quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O TEMPO PASSA… E, ÀS VEZES, NEM NOS DAMOS CONTA

Hoje deparei-me aqui, no Facebook, com a lista dos candidatos admitidos ao exame de acesso ao Concurso Público de Ingresso no Ministério da Educação, pelo município do Quissongo — a terra do barro vermelho que, há 60 “cacimbos”, me viu nascer. Percorri a lista de ponta a ponta, quase como quem procura um nome conhecido. Olhei para as habilitações literárias, mas foram sobretudo as idades que me fizeram parar e reflectir. A maioria está na casa dos 30 anos e há até um candidato com 41. Foi então que me dei conta de uma coisa curiosa: não reconheci absolutamente ninguém. E não poderia ser de outra forma. Quando saí do Quissongo (outrora comuna), no final da década de 70 do século passado, nenhum daqueles candidatos tinha nascido. São homens e mulheres de uma nova geração, que hoje trilham caminhos que, de alguma maneira, um dia também palmilhei. Aquela simples lista, que para muitos talvez não passe de um conjunto de nomes à espera de uma oportunidade de emprego, provocou em mim um estranho e bonito sentimento de satisfação e nostalgia ao mesmo tempo. Satisfação por ver uma nova geração a estudar, a procurar oportunidades e a construir o seu próprio futuro. Nostalgia porque, ao olhar para aquelas idades, percebi de forma muito concreta como o tempo passou. Aquelas crianças que nunca conheci, porque ainda não existiam quando parti, são hoje adultos, candidatos a professores e, quem sabe, futuros educadores de outras gerações. É assim que a vida passa diante dos nossos olhos. Primeiro somos nós a procurar o nosso lugar no mundo; depois, quase sem percebermos, passamos a assistir às novas gerações a ocuparem os lugares que um dia foram nossos. Quissongo viu-me nascer. Eu vi partir uma geração. Hoje, ao olhar para esta lista, percebi que uma outra geração já está a escrever a sua própria história. E talvez seja esta uma das formas mais silenciosas de perceber que o tempo, esse velho companheiro, nunca parou de caminhar. Artur Cussendala, Quarta 09SET 2026 Na imagem: a casa de telhas atrás dos estudantes, pertenceu ao grémio do milho de Angola colonial e dirigida à época pelo Senhor Gouveia, vulgo "kaungo".

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A REFORMA

“Fui exonerado e mandado para a reforma sem aviso prévio. Foi uma situação que me apanhou completamente de surpresa.” Sério? Olhando para trás, talvez o seu próprio documento de identidade já trouxesse, há muito, o indício de que esse momento chegaria. E chegou. Há qualquer coisa de irónico quando alguém se mostra surpreendido por envelhecer, como se o tempo fosse uma realidade que só se aplicasse aos outros. A verdade, porém, é simples e incontornável: todos envelhecemos, e todos, mais cedo ou mais tarde, teremos de passar o testemunho. Tenho um filho que trabalha no cerimonial de uma força castrense e que, pela natureza da sua função, acompanha diariamente situações delicadas. O que me relata sobre as consequências de determinadas reformas e exonerações compulsórias baseadas na idade é preocupante. Há pessoas que, ao perderem subitamente o cargo que exerceram durante décadas, entram numa espécie de vazio existencial. Algumas desenvolvem graves perturbações emocionais e, em certos casos, esse sofrimento acaba por ter consequências trágicas. É preciso, contudo, fazer uma distinção importante: o problema não é a reforma em si, mas a forma como a pessoa é preparada para ela. Para muitos, o trabalho deixou de ser apenas uma profissão. Tornou-se identidade, estatuto, reconhecimento social e, em alguns casos, quase uma dependência. Sobretudo quando se trata de cargos de prestígio, acompanhados de privilégios e regalias, abandonar o posto pode ser psicologicamente muito mais difícil do que parece para quem observa de fora. Por isso, chegar à idade da reforma sem qualquer preparação para essa nova etapa da vida é, de certa forma, viver desligado de uma realidade que sempre esteve diante de nós. A reforma não deveria ser encarada como uma sentença, muito menos como o fim da vida produtiva. É o fim de um ciclo profissional e o início de outro. Existe ainda uma questão que raramente queremos discutir com honestidade que é a passagem do bastão para as novas gerações. Quando nos agarramos indefinidamente aos lugares que ocupamos, consciente ou inconscientemente, também podemos estar a fechar portas para aqueles que vêm atrás de nós. Há jovens preparados, qualificados e cheios de vontade de trabalhar, mas que encontram estruturas envelhecidas e oportunidades cada vez mais escassas. Isso não significa que os mais velhos sejam inúteis ou devam ser simplesmente afastados. Pelo contrário. A experiência de quem sai deve servir para formar e orientar quem entra. O conhecimento acumulado ao longo de décadas não deveria desaparecer no momento em que chega a reforma; deveria ser transmitido às novas gerações. O verdadeiro desafio, portanto, não é apenas reformar pessoas. É criar processos de transição dignos, humanos e previsíveis, nos quais o trabalhador saiba com antecedência quando e como deixará o cargo, tenha tempo para se preparar emocional e financeiramente e possa transmitir a sua experiência a quem o substituirá. Precisamos aprender a sair de cena com a mesma dignidade com que um dia entrámos. Porque o problema não está em passar o bastão. O problema está em acreditar que fomos feitos para segurá-lo eternamente. A vida tem ciclos. O trabalho também. E uma sociedade saudável é aquela que sabe respeitar quem sai, preparar quem entra e garantir que nenhum dos dois se sinta descartado. Artur Cussendala - Terça, 08SET 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

SERÃO ELES?! ONDE ANDAM AS "BÓFIAS"?

