários de luxo. O cidadão comum — em Portugal e em Angola — ficou a pagar a factura.
Não se trata, portanto, de apoiar André Ventura como modelo político ou referência moral. Trata-se de reconhecer que, nas circunstâncias actuais, a sua vitória pode alterar um equilíbrio perverso que Angola nunca conseguiu quebrar sozinha. Às vezes, mudanças externas impõem reformas internas que a vontade política local nunca teve coragem de enfrentar.
Em política real, não se escolhe o ideal. Escolhe-se o impacto. E, se Portugal deixar de ser o porto seguro da corrupção angolana, Angola será forçada a encarar os seus próprios demónios. Isso, por si só, já seria uma mudança histórica.

sábado, 17 de janeiro de 2026

O Paradoxo da Groenlândia e o Eclipse da Aliança Transatlântica


Há alguns dias venho refletindo sobre a condensação de ideias a respeito do atual problema entre os parceiros da NATO. Contudo, asseguro que não se trata de um tema de fácil abordagem. Entretanto, esforçar-me-ei para tentar.



Por Artur Cussendala QUINTA, 15JAN2025


O cenário internacional enfrenta uma deriva inquietante que é a possibilidade de um impasse estratégico entre aliados históricos, não motivado por potências externas como a Rússia ou a China, mas pela posse e influência sobre a Groenlândia. De um lado, a Europa e a Dinamarca defendem a integridade territorial; do outro, os Estados Unidos — o outrora arquiteto da ordem liberal — parecem dispostos a redefinir as regras do jogo sob a égide do "interesse nacional primeiro".


​A Armadilha da Dependência Estrutural


​O paradoxo europeu nunca foi tão exposto. Embora a Europa seja uma potência económica, a sua arquitetura de segurança é, na prática, um "franchise" norte-americano.


​Vulnerabilidade Técnica


A dependência de sistemas de satélites (GPS), software de combate e logística de defesa cria uma soberania limitada.

​O "Botão de Desligar": Washington detém, teoricamente, a capacidade de neutralizar a eficácia militar europeia sem disparar um único tiro, apenas através de restrições técnicas ou diplomáticas. Esta assimetria é o trunfo que figuras como Donald Trump utilizam para transformar a NATO de uma aliança de valores numa transação comercial de proteção.


​A Erosão do Direito Internacional


​Uma acção coerciva dos EUA sobre a soberania de um aliado europeu (neste caso, o Reino da Dinamarca) criaria uma rutura sistémica.

​Se as normas internacionais passarem a ser aplicadas de forma selectiva pela própria potência que as instituiu, o Direito Internacional deixa de ser uma bússola para se tornar uma mera sugestão.

​Isto enviaria uma mensagem clara ao mundo de que a soberania é um privilégio dos fortes e não um direito dos Estados. A queda deste "dominó" jurídico invalidaria décadas de diplomacia pós-1945.

A Ameaça Interna

​A conclusão é inevitável e irónica: a maior ameaça à estabilidade do Ocidente pode já não residir na "agressividade" de Moscovo ou Pequim, mas na erosão interna das suas próprias alianças. Se a Groenlândia se tornar o pomo da discórdia, a NATO deixará de ser um escudo contra inimigos externos para se tornar o cenário de uma implosão interna.


E ainda bem que a Rússia ficou forte novamente pois este seria um precedente perigoso para as noções africanas que de um tempo a esta têm desafiado o ex-colonizador como no SAHEL. 


Quero saber o que 🫵 pensa a respeito.

O MITO DO ARSENAL NUCLEAR UCRANIANO


Por: Artur Cussendala Sábado, 03JAN2026


Dado o frequente aparecimento de comentários semelhantes de analistas europeus em meu espaço sobre o arsenal nuclear ucraniano, decidi elaborar um único texto com o intuito de esclarecer aqueles que possam não estar cientes do assunto.



Prestem atenção: Após o colapso da União Soviética, consolidou-se no discurso político e mediático ocidental a ideia de que a Ucrânia “abdicou” de um vasto arsenal nuclear próprio, abrindo mão de um instrumento decisivo de dissuasão estratégica. Esta narrativa, embora recorrente, não resiste a uma análise técnica e histórica rigorosa.

As ogivas nucleares estacionadas em território ucraniano nunca foram propriedade da Ucrânia enquanto Estado soberano. Tratava-se de armamento estratégico da União Soviética, distribuído por várias repúblicas federadas por razões logísticas e geográficas, mas sempre sob controlo centralizado. O sistema nuclear soviético assentava numa cadeia de comando extremamente rígida, na qual os códigos de lançamento, os centros de decisão e a autoridade final permaneciam em Moscovo.

A Ucrânia herdou a presença física dessas armas, mas não o seu controlo operacional. Não possuía os códigos de activação, não comandava os sistemas de lançamento nem detinha autonomia sobre a doutrina de emprego nuclear. Sem esses elementos, falar de “poder nuclear ucraniano” é tecnicamente incorreto. A posse territorial de ogivas não equivale à capacidade efectiva de as utilizar.