Não acredito em coincidências, mas a sucessão de incêndios em autocarros de transportes públicos em Angola já é grande demais para ser tratada simplesmente como uma série de acidentes isolados. A cada nova notícia de um autocarro em chamas, aumentam as dúvidas e, com elas, a desconfiança dos cidadãos. É evidente que existem explicações técnicas que devem ser investigadas, a exemplo de falhas mecânicas, problemas eléctricos, falta de manutenção preventiva, combustível ou outros factores relacionados com o estado dos veículos. Mas, perante a repetição dos casos e a proximidade de períodos politicamente sensíveis, também é legítimo perguntar se existe alguma coisa para além do que está à vista. Não seria a primeira vez que, às vésperas de eleições, surgem acontecimentos que alimentam a insegurança e a desconfiança. Já vimos, em anos anteriores, incêndios ou destruição de armazéns de víveres e veículos privados por este país profundo. Isso não prova que os acontecimentos actuais tenham uma origem criminosa ou política, mas é precisamente por existir esse histórico que as autoridades deveriam investigar cada caso com o máximo de rigor e transparência. O problema é que, quando não há respostas oficiais convincentes, o espaço deixado pela investigação é rapidamente ocupado pela especulação. E, nesse ambiente, misturam-se factos, rumores, teorias e acusações sem provas. Quando a "bófia" falha em esclarecer, o cidadão começa a construir a sua própria versão dos acontecimentos, algumas vezes acertada, outras completamente equivocada. Por isso, mais do que apontar o dedo a supostos mandantes sem provas, é preciso exigir respostas para se saber por que razão tantos autocarros estão a incendiar-se? Há um padrão comum entre os casos? As viaturas estavam devidamente mantidas? As causas dos incêndios foram determinadas por perícias independentes? Existem indícios de sabotagem? Se forem apenas falhas técnicas, que se diga claramente. Se houver negligência, que os responsáveis sejam responsabilizados. E, se houver mão criminosa por detrás destes acontecimentos, que os mandantes e executores sejam identificados e levados à Justiça. Transportes públicos são um serviço essencial e, em período pré-eleitoral, qualquer fenómeno desta natureza pode ter consequências que vão muito além da perda de um autocarro. Pode afectar a mobilidade, aumentar o medo e alimentar a desconfiança nas instituições. Não devemos transformar suspeitas em certezas, mas também não devemos tratar como mera coincidência aquilo que merece uma investigação séria. O fogo pode destruir um autocarro em minutos; a falta de respostas pode incendiar a confiança de uma sociedade inteira. Artur Cussendala 18AGO 2026

domingo, 9 de agosto de 2026

A CULPA NÃO PODE MORRER SOLTEIRA

Um palco daquela dimensão não aparece por magia. Não foi montado num quintal, escondido dos olhos de todos, para depois ser levado de reboque até ao local do evento. A sua montagem exigiu tempo, meios e logística. E, durante esse processo, muita gente terá visto o que estava a acontecer. É precisamente por isso que, perante o que aconteceu no Uíge, não podemos discutir apenas o acto que desencadeou o tumulto. É preciso perguntar também, onde estavam as autoridades enquanto tudo era preparado? Que medidas preventivas foram tomadas? Quem avaliou os riscos? E por que razão se permitiu que uma situação potencialmente perigosa chegasse àquele ponto? Eu reprovo o acto de impedir o direito de ir e vir dos citadinos do Uíge e compreendo que as autoridades tenham de garantir a ordem pública. Mas uma coisa não pode servir para esconder a outra. Se havia informações de que o acto era ilícito e propenso a ocorrer tumultos, aglomerações ou outros incidentes, cabia às autoridades agir preventivamente para proteger os cidadãos. O mais preocupante é que, pelas imagens que nos chegaram, quem acabou por pagar a factura foram cidadãos inocentes. Vêem-se senhoras idosas aflitas, no meio do tumulto, algumas a serem pisoteadas e a tentar desesperadamente escapar. São imagens difíceis de digerir e que deveriam interpelar a consciência de todos nós. Por isso, considero legítimo exigir responsabilidades a todos os níveis. Se uma investigação confirmar negligência ou falhas graves na prevenção e gestão da situação, deverão ser responsabilizados os responsáveis pela segurança e pela administração local, incluindo o Governador do Uíge, o comandante provincial da PNA, o delegado do MININT e o administrador municipal, cada um dentro das suas competências e responsabilidades. Da mesma forma, os organizadores do evento devem responder perante a Justiça caso se confirme que violaram a lei ou ignoraram determinações das autoridades. Não se trata de proteger a UNITA, o MPLA ou qualquer outra força política. Trata-se de proteger o cidadão. A ordem pública não pode ser aplicada selectivamente, nem podemos aceitar que as autoridades permaneçam inertes perante uma situação previsivelmente perigosa para depois aparecerem apenas quando o conflito já começou. Precisamos de uma sociedade normalizada, em que a prevenção seja mais importante do que a punição posterior. O Estado deve ser capaz de antecipar os riscos, dialogar com os organizadores, estabelecer condições de segurança e impedir que uma disputa política termine com cidadãos inocentes a correr pela vida. E há uma lição que não podemos ignorar, não basta descobrir quem provocou o incêndio; também é preciso saber quem viu o fumo, tinha obrigação de agir e não agiu. As imagens do Uíge exigem mais do que indignação nas redes sociais. Exigem uma investigação séria, independente e transparente, capaz de determinar responsabilidades políticas, administrativas e criminais, se existirem. Porque, no fim, repito 'a culpa não pode morrer solteira'. @destacar

domingo, 31 de maio de 2026

A ÉBOLA...

Há cerca de dez anos, escrevi algo semelhante e retorno ao tema porque sinto profundamente que há uma força invisível por trás de certos fenômenos. As explicações científicas mais aceites indicam que o Ébola e o Marburg são doenças zoonóticas, ou seja, vírus que passam de animais silvestres para seres humanos, especialmente através do contacto com morcegos frugívoros e outros animais infectados. No entanto, esta explicação levanta algumas questões que merecem reflexão. Os povos africanos convivem há milhares de anos com a fauna e a flora do continente. A caça, o consumo de carne de animais selvagens e o contacto com ecossistemas naturais sempre fizeram parte da realidade de muitas comunidades. Se essa convivência existe desde tempos imemoriais, por que razão surtos tão devastadores parecem ganhar maior destaque apenas nas últimas décadas? Com os avanços da biotecnologia e da engenharia genética, tornou-se tecnicamente possível manipular microrganismos em laboratório. Isso leva alguns observadores a questionarem se determinadas epidemias poderiam ter sido agravadas, modificadas ou mesmo exploradas por interesses geopolíticos, económicos ou militares. A recorrência de surtos em regiões marcadas por pobreza, conflitos armados, instituições frágeis e reduzida capacidade de investigação científica alimenta suspeitas entre muitos africanos. Países como a República Democrática do Congo e, anteriormente, Angola durante a guerra civil, reuniam condições que dificultavam a verificação independente das origens e dos mecanismos de propagação dessas doenças. Não se trata de afirmar categoricamente que o Ébola ou o Marburg sejam armas biológicas, mas de defender que todas as hipóteses relevantes devem ser investigadas com transparência, rigor científico e supervisão internacional. A história demonstra que programas secretos de investigação biológica já existiram em várias partes do mundo, razão pela qual o debate sobre biossegurança e a origem de determinadas epidemias não deve ser considerado ilegítimo ou encerrado prematuramente. Num continente que tantas vezes serviu de palco para disputas geopolíticas externas, é compreensível que surjam dúvidas e desconfianças. Por isso, mais do que aceitar explicações prontas, os africanos devem exigir investigação independente, acesso à informação e total transparência sobre a origem e a evolução dessas doenças. Artur Cussendala DOMINGO, 31MAI 2026 https://wwe.facebook.com/cussendala

segunda-feira, 25 de maio de 2026

TRUMP A INTERFERIR NO QUOTIDIANO DOS LUANDENSES

Nós, angolanos, muitas vezes distraímo-nos facilmente ou alimentamos a convicção de que os problemas do mundo nunca nos irão afectar diretamente. Há cerca de um mês, a Bloomberg alertou para uma possível escassez mundial de combustíveis derivados do petróleo. Na altura, partilhei essa informação no meu perfil e no grupo de Facebook que administro. Alguns provavelmente leram, mas poucos levaram o alerta a sério. Hoje, porém, a realidade fala por si. As bombas de combustível em Luanda encontram-se abarrotadas, revelando não apenas o impacto das tensões no Médio Oriente, mas também a nossa falta de prevenção e consciência colectiva. Continuamos a agir como se os conflitos internacionais fossem acontecimentos distantes, sem qualquer reflexo na nossa vida quotidiana, quando, na verdade, vivemos num mundo profundamente interligado. A situação agrava-se ainda mais pelo silêncio das autoridades, que pouco ou nada fizeram para educar, informar e tranquilizar a população antecipadamente. Em momentos de crise ou ameaça global, o papel da comunicação institucional é fundamental para evitar o pânico, o açambarcamento e a desordem social. O que estamos a viver neste primeiro dia laboral deve servir de lição de que os problemas globais já não escolhem fronteiras. O que acontece no Médio Oriente, na Europa ou na Ásia pode, em poucos dias, afectar directamente a vida de um cidadão em Luanda, Namibe ou Ondjiva. Artur Cussendala - Segunda, 25MAI 2026 https://mbondochape.blogspot.com/?m=1

sábado, 23 de maio de 2026

TESTE DE SOFÁ

 


EU TAMBÉM SOU HOMEM E ESTOU COM O DIKOTA.

Antes de se condenar alguém na praça pública, é preciso separar moralismo, inveja e justiça. Pelos vídeos colocados a circular por pessoas de má-fé nas redes sociais, vêem-se mulheres adultas, sem sinais visíveis de coação ou violência, e até ao momento não existe qualquer denúncia formal de estupro ou abuso sexual.

O verdadeiro problema aqui parece ser a divulgação ilegal de conteúdos íntimos, expondo a privacidade de pessoas adultas. Transformar isso num tribunal popular apenas revela hipocrisia social e sede de escândalo.
Quanto ao local dos encontros, ainda que se trate de um gabinete ou de um espaço ligado a uma instituição, isso pode configurar, no máximo, uma infração administrativa ou ética interna, e não necessariamente um crime. E se for um espaço privado do visado, então entra-se no domínio da vida pessoal, onde cada adulto responde pelos seus actos e escolhas.

Vivemos numa sociedade onde muitos fingem santidade em público, mas fazem o contrário em privado. É preciso parar com o julgamento selectivo e com a cultura de humilhação pública. Respeitem o senhor e respeitem igualmente as mulheres envolvidas. Nem tudo o que choca os moralistas constitui crime.
Os hábitos e excessos das elites podem não agradar a todos, mas cada um deve analisar os factos com equilíbrio e maturidade, evitando condenações baseadas apenas em emoções, inveja ou preconceito.

Artur Cussendala - SÁBADO 23MAI 2026
https://mbondochape.blogspot.com/

terça-feira, 19 de maio de 2026

João Lourenço e a oportunidade perdida de Angola


Desde a independência nacional, Angola atravessou diferentes ciclos políticos e económicos que moldaram profundamente a vida do seu povo. Alguns períodos ficaram marcados pela guerra, outros pela reconstrução nacional e pelo crescimento acelerado impulsionado pelo petróleo. Contudo, o consulado de João Lourenço corre o risco de ser lembrado como uma das fases de maior frustração colectiva da Angola pós-guerra.

Quando João Lourenço chegou ao poder, em 2017, muitos angolanos alimentaram expectativas legítimas de mudança. O combate à corrupção, a promessa de moralização das instituições, a abertura económica e a tão anunciada diversificação da economia surgiam como sinais de uma nova era. O país parecia finalmente pronto para abandonar a excessiva dependência do petróleo e construir bases sólidas para um desenvolvimento sustentável.

Entretanto, quase uma década depois, o sentimento predominante em largos sectores da sociedade é de desencanto.

A economia angolana permanece vulnerável, frágil e excessivamente dependente do crude. A diversificação económica transformou-se num slogan político repetido em discursos oficiais, mas com resultados pouco visíveis na vida concreta da população. Agricultura, indústria transformadora, turismo e produção nacional continuam incapazes de gerar o impacto estrutural prometido ao país.

Enquanto isso, os cidadãos enfrentam diariamente o aumento do custo de vida, o desemprego juvenil, a degradação do poder de compra e o crescimento das desigualdades sociais. Em muitas famílias angolanas, a esperança de prosperidade deu lugar ao sentimento de sobrevivência permanente.

Paradoxalmente, Angola entrou neste período sem o peso destrutivo da guerra civil. Era suposto que o país, décadas após o conflito armado, estivesse numa fase de consolidação económica e expansão social comparável a outras economias africanas emergentes. Mas isso não aconteceu na dimensão esperada.

A percepção de muitos cidadãos é que o país perdeu tempo precioso. Houve reformas, sim, mas frequentemente lentas, contraditórias ou insuficientes para produzir transformação profunda. O combate à corrupção, inicialmente visto como um marco histórico, acabou também envolvido em acusações de selectividade política, alimentando divisões e desconfiança no sistema.

No plano internacional, a chamada diplomacia económica igualmente produziu resultados limitados. Apesar das inúmeras cimeiras, fóruns e aproximações diplomáticas, Angola continua distante dos grandes centros de influência económica global e com reduzida capacidade de atrair investimentos estruturantes capazes de transformar a economia nacional. Em vários momentos, o país pareceu mais reagir aos acontecimentos internacionais do que assumir um papel estratégico relevante na região africana e no mundo.

Há ainda um aspecto político importante: os governos não são avaliados apenas pelas intenções ou pelos discursos, mas sobretudo pelos resultados concretos que deixam na vida das pessoas. E é precisamente nesse ponto que o mandato de João Lourenço enfrenta as críticas mais severas.