É verdade que Kiev poderia, em teoria, ter tentado reter, negociar ou mesmo alienar parte desse material num contexto de desagregação caótica do espaço soviético. Contudo, essa hipótese esbarrava em constrangimentos políticos, técnicos e internacionais quase intransponíveis, desde a pressão das grandes potências até à incapacidade de manter e operar um arsenal dessa natureza.

O Memorando de Budapeste, frequentemente invocado como prova de uma renúncia estratégica ucraniana, deve ser lido à luz dessa realidade: a Ucrânia não abriu mão de um poder que nunca exerceu plenamente. O que ocorreu foi a regularização jurídica e política de uma situação de facto, enquadrada pelos interesses das potências nucleares e pela nova ordem internacional pós-Guerra Fria.

Persistir na narrativa de que a Ucrânia era uma potência nuclear soberana é confundir armazenamento com soberania, localização com controlo e mito político com realidade histórica. Um debate sério sobre segurança europeia exige abandonar simplificações convenientes e encarar os factos com rigor.

Acredito que a educação no continente europeu possa não ser tão rigorosa quanto se espera.

APROFUNDAR AS DESIGUALDADES

 A reinspeção dos veículos automóveis constitui, em teoria, uma estratégia eficaz para reduzir a circulação de viaturas obsoletas nas vias urbanas e rurais do país, contribuindo para a melhoria da segurança rodoviária e para a proteção de motoristas, passageiros e peões. O princípio é legítimo: garantir que apenas veículos em condições técnicas aceitáveis continuem a circular, reduzindo acidentes provocados por falhas mecânicas.

Contudo, na prática, esta medida levanta sérias questões de justiça social e de adequação à realidade económica nacional. Muitos proprietários enfrentam enormes dificuldades para obter aprovação nas inspeções, dado o elevado rigor técnico exigido, que transforma o processo num verdadeiro obstáculo, senão mesmo numa tarefa quase impraticável para a maioria dos cidadãos.

Importa sublinhar que Angola não é um país produtor de veículos nem de sobressalentes automotivos em escala significativa. A dependência quase total de importações, associada ao elevado custo das peças, à escassez de oficinas devidamente apetrechadas e ao fraco poder de compra da população, coloca o cidadão comum numa posição de clara desvantagem. Nestes termos, a reinspeção, tal como está concebida e aplicada, acaba por penalizar quem não dispõe de alternativas viáveis de mobilidade.

Assim, uma política pública desta natureza, para ser verdadeiramente eficaz e socialmente justa, deveria ser acompanhada de medidas complementares, como o incentivo à renovação do parque automóvel, facilitação do acesso a peças e serviços, criação de linhas de apoio ou períodos de adaptação. Sem essas salvaguardas, a reinspeção corre o risco de deixar de ser um instrumento de segurança rodoviária para se transformar num mecanismo que lesa o cidadão e aprofunda desigualdades.

Artur Cussendala T


erça, 30DEZ2025

OUSADIA OU COBARDIA

Z


elensky não manda nada nisso. Quem acredita que um presidente que vive de ajudas externas decide, por iniciativa própria, atacar simbolicamente a casa de Vladimir Putin, ou é ingénuo ou faz de conta que não percebe como funciona o poder real. Este tipo de operação não está ao alcance de uma marioneta útil. É coisa de gente grande, de Estados que mandam, de serviços secretos com décadas de experiência em operações sujas.

Tudo aponta para uma jogada ocidental para rebentar qualquer hipótese de negociação que não passe por eles. Quando as conversas começam a ganhar corpo fora do controlo de Washington, Londres ou Bruxelas, aparece sempre uma provocação “misteriosa”. Não é coincidência, é método. Guerra também é isso: empurrar o adversário para uma reacção irracional e depois posar de vítima.

Os drones até podem ter sido abatidos e nunca se provar oficialmente que o alvo era a residência do presidente russo, mas a mensagem foi entregue. E no Kremlin mensagens dessas não se ignoram. A Rússia não esquece, não perdoa e responde sempre. O problema é que a resposta raramente atinge quem provocou. Os verdadeiros autores estão bem sentados nas suas capitais europeias, protegidos por protocolos e bunkers, enquanto quem vai pagar a factura são os civis ucranianos.

No fim das contas, esta guerra deixou de ser sobre a Ucrânia há muito tempo. O país é apenas o campo de batalha onde potências disputam influência, testam armas e acertam contas antigas. Zelensky é o rosto do conflito, mas não é o cérebro. E quando a vingança russa vier — porque virá — não será cirúrgica nem pedagógica. Será brutal. E, como sempre, os inocentes ficarão no meio do fogo cruzado, enquanto os verdadeiros responsáveis continuam longe, intocáveis e a discursar sobre democracia.


Artur Cussendala 

Terça, 30DEZ2025

A MORIMBUNDA UNIÃO AFRICANA



Por: Artur Cussendala Segunda, 05JAN2026


O mundo está em plena convulsão, com guerras, sanções e disputas abertas pelo controlo do poder global. Ainda assim, a União Africana permanece muda, paralisada, como se nada de relevante estivesse a acontecer. Perante a transformação acelerada da ordem internacional, a África continua sem voz própria, sem linha estratégica e sem capacidade de se afirmar como sujeito da História.