A História tende a ser implacável com líderes que chegam ao poder cercados de esperança popular e terminam os seus ciclos deixando frustração social, dificuldades económicas persistentes e promessas incompletas. Muitos angolanos acreditam hoje que o país poderia ter avançado mais, aproveitado melhor os seus recursos e construído uma economia menos dependente e mais inclusiva.

Se nada de estrutural mudar até 2027, é provável que João Lourenço deixe o poder sem a marca histórica de grande reformador que inicialmente muitos lhe atribuíram. Ao invés disso, poderá ficar associado à imagem de uma liderança que recebeu uma oportunidade rara de redefinir Angola no pós-guerra, mas que acabou por não corresponder plenamente às expectativas nacionais.

A grande questão que ficará para a História será simples: como um país tão rico em recursos naturais continuou incapaz de transformar riqueza em prosperidade colectiva?

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Medo de deixar o PODER



Por Artur Cussendala, Sexta 15MAI2026

Em muitos países africanos, a alternância política continua a ser encarada não como um processo natural da democracia, mas como uma ameaça à sobrevivência política, económica e até pessoal dos próprios líderes.

A pergunta que muitos fazem é simples: por que razão tantos dirigentes africanos se apegam ao poder? A resposta, embora complexa, passa quase sempre pelo medo, sim, medo da vingança, da humilhação pública, da perseguição judicial e da destruição do legado político.

Quando um líder chega ao poder e transforma o seu antecessor no principal alvo político, cria-se um precedente perigoso. O novo governante procura consolidar autoridade culpando o passado por todos os males do presente. Os antigos aliados tornam-se inimigos visíveis; os críticos internos passam a ser tratados como sabotadores; e instala-se uma cultura de purga política permanente. Nesse ambiente, governar deixa de ser apenas administrar o Estado e passa a significar sobreviver politicamente.

O problema é que quem governa dessa forma acaba refém do próprio método que criou. O líder que humilhou o seu antecessor começa, inevitavelmente, a imaginar que sofrerá o mesmo destino quando abandonar o poder. Surge então a obsessão pela perpetuação e começa por alterar regras internas, controlar estruturas partidárias, enfraquecer adversários, fabricar consensos e neutralizar possíveis sucessores. Não porque o país dependa necessariamente dele, mas porque ele passa a acreditar que sua saída significará vulnerabilidade.

É exactamente neste ponto que muitos sistemas políticos africanos entram em crise silenciosa. A sucessão deixa de ser um exercício democrático saudável e transforma-se numa disputa de sobrevivência. O medo substitui a confiança institucional. Em vez de preparar novas lideranças, cria-se um ambiente onde ninguém consegue afirmar-se plenamente, porque qualquer figura emergente é vista como ameaça potencial.

Em Angola, os sinais deste fenómeno começam a tornar-se cada vez mais visíveis. O debate sobre a sucessão dentro do partido no poder já não é apenas uma questão partidária; tornou-se um tema nacional. Os candidatos ao cadeirão máximo enfrentam dificuldades evidentes para se afirmarem politicamente, não necessariamente por falta de capacidade, mas porque o sistema parece pouco disposto a permitir o surgimento de uma liderança autónoma e forte.

Quando um partido ou um Estado depende excessivamente da figura de um único homem, a própria sucessão transforma-se num problema estrutural. A ausência de renovação cria insegurança interna, alimenta disputas silenciosas e enfraquece a confiança popular nas instituições. E quanto mais tempo um líder permanece no centro absoluto do poder, maior tende a ser o receio daquilo que encontrará depois da saída.

Existe aqui uma lição política importante a reter: quem não respeita o legado dos outros dificilmente verá o seu legado respeitado no futuro. A política construída sobre humilhação, vingança e destruição de adversários produz inevitavelmente insegurança para quem governa. Afinal, o governante de hoje sabe que poderá tornar-se o perseguido de amanhã.

As democracias sólidas constroem-se justamente no contrário disso e na existência de instituições fortes, sucessões previsíveis, respeito pelos antigos dirigentes e convivência política civilizada. Quando o poder deixa de ser encarado como propriedade pessoal e passa a ser entendido como mandato temporário, o medo da saída diminui.

África não precisa de líderes eternos. Precisa de instituições duradouras. Porque nenhum país pode amadurecer politicamente enquanto os seus dirigentes continuarem a governar como homens cercados pelo medo de abandonar o trono.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

AS MARACUTAIAS E O CULTO A PERSONALIDADE

 Por Artur Cussendala QUINTA, 14MAI2026

O debate sobre uma eventual tentativa de prolongamento do poder político em Angola voltou a ganhar força nos corredores digitais, sobretudo entre os chamados “especialistas do Facebook”, que alimentam a tese de que o Presidente João Lourenço poderá estar a desenhar uma estratégia para garantir, de forma indirecta, um terceiro mandato no comando efectivo do país. Embora, até ao momento, não existam provas concretas de tal intenção, o simples facto de o assunto dominar conversas políticas e jurídicas revela o nível de desconfiança que se instalou na sociedade angolana relativamente às dinâmicas do poder.

Segundo esta linha de pensamento, a eventual reeleição de João Lourenço na liderança do MPLA abriria caminho para uma engenharia política semelhante ao modelo aplicado por Vladimir Putin na Rússia. O argumento sustenta que, depois de consolidar o controlo interno do partido, Lourenço poderia apoiar um candidato politicamente dependente, uma figura sem autonomia real para encabeçar a lista eleitoral do MPLA, reservando para si a posição de vice-presidente. Formalmente, o novo rosto assumiria a presidência da República, mas o verdadeiro centro de influência permaneceria intacto nos bastidores do poder.

A teoria vai mais longe. Os defensores desta hipótese acreditam que, numa fase posterior, poderia surgir uma vacatura presidencial cuidadosamente aproveitada, permitindo que João Lourenço ascendesse constitucionalmente ao cargo de Presidente da República na condição de vice-presidente, garantindo, na prática, a continuidade do seu domínio político. Seria, portanto, uma espécie de “terceiro mandato indirecto”, obtido não pela alteração explícita da Constituição, mas através da manipulação estratégica das engrenagens institucionais.

Independentemente de a teoria ser plausível ou meramente especulativa, ela levanta questões profundas sobre a fragilidade das democracias excessivamente dependentes de figuras individuais. Quando o debate político deixa de girar em torno de programas, instituições e alternância democrática, para se concentrar na perpetuação de lideranças, o Estado começa lentamente a confundir-se com o partido, e o partido com o líder. É precisamente nesse ambiente que nascem os sistemas de presidencialismo hegemónico, onde as regras constitucionais permanecem formalmente intactas, mas são reinterpretadas de modo a servir interesses de continuidade política.

O mais preocupante, entretanto, não é apenas a possibilidade de uma estratégia dessa natureza existir ou não. O verdadeiro problema reside no facto de uma parte significativa da sociedade considerar tal cenário perfeitamente possível dentro do contexto político angolano. Isso demonstra que a confiança nas instituições continua frágil e que muitos cidadãos acreditam que os mecanismos do Estado podem ser instrumentalizados para acomodar ambições pessoais ou partidárias.

Ao mesmo tempo, há quem veja sinais dessa suposta preparação no ambiente político actual, sobretudo nos processos judiciais, nas disputas internas do partido e no aparente enfraquecimento de potenciais adversários. Para esses observadores, não seria coincidência que determinadas figuras incómodas estejam sob crescente pressão política e jurídica num momento em que o debate sobre sucessão começa silenciosamente a ganhar forma.

Contudo, é igualmente importante reconhecer que, até aqui, tudo permanece no campo das conjecturas políticas. E numa democracia séria, especulações não podem substituir factos. O risco de transformar rumores em verdades absolutas pode conduzir a radicalizações perigosas e alimentar ainda mais a polarização política.


Ainda assim, o simples surgimento dessas suspeitas deve servir como alerta. Democracias sólidas constroem-se com instituições independentes, respeito pela alternância do poder e lideranças capazes de compreender que nenhum projecto político deve depender eternamente de um único homem. A história mostra que, quando um sistema político começa a desenhar mecanismos para eternizar figuras no poder, raramente o faz em benefício da democracia.


Qual é a sua opinião? Deixe ela nos comentários.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

QUANDO O MILITANTE VIRA "MILITONTO"

 


É cada vez mais frequente vermos nas redes sociais militantes partidários  com particular destaque para os “kwachas”, repetirem quase de forma mecânica o velho refrão de que “as falhas da UNITA são toleráveis porque o partido nunca governou Angola nos 50 anos de independência”. Mas será mesmo um argumento sério ou apenas mais um slogan político destinado a anestesiar consciências?

A narrativa, além de simplista, ignora deliberadamente a complexidade da própria história angolana. Desde 1975, a UNITA não foi um mero espectador da vida nacional. Durante largos períodos da guerra civil, controlou extensas parcelas do território, chegando a dominar cerca de 75% do país. Explorou recursos, administrou zonas sob sua influência, montou estruturas políticas e militares próprias e construiu um exército regular de milhares de homens, muitas vezes melhor equipado do que as forças do próprio Estado angolano.

Após o fim da guerra, com a morte de Jonas Savimbi, a UNITA integrou o GURN (Governo de Unidade e Reconciliação Nacional), passando igualmente a participar da máquina política e institucional do país. Portanto, tentar vender a ideia de que o partido viveu totalmente afastado das responsabilidades nacionais é uma leitura historicamente desonesta e intelectualmente preguiçosa.


Os militantes conscientes, independentemente da cor partidária, precisam despir-se do fanatismo e abandonar a lógica dos slogans. A política não pode continuar refém de torcidas organizadas onde tudo é relativizado em função da conveniência partidária. Defender o indefensável apenas porque “o meu partido também faz” é um dos sintomas mais perigosos da degradação do debate público em Angola.


A reflexão surge na sequência de imagens colocadas em circulação pela própria UNITA, mostrando militantes no interior do país empilhados em carroçarias de camionetas, transportados em condições indignas, quase como carga animal. O mais perturbador, porém, não foi apenas a imagem em si, mas a tentativa de justificar a situação estabelecendo paralelos com práticas semelhantes atribuídas ao MPLA como se um erro pudesse servir de absolvição para outro.

Não pode haver normalização da indignidade humana apenas porque ela já foi praticada pelo adversário político. O que mais preocupa é assistir jovens e pseudo-intelectuais a transformarem o absurdo em algo aceitável, desde que isso sirva para proteger líderes partidários que, ironicamente, fazem estas mesmas viagens instalados em viaturas topo de gama, climatizadas e confortáveis.

A juventude angolana, profundamente partidarizada e cada vez mais emocionalmente capturada pela lógica tribal da política, parece em muitos aspectos pior do que as gerações anteriores. Perde-se a capacidade crítica, substituída pela defesa automática do “nosso lado”, mesmo quando este reproduz exactamente os vícios que antes condenava.


E talvez seja esse o maior drama nacional, já não se discute o certo e o errado, mas apenas quem cometeu o erro.


Por: Artur Cussendala, SEGUNDA, 11MAI2026

sábado, 25 de abril de 2026

MANDELA, O HEROI DOS PULAS TEM CULPA


 A recorrência da violência xenófoba na África do Sul não é um fenómeno isolado nem inesperado; é antes o sintoma visível de tensões sociais profundas que a chamada “nação arco-íris” nunca conseguiu resolver plenamente. O ideal de convivência harmoniosa entre diferentes grupos étnicos e culturais permanece, em grande medida, confrontado diariamente por desigualdades estruturais e frustrações acumuladas.

Importa sublinhar que esta violência não se dirige exclusivamente a estrangeiros. Ela emerge de um contexto mais amplo de exclusão económica, desemprego persistente e competição por recursos escassos. Nesse cenário, o estrangeiro transforma-se num alvo fácil, não por ser a causa dos problemas, mas por ser a sua face mais visível.

O legado de Nelson Mandela continua a ser, simultaneamente, admirável e insuficiente. A sua liderança foi decisiva para evitar um conflito civil de grandes proporções e para estabelecer as bases de um Estado democrático inclusivo. Contudo, a prioridade dada à reconciliação política não foi acompanhada por uma transformação económica estrutural capaz de desmantelar, com igual profundidade, as heranças do Apartheid. O resultado foi a manutenção de desigualdades que continuam a alimentar ressentimentos e tensões sociais.
Mais do que um “erro” de liderança, o que se observa é um dilema histórico. Mas como corrigir injustiças profundas sem provocar instabilidade sistémica? Os governos que sucederam a Mandela herdaram um país politicamente pacificado, mas economicamente fragmentado e, em muitos casos, falharam em traduzir estabilidade política em progresso social tangível.
A este quadro interno já frágil somam-se pressões externas cada vez mais intensas. A migração, a instabilidade no Oriente Médio, particularmente em cenários de conflito que levem ao bloqueio do Estreito de Ormuz por onde circula uma parte significativa do comércio mundial, tem efeitos globais imediatos, assim aumentam os preços da energia, encarecem os transportes e pressão sobre cadeias de abastecimento. Economias já vulneráveis, como a sul-africana e maior parte dos países da África, tendem a sentir esses choques de forma mais aguda, agravando o custo de vida e intensificando a competição por recursos básicos.
Neste contexto, a frustração social ganha novos combustíveis. O descontentamento económico, amplificado por choques externos, encontra expressão em formas de violência interna e muitas vezes dirigidas contra os mais expostos, incluindo imigrantes.