A União Europeia, por sua vez, refugia-se no discurso da “ditadura de Maduro” para evitar enfrentar o essencial: a sua dependência estrutural dos Estados Unidos. Não é uma questão de valores democráticos, mas de medo político e subserviência estratégica. A UE fala em princípios, mas age por alinhamento automático, mesmo quando isso contraria os seus próprios interesses económicos, energéticos e geopolíticos.

A posição africana é ainda mais preocupante: a da indefinição crónica.

No Sahel, países como Mali, Burkina Faso e Níger romperam com a tutela francesa não por ideologia, mas por cansaço. Décadas de presença militar ocidental não trouxeram segurança nem desenvolvimento. O espaço deixado foi rapidamente ocupado por novos actores, como a Rússia, não por afinidade, mas por pragmatismo. A União Africana, entretanto, limitou-se a comunicados formais, sem apresentar uma alternativa africana para a segurança regional.

Na Líbia, a destruição do Estado é consequência directa da intervenção da NATO em 2011. Desde então, o país transformou-se num campo de disputa entre potências estrangeiras como a Turquia, Rússia, Emirados, França, enquanto a África observa a sua própria região mergulhar no caos, sem capacidade de impor uma solução africana para um problema africano.

No Sudão, o conflito entre facções militares empurrou o país para um colapso humanitário grave, com impactos directos sobre o Corno de África e o Mar Vermelho. Mais uma vez, a mediação com algum peso veio de fora do continente, enquanto a União Africana ficou reduzida ao papel de espectadora.

Na República Democrática do Congo, uma das regiões mais ricas do mundo em recursos estratégicos como o cobalto, coltan e terras raras, o Estado continua frágil e o conflito permanente. Potências globais disputam silenciosamente o controlo das matérias-primas essenciais à economia do futuro, enquanto a África falha em transformar a sua riqueza natural em soberania económica e industrial.

Mesmo países relativamente estáveis, como Angola, continuamos excessivamente dependentes das flutuações externas — petróleo, financiamento internacional, decisões tomadas fora do continente — sem uma estratégia africana comum que proteja interesses colectivos num mundo cada vez mais multipolar.

O problema não é a falta de recursos, nem de população, nem de importância geopolítica. O problema é político. A União Africana não funciona como um bloco de poder, mas como uma estrutura burocrática sem capacidade de decisão real. Não define prioridades estratégicas, não consolida alianças, não estabelece linhas vermelhas.

A chamada “neutralidade africana” não é estratégia; é omissão.

Num mundo onde todos disputam espaço, influência e controlo de recursos, quem não se posiciona acaba posicionado por outros. A África corre o risco de repetir o seu papel histórico: palco de disputas alheias, nunca autora do seu próprio destino.

A questão já não é se a África pode definir o seu lugar no mundo. Pode. A verdadeira questão é até quando continuará a adiar essa decisão — e qual será o custo desse adiamento para as próximas gerações.

 Começaram hoje as eleições presidenciais em Portugal e eu apoio um candidato e explico as razões:



Gostaria de ver André Ventura como Presidente de Portugal por uma razão essencialmente política e estratégica. Ventura representa, goste-se ou não, uma ruptura com o consenso europeu instalado, aproximando-se do perfil de um “mini-Trump” europeu: populista, confrontacional e avesso às ortodoxias de Bruxelas.

No plano internacional, a sua postura céptica em relação à guerra na Ucrânia contrasta com a submissão automática de grande parte da elite política europeia aos interesses da NATO e dos Estados Unidos. Um Presidente português menos alinhado com essa lógica belicista poderia contribuir para uma Europa mais pragmática, menos ideológica e menos disposta a sacrificar os seus próprios interesses económicos e sociais em conflitos que não controla.

Mas há um ponto ainda mais relevante para Angola. Um Ventura em Belém dificultaria seriamente a vida aos corruptos angolanos que usam Portugal como refúgio seguro para capitais de origem duvidosa. Durante anos, Portugal foi tratado como uma extensão offshore de Angola, onde dinheiro público desviado encontrava portas abertas, cumplicidades políticas e silêncio institucional.

Um presidente com discurso duro contra corrupção, imigração selectiva e lavagem de capitais teria pouco interesse em manter esse pacto tácito de conveniência. Isso obrigaria as elites angolanas a repensarem a exportação do nosso dinheiro para Lisboa e, quem sabe, a encarar com mais seriedade a necessidade de investir em Angola, onde esse capital faz realmente falta.

Em suma, André Ventura não seria uma solução milagrosa nem um democrata clássico, mas poderia funcionar como um factor de perturbação útil: para Portugal, ao romper com a hipocrisia política instalada; e para Angola, ao fechar uma porta que durante demasiado tempo esteve escancarada para a fuga de recursos e responsabilidades.


Artur Cussendala  Domingo, 11JAN2026

A oposição que se divide enquanto sonha governar

Por: Artur Cussendala Quinta, 19FEV2026 Há algo profundamente irónico na actual engenharia política da oposição angolana. Fala-se em alternâ...