Reformas estruturais são, sem dúvida, necessárias, mas a sua viabilidade depende sobretudo de factores internos como a qualidade da governação, capacidade institucional, combate à corrupção e construção de um consenso político duradouro.
Em última análise, a violência xenófoba não é a causa, mas a consequência. É o reflexo de um contrato social fragilizado, onde a promessa de inclusão ainda não se materializou para uma parte significativa da população. Enquanto essa promessa continuar por cumprir e enquanto choques externos continuarem a expor fragilidades internas, a “nação arco-íris” permanecerá menos como uma realidade consolidada e mais como um ideal por alcançar.

Neste momento, faço um apelo a todos que possuem parentes naquele país para que procurem locais seguros ou considerem a saída imediata. Não tenho conhecimento se o MIREX já emitiu orientações nesse sentido, mas é imprescindível tomar precauções até que a situação esteja sob controlo.

Artur Cussendala Sábado, 25ABR2926

quinta-feira, 23 de abril de 2026

QUANDO A BARBA DO VIZINHO ARDE ...

O novo surto de xenofobia na África do Sul não pode ser tratado apenas como irracionalidade popular. Ele é, antes de tudo, o reflexo de um fracasso político profundo. Quando o Estado falha em garantir emprego, segurança económica e dignidade aos seus cidadãos, cria-se um ambiente onde a revolta social procura alvos e, quase sempre, esses alvos são os mais vulneráveis e no caso os estrangeiros.

É legítimo que qualquer nação coloque os seus cidadãos no centro das suas políticas públicas. Um país existe, em primeiro lugar, para servir o seu povo. Ignorar isso, em nome de discursos abstratos de integração, é negar a própria base da soberania nacional.
No entanto, é intelectualmente desonesto atribuir aos estrangeiros a responsabilidade pela crise. A presença de imigrantes em sectores económicos não acontece por acaso, acontece porque há falhas estruturais como a ausência de apoio ao empreendedor nacional, falta de acesso ao crédito, sistemas de formação ineficazes e uma economia incapaz de absorver a sua própria mão-de-obra.

Em Angola, o cenário não é diferente. A título de exemplo: a exploração do Petróleo é feita por norte-americanos ou franceses; o negócio grossista alimentar é feito por libaneses; os comércio de auto peças por nigerianos; o comércio realista por chineses e oeste africanos e até a venda de inertes e água, está na mão de chineses e cubanos. Cresce a percepção de que determinados sectores estão nas mãos de estrangeiros, enquanto muitos angolanos enfrentam desemprego e precariedade. Mas essa realidade não é fruto de uma “invasão económica” é consequência directa de políticas públicas frágeis e de um modelo económico que não prioriza, de forma efectiva, o cidadão nacional.

Defender que os estrangeiros e em especial os africanos contribuam para o desenvolvimento dos seus próprios países é uma posição legítima. Mas isso só será possível quando existirem Estados capazes de oferecer condições reais de vida, trabalho e progresso. Enquanto isso não acontecer, a migração continuará a ser uma válvula de escape inevitável.
A solução, portanto, não está na hostilidade nem na exclusão, mas na afirmação clara de três pilares, a saber:

- prioridade efectiva ao cidadão nacional nas políticas económicas;

- regulação firme e transparente da imigração;

- responsabilização política dos governos pela incapacidade de gerar oportunidades.

Sem isso, continuaremos a assistir ao mesmo ciclo, onde os Estados falham, populações revoltam-se, estrangeiros são culpados e nada de estrutural muda.

O governo angolano deveria adotar uma postura cautelosa, pois, actualmente, são os sul-africanos que recorrem à violência contra estrangeiros, mas amanhã tal fenômeno poderá afectar as cidades estrangeiros em Angola e angolanos de maneira trágica nas nossas pacatas cidades e vilas.

Artur Cussendala Quinta, 23ABR2026
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sábado, 11 de abril de 2026

FOMOS ENGANADOS?




Há cinquenta anos, em um período marcado pela limitada disponibilidade de tecnologia avançada, a humanidade realizou a extraordinária façanha de enviar astronautas à Lua, enfrentando o desconhecido e navegando quase que às cegas pelo espaço. Durante essa histórica missão, não apenas conseguiram pousar em segurança no solo lunar, mas também transmitiram ao vivo, em tempo real, tanto pela televisão quanto pelo rádio, directamente da superfície lunar, um feito monumental para a época que capturou a imaginação de milhões ao redor do mundo. Em contraste, actualmente, vivemos em uma era de tecnologia abundante e sofisticada, que nos oferece a capacidade de sonhar com viagens a Marte e a exploração quase completa dos confins do nosso sistema solar. Entretanto, paradoxalmente, para planejar o envio de uma nova equipe ao solo lunar, torna-se necessário o deslocamento e a dedicação de uma eq

uipe de pesquisa, focada em analisar e estudar detalhadamente o percurso a ser seguido. Isso levanta a intrigante questão: será mesmo que a humanidade já deixou sua pegada na superfície lunar, ou estaria essa história envolta em dúvidas e mistérios? 

Eu, pessoalmente, ainda guardo minhas reservas e questionamentos sobre este marco da história espacial.

Artur Cussendala Sábado, 11ABR2026

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A HUMILHAÇÃO DOS "FORTES"...


Aceitar um cessar-fogo condicionado à análise de propostas do adversário dificilmente pode ser visto, de forma simplista, como uma “derrota humilhante” de uma superpotência como os Estados Unidos. Na geopolítica, recuos táticos e pausas operacionais fazem parte de estratégias mais amplas, onde o tempo, a reposição de capacidades e a gestão de alianças contam tanto quanto o poder militar bruto.

Ainda assim, o facto de uma proposta com maior número de pontos  (como a iniciativa norte-americana) não ter sido aceite como base inicial de diálogo, enquanto a do Irão ganha centralidade, pode ser interpretado como um sinal de perda de iniciativa política no terreno diplomático. Isso não significa necessariamente fraqueza estrutural, mas revela que o adversário conseguiu impor o ritmo e os termos do debate, algo que tem peso simbólico e estratégico.

Por outro lado, o comportamento do Irão demonstra uma combinação de resiliência, disciplina e cálculo estratégico. Mesmo enfrentando dois adversários tecnologicamente superiores, conseguiu manter capacidade de resposta suficiente para evitar uma capitulação rápida, o que, por si só, já altera a percepção de equilíbrio de forças.

Assim, o cessar-fogo pode ser lido sob duas perspectivas não mutuamente exclusivas: por um lado, uma pausa estratégica dos EUA para reavaliar custos, reposicionar meios e consolidar apoios; por outro, uma vitória tática do Irão no plano político-diplomático, ao conseguir trazer o adversário para um terreno de negociação mais favorável.

Mais do que uma humilhação definitiva, o que está em causa é uma disputa pela narrativa e pelo controlo do tempo, dois elementos cruciais em conflitos assimétricos, onde nem sempre vence quem tem mais poder, mas quem melhor o gere.


Artur Cussendala Quarta-feira, 08ABR2026

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A oposição que se divide enquanto sonha governar



Por: Artur Cussendala Quinta, 19FEV2026


Há algo profundamente irónico na actual engenharia política da oposição angolana. Fala-se em alternância, mudança, viragem histórica… mas, internamente, reina uma fragmentação que faria corar qualquer estratega minimamente pragmático.

A UNITA, partido fundado por Jonas Malheiro Savimbi, construiu-se como estrutura de combate, identidade sólida e narrativa própria. Não nasceu para ser satélite de ninguém. Nasceu para disputar poder.

E agora? Fala-se em coligações com o Bloco Democrático e o Partido Liberal. Não por afinidade ideológica profunda, não por convergência estratégica estruturada, mas por necessidade matemática.


Quando um partido maior se junta a partidos que lutam pela própria sobrevivência institucional, não é altruísmo político, é cálculo defensivo. É contenção de danos.

O Bloco Democrático quer continuar a existir.

O Partido Liberal quer começar a existir.

E a UNITA quer continuar a parecer que está a crescer.

Mas crescer não é apenas somar siglas. Crescer é consolidar base, manter unidade e transmitir estabilidade. E é aqui que reside o verdadeiro problema.

A cada ciclo eleitoral, surge mais um dissidente, mais um “novo projecto”, mais uma liderança iluminada que decide que o problema nunca foi estrutural mas pessoal. E assim, a oposição fragmenta-se em pequenas capelas políticas, cada uma convencida de que carrega a verdadeira pureza ideológica.

Enquanto isso, quem observa de fora não vê estratégia. Vê desorganização.


Há um paradoxo curioso nisso tudo, critica-se o partido no poder por hegemonia prolongada mas oferece-se como alternativa uma constelação de egos concorrentes. E política, goste-se ou não, é também percepção. E percepção de instabilidade afasta eleitorado moderado.


Será desespero? Talvez não.

Será fragilidade? Possivelmente.

Será cálculo? Sem dúvida.


Mas há uma linha muito ténue entre estratégia inteligente e sinal de fraqueza estrutural.

Porque se uma coligação fortalece, ela amplia poder.

Se apenas preserva o que já existia, ela revela medo de perder.


2027 poderá não ser o ano do “milagre”. Milagres políticos raramente acontecem onde não há coesão interna. O que pode acontecer é algo mais silencioso, como a consolidação de uma oposição que fala alto, mas chega dividida.

E em política, quem chega dividido, governa dividido, quando governar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

ESTÃO MUDOS E CALADOS


Há ironias políticas que fariam rir, se não fossem tão reveladoras. Uma delas é assistir a certos sectores da UNITA, outrora um movimento de libertação com discurso soberano, a transformarem-se em fãs entusiasmados de agendas importadas da extrema-direita europeia, como se Angola fosse apenas uma extensão suburbana da política portuguesa.

De repente, surgem “analistas” improvisados, "militontos" digitais de ocasião e defensores fervorosos de figuras como André Ventura, líder do CHEGA, um partido cuja retórica política dificilmente teria espaço para muitos dos seus próprios apoiantes africanos, caso estes fossem apenas mais um rosto na fila da imigração aí na avenida de Portugal em Luanda. Mas nas redes sociais tudo é possível e a contradição vira coragem e a submissão ideológica passa por lucidez estratégica, tudo porque o "pula" lá da "Tuga" não tolera os gatunos do MPLA.

No centro deste fenómeno está uma certa elite luso-bujurra-angolano que tentou redesenhar a identidade do maior partido da  oposição, afastando-a da sua raiz histórica angolana para a aproximar de discursos importados, embalados como se fossem sinal de modernidade política. O resultado? Uma base militante barulhenta, repetitiva e cada vez mais desligada das preocupações reais dos angolanos, os famosissimos “combatentes de teclado” ou milicianos digitais como se queira, sempre prontos para a guerra virtual, mas silenciosos quando a realidade política bate à porta.

E o silêncio de hoje nas redes sociais? Não é um acaso. É o eco de uma derrota estrondosa de André Ventura ontem em Portugal. O esvaziamento do novo "mito", o cansaço da narrativa, a queda do “discípulo” que prometia regeneração moral e acabou prisioneiro das próprias contradições e punido nas urnas pelos portugueses de bem. Quando o líder perde aura, os seguidores perdem voz. E quando o marketing político se desfaz, resta apenas o embaraço colectivo (Savimbi deve estar a se revirar na tumba lá em Lopitanga).

O problema não é a UNITA ser de direita ou de esquerda, afinal os partidos evoluem, ideias mudam. O problema é transformar a oposição angolana numa sucursal ideológica de agendas estrangeiras que pouco compreendem a realidade histórica, social e cultural do nosso país e do nosso povo. Uma coisa é cooperação internacional; outra bem diferente é trocar a soberania intelectual por aplausos importados.

A quem serve esta transformação do Galo-Negro? Ao povo angolano que precisa de propostas sérias e enraizadas na sua realidade  ou a um pequeno círculo que prefere parecer moderno lá fora, mesmo que isso signifique perder o rumo cá dentro?

Pronto! Falei mbora...

Artur Cussendala Segunda, 09FEV2026

sábado, 7 de fevereiro de 2026

SALVEM A UNITA PARA O BEM DA DEMOCRACIA


Por Artur Cussendala SEXTA, 07FEV2026

A decisão da filha do fundador da UNITA de avançar para a criação de um novo partido político, rompendo com a liderança de Adalberto Costa Júnior, não pode ser analisada como um facto isolado nem como simples “diversão política”. Trata-se de mais um episódio num longo histórico de fracturas internas que têm marcado a UNITA desde o desaparecimento físico de Jonas Savimbi.



Desde 2002, o partido nunca conseguiu resolver de forma definitiva a tensão entre legado histórico, liderança efectiva e adaptação ao novo contexto político angolano. As sucessivas disputas internas, ora ideológicas, ora personalistas, têm produzido cisões que, em vez de fortalecerem a oposição, a fragmentam e a tornam politicamente previsível e eleitoralmente frágil.

Invocar a “mudança” como justificação para mais uma divisão soa contraditório. A experiência política angolana demonstra que a fragmentação da UNITA não cria alternativas reais ao poder dominante mas sim micro-partidos sem implantação nacional, dependentes de figuras simbólicas e incapazes de disputar o poder de forma séria. Dividir não é reformar; dividir, neste contexto, é enfraquecer.


A ideia de que poderão emergir dois grandes pilares simbólicos, um em torno do nome Savimbi e outro associado aos ideias de Mungai, ignora uma realidade elementar, já que o capital político da UNITA não é hereditário. Não se transmite por laços de sangue nem por apelos emocionais à memória do fundador. Constrói-se com unidade, organização, disciplina interna e ligação real às aspirações populares. Sem isso, o legado transforma-se apenas num instrumento retórico.

Enquanto a oposição se ocupa em disputas internas e projectos paralelos, quem observa tudo com tranquilidade estratégica é o MPLA. Não por virtude própria, mas porque quase todos os partidos recém-criados vão buscar os seus quadros, militantes e eleitorado à UNITA. O efeito prático é a erosão contínua da única força política com capacidade histórica e estrutural para disputar o poder central.

Este padrão repete-se há anos com cisões justificadas em nome da renovação acabam por produzir partidos sem expressão eleitoral, líderes sem base social e uma oposição cada vez mais dispersa. O resultado é uma falsa pluralidade que apenas legitima a manutenção do statu quo.


Angola não carece de mais siglas políticas; carece de uma oposição forte, coesa e estrategicamente madura. Enquanto a UNITA continuar a dividir-se em pequenos projectos personalistas, a chamada “mudança” permanecerá um slogan vazio e o poder continuará exactamente onde sempre esteve.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Os moralistas sem moral

 Depois de ler milhares de páginas, relatórios, depoimentos e investigações ligadas ao caso Jeffrey Epstein, torna-se impossível continuar a fingir inocência ou surpresa. O que este escândalo expõe não é um “caso isolado”, mas o funcionamento real do poder no mundo ocidental.

Por: Artur Cussandala 


Epstein não era um excêntrico rico que se desviou do caminho. Era uma peça funcional de um sistema, frequentado por presidentes, primeiros-ministros, membros da realeza, chefes de serviços secretos, magnatas financeiros e figuras centrais da academia e dos media. O que está documentado é suficiente para concluir que crimes gravíssimos, incluindo a exploração sexual de menores, foram cometidos com conhecimento e cobertura de sectores do Estado.

O mais chocante não é apenas o crime, é o encobrimento organizado. A justiça foi selectiva, as investigações travadas, os processos abafados, as provas desapareceram e os nomes mais poderosos foram cuidadosamente protegidos. Num sistema que se diz democrático e defensor dos direitos humanos, ninguém relevante foi condenado. Isto não é falha: é método.

Fica claro que existe uma elite política e financeira que opera acima da lei, protegida por redes de chantagem, favores cruzados e cumplicidade mútua. Quem entra nesses círculos aceita regras não escritas e aceita silêncio, obediência e lealdade ao sistema. A moral pública é apenas um discurso para consumo das massas.

Não é preciso provar rituais macabros para entender a profundidade da podridão. O simples facto de uma rede de abuso de crianças ter funcionado durante décadas, envolvendo gente do topo do poder mundial, sem consequências reais, já demonstra que o sistema está moralmente falido. Quando a justiça só cai sobre os fracos, deixa de ser justiça e passa a ser instrumento de dominação.

O caso Epstein é um aviso claro para o resto do mundo, incluindo África: o Ocidente não é o árbitro moral que finge ser. Por detrás do discurso civilizacional, dos direitos humanos e da democracia exemplar, existe um poder cínico, violento e hipócrita, disposto a tudo para se manter intacto.

Quem ainda acredita que estas elites governam com base em valores, e não em interesses, chantagem e impunidade, ou não leu os documentos — ou prefere continuar a dormir tranquilo.

sábado, 31 de janeiro de 2026

 


MINHA OPINIÃO SOBRE O FIM DO CONFLITO NA UCRÂNIA 


Há uma verdade que o discurso oficial insiste em esconder. A guerra na Ucrânia nunca foi apenas entre a Ucrânia e a Rússia. Desde o primeiro dia e que passei a reportar, sempre achei que trata-se de uma guerra de procuração, cuidadosamente arquitetada por Washington do velhote "João Bidon", onde os ucranianos forneceram o território, o sangue e a devastação, enquanto os Estados Unidos forneceram armas, inteligência e a agenda estratégica.

Se o ministro ucraniano das relações exteriores admite que Kiev assinará um plano de paz de 20 pontos com os EUA, enquanto Washington negoceia separadamente com Moscovo, excluindo a União Europeia, isso não é traição nem surpresa. É apenas a confirmação tardia de quem sempre mandou no conflito.

Vou tentar me explicar:

A Ucrânia não tinha autonomia real para iniciar a guerra com a Rússia, nem a tem agora para a encerrar. Foi empurrada para um confronto impossível de vencer, com a promessa ilusória de integração euro-atlântica e proteção total da NATO, promessas que nunca passaram de retórica útil. Agora, exaurida militarmente, esvaziada demograficamente e economicamente hipotecada por décadas, cancela a procuração, porque já não serve o objectivo inicial.

A Rússia, por seu lado, nunca combateu verdadeiramente a Ucrânia. Combateu a expansão da NATO, a humilhação estratégica pós-Guerra Fria e a presença americana nas suas fronteiras. Por isso, o interlocutor real de Moscovo sempre foi Washington e não Bruxelas, nem Kiev.

Quanto à União Europeia, o seu afastamento das assinaturas finais apenas confirma o óbvio, a Europa financiou a guerra, sofreu as consequências económicas e energéticas, mas não teve palavra estratégica. Reduzida a apêndice diplomático dos EUA, pagou caro por uma guerra que não controlou e que agora não consegue encerrar.

O eventual acordo não significará paz justa nem vitória moral. Será apenas o fecho pragmático de uma fase de confronto entre impérios, onde a Ucrânia foi usada como tampão geopolítico e descartada quando deixou de ser funcional.

Em termos crus, a Ucrânia não perdeu a guerra, foi consumida por ela.

E a Europa não foi derrotada, foi irrelevante.

Qual é a sua opinião?

Comente aí e não deixe de me seguir e compartilhar.


Artur Cussendala Quinta, 29JAN2026

O TEMPO PASSA… E, ÀS VEZES, NEM NOS DAMOS CONTA

Hoje deparei-me aqui, no Facebook, com a lista dos candidatos admitidos ao exame de acesso ao Concurso Público de Ingresso no Ministério da ...